24.4.06

Uma certeza aguda

Há muito tempo que eu não vinha aqui. Comecei este «blog» por achar que na geometria encontraria uma forma não geométrica de me exprimir. Depois dediquei-o à filosofia portuguesa. Com o avolumar daquilo a que me obriga o meu emprego, que eu sou mal empregado, patrão de mim mesmo e ao serviço dos outros, passam-se dias em que nem um pensamento sequer, quanto mais uma filosofia. Esta manhã um sentimento de não poder definhar mais a pontos de estar como estou, acordou comigo, no mesmo sofá. Vim aqui deixar esta nota. Escreveu-a o Reinaldo Ferreira, esse mesmo, o repóter. Li-a como se minha fosse ou de mim falasse: «Tome-se um homem, feito de nada, como nós, e em tamanho natural. Embeba-se a carne, lentamente, duma certeza aguda, irracional, intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, agite-se um pendão e toque-se um clarim. Serve-se morto». Di-lo, comovidamente, o Mário Viegas. Ouço-o, raivosamente, eu, que aqui o cito.

16.4.06

A sagesse caprina

Permita-me o incomunidades a citação: «Não se sabe o que fazem, porém mexem-se. Alinham os bodes sem formatura no mais castanho-vivaz dos carreiros entre-verdes. A sagesse caprina domina as presenças ignorantes, sua quietude altaneira oprime os compassados, os que inverteram o grito e são agora profissionais, batem, por exemplo, no burro sempre que o social os aliena». Notável frase, notável blog.

12.4.06

O hino à claridade

Por bem fazer, mal haver. Trata-se de Rosa Araújo, recordado aqui, pela voz da Villaret, tal como o lembrei, revoltado, também aqui. Leia-se mais, por exemplo aqui. É um dos muitos portugueses de que Portugal se esqueceu.

7.4.06

A esquisita revelação

Escrevi no dia 7 de Junho do ano passado, num blog que morreu chamado «O Mundo em Gavetas»: «Talvez eu consiga encontrar apenas de noite, escondido do resto e albergado dos outros um espaço e um momento, um instante singelo na complexidade do mundo plural que me aflige: poderia ser esta casa na duna, ou talvez seja uma criatura. Oculto como é esse mundo, o revelá-lo destruir-lhe-ia o encanto, quero dizer, o encantamento». Um destes dias comemoro esta frase, reparando que me esqueci dela, completamente.

2.4.06

Portugal uno e plural

O controverso Orlando Vitorino arquivou num livro a que chamou «Exaltação da Filosofia Derrotada» o que chamou «Uma Constituição para Portugal». Não vem agora ao caso falar disso, só lembrar, pelo muito que nele se diz, o que é o segundo princípio dessa sua proposta de Lei Fundamental: «Portugal é uma Nação, uma Pátria, uma República e um Estado». Digo isto e disto me lembro pois que, olhando para o que se passa, Portugal é às vezes, apenas algumas, outras vezes, uma só, destas muitas coisas de que deveria todas afinal, numa só e única coisa.

1.4.06

Não separe o homem

Istambul é a única cidade do mundo que se situa em dois continentes. Isso que mostra que a terra separa aquilo que o céu uniu: um só mundo, um só espírito com muitos deuses.

30.3.06

O culto do silêncio

Barricavam-se nas tertúlias, a filosofia surgia-lhes entre chávenas de café, pensamento pigarreante, as ideias em intervalos, o pensar como exasperação de empregos rotineiros e de ocasião. Funcionários modestos, professores de liceu, tradutores do que calhava, muitos sem escola, deixaram uma escola. As Academias desprezavam-nos, as Faculdades nem os queriam ver. Alguns são o que se chama a filosofia portuguesa, nómada e errática. A sua fé é na Pátria dos Portugueses o seus Deus uma divindade incorpórea, o divino Espírito Santo, que todos veneram, mesmo os que rezam em silêncio por uma Nação que não morreu.

29.3.06

O dom sugestivo e vagabundo

Augusto de Castro Sampaio Corte Real, que foi jornalista, director do «Diário de Notícias» e diplomata, publicou em 1928 um livro chamado «As mulheres e as cidades», em cujo prólogo escreve, a propósito do amar e do viajar o seguinte: «viajar e amar não é para todos a mesma coisa. Nós nunca amamos uma criatura humana: amamos a ilusão que em nós próprios formamos dessa criatura. Da mesma forma, para aqueles espíritos que possuem o dom sugestivo e vagabundo de evocar, viajar é passear pelo mundo real um mundo imaginário». O mais interessante é ter encontrado um blog que o cita, com carinho, pelo livro em si e pelo modo como o encontrou, de alguém que descobriu, vendido ao quilo, «este livro que alguém amou muito».

27.3.06

Acreditar em Portugal

Filho primogénito de António Ferro e de Fernanda de Castro, António Quadros, de seu nome completo Antóno Gabriel Quadros Ferro morreu no dia 21 de Março de 1993. Antónia de Sousa entrevistou-o para o Diário de Notícias que foi publicado dez dias antes do seu desparecimento. A terminar essa conversa, que seria a última, perguntou-lhe que mensagem gostaria de dirigir aos portugueses. Quadros, que sempre viveu com a intranquilidade estimulante de ter ficado aquém dos seus desejos, respondeu: «Acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de vós e sem Portugal sois menos do que sois».Lembrei-me esta noite desse grande homem e de ter escrito em 1922 um livro actual que se chamou «Memórias das Origens, Saudades do Futuro». Talvez amanhã, chapinhando no charco em que caímos, consigamos manter a crença e viva a esperança. Hoje fica apenas este momento de lembrança.

24.3.06

Porque

«Portugal existe, porque foi construído pelos portugueses«. A frase. com tudo o que tem de notável, pertence a Agostinho da Silva, numa entrevista dada a Miguel Esteves Cardoso, um estrangeirado que fala português.

23.3.06

A prova real

Desejos multiplicados, receios diminuídos, face à adversidade, dividir, nos bons momentos, adicionar, esta é a aritmética simples dos afectos. Depois, há as operações mais complexas, as do cálculo frio dos interesses, a geometria dos equilíbrios. No mais, há quem viva estatísticamente, no risco da maior probabilidade, quem sobreviva em conjuntos, no conforto dos mundos concêntricos. Há quem conte pelos dedos, quem não saiba a prova dos nove. Noves fora nada!

21.3.06

Um exercício de estilo

Num livro ingénuo, que encontrei em luxuosa encadernação contrastante com a sua tipográfica modéstia, tirado em 1964, e dedicado «a quem morreu como viveu», Pinharanda Gomes, que em Quadrazais nasceu em 1939, põe na boca de Teófilo, em diálogo socrático com Crisóstomo a pergunta para a qual a minha vida ainda me não ofereceu sequer o favor de uma resposta: «o que é o modo e viver senão o exercício da morte?». «Nascer, é aparecer para morrer», dissera Crisóstomo, umas folhas antes, como se a propósito.

17.3.06

Espectador da vida

Deve-se à genialidade do pintor Almada Negreiros a fórmula que resolve numa equação enigmática a individualidade humana e o mistério do amor unitivo. No seu 1+1=1, resume-se o princípio que na química se manifesta quando o dióxido de carbono, inoculado num líquido, perde as suas propriedades próprias e assume as do próprio meio onde se espraia. É assim a união carnal, liquefazendo-se ambos, num extâse criador. «Tu és tu, porque é assim que és», disse ele, complacente no vértice de uma vulgar tragédia. Eu sei, pensei eu, espectador da vida, mineralizado em conceitos, és apenas um número, a tua angústia o não saberes se, ao sê-lo, és o máximo divisor, se o menor denominador comum. Um número, apenas isso. O número perfeito, irracional, o número de ouro, a extrema razão.

14.3.06

O som maravilhoso

O último livro que o António Alçada Baptista escreveu, publicado em 2003 e que oxalá não seja o último livo que o António Alçada Baptista escreva, chama-se «A Cor dos Dias» e são pequenas notas bem-humoradas, longe do estilo íntimo e espiritualizado da sua «Peregrinação Interior». Naquele fala alto e bom som com cada um de nós, neste falava num mumúrio com o próprio Deus. E, talvez por isso, perguntado que foi sobre «o que faz o senhor quando está só», revela-nos ter respondido: «escuto-me a viver e é um som maravilhoso».

11.3.06

Pascal: o geómetra dos sentimentos

Quando tinha dezasseis anos, Pascal descobriu que «se partirmos de um hexágono inscrito numa cónica, então os três pontos nos quais os pares de lados opostos se encontram ficam alinhados». Este teorema tem o seu nome. Quando eu tinha dezasseis anos, descobri o Pascal à força de ter de aprender filosofia no Liceu, com um professor que se chamava Pelicano. Mas o Pascal que eu encontrei, ensinou-me esta regra para toda a vida: o amor é cego, a amizade fecha os olhos. Vem nas folhinhas de um livro que ele nunca conseguiu acabar, o livro que nem precisava de escrever.

8.3.06

Apóstrofe

«O português gosta de fazer projectos vagos, castelos no ar que não pensa realizar. Mas no seu íntimo alberga uma secreta esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente». Esta frase foi escrita há cinquenta anos, por Jorge Dias, o antropólogo que estudou em adulto, morreu cedo e nos deixou o levantamento etnográfico sobre o comunitarismo de uma aldeia hoje submersa, Rio de Onor e uma colecção vasta de estudos. O livro chama-se «O Essencial sobre os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa», foi publicado pela Imprensa Nacional de 1985. Encontrei-o referido no «site» do Centro Nacional de Cultura, num artigo de Guilherme de Oliveira Martins, que agora, é pena, mas assina «d'Oliveira Martins».

5.3.06

Aritmética e geometria, essas palavras femininas

Olhares oblíquos, pensamentos transversos sobre volumétricas formas de improváveis mulheres, o piramidal acicate da carne, o ortorrômbico da crustácea desilusão. A cardinalidade dos números inteiros mostra a sua natureza finita. Contando-as pelos dedos, as que passam por esta rua, saídas do colégio, parecem não mais acabar.

4.3.06

Trier

Ter uma filha que esteve em Trier, ter eu já estado em Trier, ter o Karl Marx estado em Trier e terem estado, antes de todos nós, os romanos em Trier, faz-me lembrar que nada há hoje que não tenha sido, o que foi, será. Eu sei que é uma esperança de vida e uma ânsia de camaradagem, entre nós, antropologicamente semelhantes e por isso diferentes.

2.3.06

Teologia de táxi

Foi no táxi, porque foi no táxi que tive dez minutos de tempo, o livro era pequeno, cabia num cantinho da pasta e o capítulo menor ainda, legível na duração da corrida. Era o Borges, o Jorge Luís, com quem fiz as pazes e que leio agora, descobrindo-o - eu analfabeto confesso, arrependido da incultura, agora na meia-idade, que é a idade do saber - filósofo profundo, escritor sensível, irónico observador. Numa breve reflexão sobre o tempo circular, lança a ideia delirante de um conto, que talvez nem tenha chegado sequer a escrever, de um teólogo que persegue o herético, denuncia-o e fá-lo queimar nas fogueiras inquisitoriais para descobrir, num espanto tardio e já inútil, que para Deus omnisciente, Nosso Senhor, o herege e ele eram, afinal, uma única e só pessoa. É assim que se compreende o sublime da vida: cada coisa precede-se a si própria, mas só no infinito do eterno o múltiplo se funde no um, para se expandir no vário, renascendo no exacto momento de morrer.

1.3.06

A lesma, esse caracol sem casca

O «cá se vai» tão tipicamente português é a forma adequada de exprimir o nosso modo de ser: vista do ponto de vista verbal, sugere movimento, a sua verdadeira significação é o simbolizar o imobilismo. Normalmente, acrescenta-se um «tudo na mesma», para não haver enganos e alguém imaginar que estamos de partida. O melhor remoque ainda é o «tudo na mesma, como a lesma»: assim percebe-se tudo e ainda se pode responder, querendo ser amável: «é a vida, não é?», não vá alguém supor que estamos mortos, cá se indo!

27.2.06

O nítido nulo

Através da História conhecemos todo o tempo que os outros nossos antecedentes já viveram, através da Geografia, conhecemos mais mundo do que eles conheceram. A única dúvida é não sabermos quando começou o tempo nem onde acaba o mundo. Dividindo infinito por infinito o resultado é zero. Ou seja, comparando-nos com os nossos antecedentes, estamos pior, ao nível do nulo, nitidamente.

26.2.06

A tautologia e o cardíaco

Bertrand Russel disse um dia que as matemáticas mais não são do que uma vasta tautologia, já que dizer três mais quatro é, afinal, uma outra forma de dizer sete. É por isso que a gramática poética é o fundamento do único conhecimento e da única linguagem enriquecedoras: não por se aprender com a cabeça, mas sim porque se apreende com o coração.

Os blogs de JAB!

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.

23.2.06

Por causa que não na sei

Sabem os que sabem que a «Menina e Moça» do Bernardim Ribeiro é um livro carregado de sentidos ocultos e que se presta a hermenêuticas esotéricas. E sabem muitos, sobretudo os que como eu aprendiam Literatura no liceu com gosto, ou à força de chapadas, ou num misto de tudo, que ele começa com «Menina e Moça me levaram de casa de meu pai para longes terras». Agora o que nem todos sabem é o resto: «Qual fosse então a causa daquela minha levada - era pequena - não na soube. Agora não lhe ponho outra, senão que já então parece havia de ser o que depois fui». Haverá melhor forma ou outro meio de, numa frase só, dizer de todo o fatal sentimento deste povo predestinado e do seu fado ignorante? Talvez haja e vem no livro, ainda no seu prefácio: «O livro há-se ser o que vai escrito nele. Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas». Eis-nos pois, em desordem, pela vida levados, por causa que não na sabemos, com uma tristeza que nem podemos contar.

16.2.06

A charanga

Agora vai ser até rebentarem com o Agostinho da Silva. Quando era vivo quase metade ignorava-o, a maioria do resto tomava-o como um palhaço, uma minoria compreendia-o. É para isto que servem as efemérides, para matar os mortos, ressuscitando-os primeiro. Houve um livro que ele escreveu em 1981 que se chamava «Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro». A ideia de orquestra pode induzir em erro. Em matéria de História e de Futuro, somos mais um realejo. Dá-se à manivela e já se sabe o que lá vem. Por isso é melhor deixarem passar a festa das comemorações. Quando retirarem os mirones e os gaiteiros, talvez se possa, enfim, tratar o assunto com respeitabilidade. Dele disse o Ruben A. esta coisa lindíssima, que consegui encontrar na página 101 do segundo volume do seu livro de memórias «O Mundo à minha procura»: «Ensinava-nos a não perder tempo, a ganhar tempo, a completar iniciativas que se discutiam». Um homem destes faz falta na vida de um país. Hoje, no burlesco comemorativo do espectáculo social em que vivemos, de barbicha ao vento e gato ao colo, é apenas uma forma de passar o tempo.

12.2.06

A angústia do amor

Adolfo Casais Monteiro traduziu para português «O desespero humano» de Sören Kirkegaard. Dedicou o trabalho a Leonardo Coimbra. Encontrei agora o livro, tirado em 1936 pela Livraria Tavares Martins, num monte de velharias amarelecidas, a cinco euros cada. Dentro, guardada por algum seu leitor, a cinta vermelha que guarneceria a obra, resumindo-a como «o desespero das almas que não querem abandonar-se à misericórdia e ao perdão de Deus». Não vou ter tempo de o ler tão cedo, mas lembrei-me esta noite de ter lido sobre quem tivera um papel primordial na conversão de Leonardo: o Padre Cruz. Procurei recordar onde o lera e encontrei-o, um breve artigo de Pinharanda Gomes, arquivado nas Actas de um Colóquio que se chamou «As linhas míticas do pensamento português». Estava entre os livros que, aqui por casa, haverão de voltar para a estante, quando houver mais estante. Folheei-o agora, para me deter numa carta que o Padre [Francisco Rodrigues da] Cruz escreveu a Leonardo em Dezembro de 1935 e onde a certo passo cita Santo Afonso: «quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer». Ora Deus quis que este homem se convertesse, ele não quis outra coisa que esta conversão. Desesperado, tinha então um filho a morrer. A fé surgiu-lhe na angústia do amor.

10.2.06

Rio Mau

Passei de carro, era perto de Vila do Conde. E levava na memória o nome: Rio Mau. Na curva da sinuosa estrada, ainda me passou pela cabeça a ideia de subir, procurar, encontrar. Mas é isto o selvagem urbano com um automóvel nas mãos: segui deliberadamente em frente, regressando a Lisboa. Tinha lido em Dalila Lelo Pereira da Costa, na sua «Corografia Sagrada», onde compilou um artigo que publicara em Agosto de 1989, que era ali que estava o homem engolido pelo monstro, simbolizado na Igreja românica de São Cristóvão de Rio Mau. Erguida pelos Templários, nela está expresso «o valor ritual e existencial do sofrimento, como meio de transmutação». Na dureza granítica da vida, a ideia de que, no irrequieto movimento da viagem pela vida, não mais lá voltarei, persegue-me como se vistos os sinais, tivesse fechado os olhos à luz, o cego que não quer ver.

9.2.06

O menino e a criança

Em Dezembro de 2002 o Museu de Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, organizou uma exposição dedicada a outro notável filho da terra, Teixeira de Pascoaes. Advogado também - dos que se exilam nas letras - disse sobre ele a irmã, Maria da Glória, num livro, editado em 1971, que eu ainda hei-de encontrar: «foi sempre um homem, nunca foi criança». Pegando exactamente na frase, António Cândido Franco, acrescenta, no catálogo evocativo dos cinquenta anos da sua morte: «o que é também outro modo de dizer que ele foi sempre um menino, nunca um adulto». Parece absurda a conclusão; absurda porém a realidade que a impõe.

7.2.06

A noite e o riso

Li hoje num jornal que vão sair CD's com algumas das «conversas vadias» do Agostinho da Silva. Claro que para muitos, o que vai ficar é o lado burlesco do personagem, as barbas ao vento, o ar de São Francisco de Assis, de quem aliás escreveu uma biografia. Passou-se o mesmo com o Vitorino Nemésio, de quem muitas pessoas só se lembram do «se bem me lembro». É o que dá a televisão. Um único personagem resistiu, o maestro António Melo, que acompanhava ao piano o Museu do Cinema do António Lopes Ribeiro. Entrava mudo e saía calado, com uma única excepção, à despedida, o dizer «boa noute». Tal qual: «noute», que em bom português ainda é mais onomatopaicamente escura do que a noite.

2.2.06

Nos por cá, todos bem

O português naquela sua fusão rural do animal à terra, trai-se quando fala. Acontece com advérbios de lugar que se tornam como complementos pessoais. É o «você ainda há-de vêr o que é um caldo de galinha feito pela minha senhora». É evidentemente que o tem propósito e duplamente propósito no «para do Marão, mandam os que já estão». Mas o «da minha senhora», é outra coisa e um outro mundo, é o sentido e o afecto do « das minhas», esse mundo de intimidade familiar partilhado na mesma cama, sofrido na mesma malga, sepultado no mesmo chão.

A sala 3

Às vezes é só ir ao cinema ver um filme sobre o acaso e sair-nos, afinal, um filme sobre a necessidade: a útil necessidade de manter uma conveniência, a sensual necessidade de entreter um devaneio, a cruel necessidade de liquidar uma inconveniência. Depois é só o remorso da impunidade, o ridículo da justiça, a sordidez do mundo a oferecer um culpado. Às vezes é só ir ao cinema, numa noite de acaso, por necessidade de companhia.

29.1.06

Uma leitura esperançosa

Eu admito que o António Telmo não seja fácil, mas também foi má ideia, já exaurido, levar para fim de semana um ensaio seu, pequeno que fosse e no caso é mínimo, que ele escreveu em 1963 sobre o Henri Bergson, o filósofo francês que tentou a superação do positivismo e que é um dos muitos esquecidos prémios Nobel da Literatura. Talvez pelo facto de o livro se chamar «Arte Poética», lá foi, comigo esperançoso em vencer com ele a vida prosaica a que me sujeito. Mas confesso, ainda tentei entrar nas suas poucas folhas, só que não fui capaz. Apenas ficou uma frase logo do pincípio, que é nos livros onde logo se desiste se continuar, e que ainda sublinhei: «a lembrança é um movimento especulativo da memória; a recordação uma memória activa repassada de emoções». Se isto for assim e verdadeiro, do livro tenho uma má recordação, uma nula lembrança e uma escassa memória. Ou seja, tenho, em suma, de de lembrar que o melhor é lê-lo à semana: pode ser que vá!

27.1.06

A quididade do vinho

Tentando explicar se há uma «filosofia portuguesa» ou um «filosofar em Portugal» o Jesué Pinharanda Gomes, entrando pela intersecção do género para a espécie, dá o exemplo do vinho do Porto, que, na sua particularidade, não contradiz a universalidade do conceito de vinho. O autor do «Dicionário de Filosofia Portuguesa», para chegar à sua conclusão, segue um caminho aristotélico: pois que «próprio» é o que «mesmo não sendo a essência de uma coisa só a esta pertence», a essência do vinho do Porto é «vinho», o próprio é o «do Porto», que denomina a quididade daquele vinho, pelo qual ele se distingue dos outros! Há argumentos sólidos, outros líquidos, destes uns quantos embriagantes.

26.1.06

A um Deus ignoto e ignorado

Há no último número dos «Teoremas de Filosofia» um apontamento, escrito por Eduardo Soveral, sobre a obra e o pensamento de Amorim Viana, onde se diz que, tal como o intuira Cunha Seixas, não é a afirmação de Deus, mas sim a sua negação que levanta graves problemas, quer metafísicos, quer existenciais. Já tinha lido a frase e, inclusivamente sublinhei-a. Mas agora que li, há pouco, já nem sei onde, que não há verdadeiros ateístas, mas sim inúmeros anti-deístas, tudo isto passou a fazer sentido, um grave sentido e um não menos grave problema, não direi metafísico, mas no caso existencial. É que negar Deus já é, por estranho que pareça, acreditar n'Ele, pensando-o.E aí, mesmo o homem de fé perdida, já não tem salvação possível.

25.1.06

O quarto de uma laranja

Joaquim Francisco Telo Nunes Duarte Braga. Nasceu em Condeixa-a-Nova no dia 6 de Julho de 1925. Homem solitário, viveu em Queluz. Reformou-se de empregado bancário. Escreveu em 1959 um seu primeiro livro a que chamou «Teoria da Crença». A «Fundação Lusíada» editou-lhe os «Aforismos e Ensaios Filosóficos». Li-os há uns meses, essa sua amostra de uma obra de auto-didacta. Não é que tenha encontrado ali nada de extraordinário, ou no momento não estaria capaz de o achar. Mas voltei esta noite ao livro, pois houve, porém, uma frase que ainda hoje recordo e que sendo um provérbio chinês, é como se fosse parte dessa sabedoria universal, a mãe de todas as filosofias, a portuguesa nisso incluída: «um quarto de uma laranja tem o mesmo gosto de uma laranja inteira». Assim se saiba saboreá-la!

A segunda série

Este blog, como algumas revistas, vai entrar numa segunda série. Ao longo dos anos fui-me interessando, nas horas mortas, por aquilo a que se chama a «Filosofia Portuguesa». Não sei muito, mas talvez tenha alguma capacidade de incitar outros a saberem. Se assim for, terá valido a pena. Traçamos hoje a primeira linha dessa prancha. Haja sorte!

15.1.06

Um filósofo à mão de semear

As perguntas são inocentes, as respostas simplificadas. Mas a ideia é ter um filósofo à mão, a quem perguntar não importa o quê que pareça filosófico. O site é aqui. Uma das útlimas perguntas que um leitor lá colocou tem a ver com o interesse de se estudar filosofia. A resposta do filósofo de serviço é algo redonda, mas não deixa de dizer que através da filosofia se descobre que há muito tempo e muita energia perdidos à volta de questões sem sentido. Seguramente algumas das que lá estão calham que nem uma luva!

31.12.05

O génio e a Natureza

Em 1963 a BBC entrevistou William Seward Burroughs [1914-1997]. Chamou à conversa «a álgebra da necessidade». Nela o escritor mostra como a escrita cria alterações na consciência de si, como autor, e dos outros, como seus leitores. A alucinação em si pode ser induzida, o génio, porém, esse é uma dádiva da Natureza.

29.12.05

A lei do «stress»

Li aqui que «o capital fomenta uma insegurança que faz com as que as pessoas se lhe submetam». Esta racionalização do «stress» explica muita coisa, apesar de criar a insegurança complementar sobre a sua própria validade. Talvez não seja uma regra universalmente verdadeira, mas é pelo menos uma ideia recorrentemente plausível. Que o digam os que têm a angústia dos filhos a criar, ou do tempo de vida a diminuir. É a legião dos submetidos, fonte de recrutamento de todos os revoltados.

27.12.05

A cinética aplicada

Segundo a teoria da mecânica, a energia cinética é a medida do trabalho que é necessário desenvolver para que um corpo passe do estado de repouso ao de movimento: um número infinito seguramente o desta tarde com a carga de sono com que eu estava. Tudo começou com uma sestinha. A partir daí foi o descalabro!

26.12.05

A linguagem numérica

Diz-se de alguém que «possui a geométrica noção dos males e dos remédios, a percepção subtil do ridículo e da impossibilidade». Diz Mário Cláudio sobre Amadeo de Sousa-Cardozo, a quem Almada chamou, na linguagem numérica que é a dos pintores «o substantivo ímpar, 1».

24.12.05

Arestas

Há no «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira aquele momento em que ele fala de um personagem, «um tipo todo em arestas como um teorema de geometria». Mas mais: «um tipo dividido entre a aridez mecânica da política e a banalidade do homem comum». Acabei de ler o livro noutro dia, e voltei hoje a procurar a frase, uma extraordinária frase!

6.12.05

Ilogismo

Há na Fundação Gulbenkian uma pequena biblioteca de arte e nela livros de todas as artes e num deles um estudo amigável que Alberto Gomes escreveu sobre o pensamento de Jesué Pinharanda Gomes. Há nesse folheto, que de tão pequeno ser consegui lê-lo por almoçar depressa, um momento em que se diz que o rigor lógico dos portugueses é o ilogismo do rigor poético, que é a nossa razão intuitiva.

23.11.05

A hipotenusa da rectidão

O geómetra Pitágoras descobriu a harmonia do cinco: ele é a hipotenusa do triângulo rectângulo cujos lados são o 3 e 4. Eis a quintaessência do número, o sublime da ideia, o trevo de cinco folhas, o pentagrama da sabedoria universal, o momento do excepcional.

19.11.05

Lento e inexorável

Ali estava a expressão que dá coerência formal a este meu modo de ver geometricamente a vida que nos cerca: «uma aritmética sem paixão, que é que cabe na aritmética? A paixão é a vida». Vem no «Nítido Nulo», que lá continuo a ler, lenta mas inexoravelmente.

16.11.05

Positiva e animadora

A linguagem quantitativa tem destas ambiguidades: «pequena» e «pouca», uma das palavras mais própria para as unidade de medida, a segunda como unidade de peso. Não é diferença diminuta nem leve. Mas é uma ideia positiva e animadora.

12.11.05

Uma forma profunda de saber

O JL publica na última página textos de cunho auto-biográfico. Neste último número vem um da Luísa DaCosta. A certo passo falando do António José Saraiva diz que ele tinha por hábito visitá-la no Porto dizendo que o fazia para se aconselhar e que, ante a sua surpresa quanto a que «diabo de consulta poderia fazer a sabedoria à ignorância», ele lhe deu esta resposta magistral: «Está enganada. Redondamente enganada. A Luísa sabe da melhor maneira de saber. Sabe de instinto».

11.11.05

O tocador de campainhas

Esta noite vim passear aos blogs todos só para não dizer que não vim até cá. É como aqueles maníacos que tocam às campainhas dos prédios, só para ouvirem vozes a perguntarem quem é. No meu caso a coisa não chega a tanto; quando ouço que vão responder-me grito-lhes um «sou eu» e largo a fugir, blog abaixo, em risota desconcertada a lembrar-me da cara dos que se perguntam onde é que está a piada de tocar para nada e por coisa nenhuma.

6.11.05

A demonstração satisfatória

«Devo admitir em primeiro lugar que ainda não consegui uma demonstração rigorosa deste teorema. Como, em todo o caso, a sua verdade foi estabelecida em tantos casos, não pode haver dúvidas que é verdadeiro para qualquer sólido. Portanto a proposição parece satisfatoriamente demonstrada». A frase data do século dezoito e pertence a Euler. Eis a verdade possível, aquela cuja falsidade ainda não foi demonstrada, a verdade resistente, a verdade que subsiste.

2.11.05

Um par de galhetas

Apanhei-o, enfim, ao bandido! Qual rufia, malfeitor marginal, bem se tentava esconder, nos confins baixos de uma estante, quase ao alcance de uma saraivada de pontapés. Responsável pelo meu ódio à literatura, da minha raiva à língua de Camões e ao próprio Camões! O que eu sofri, sem saber então que era por causa dele! Agruras de não ser capaz, a crise de confiança nasceu ali, tal como as borbulhas da barba e pela mesma altura. Agora ali estava! Foi ontem, vinha eu de não me apetecer jantar. O ser chama-se Jerónimo Soares Barbosa. Escreveu em 1822, em plena revolução vintista, uma coisa imensa de monstruosa chamada «Gramática filosófica da língua portuguesa». Ali estava ela agora, na FNAC, uma «edição anastáticas», para que vingasse o exemplo, para memória dos coevos. Sabem o que eu descobri?. O malandrim polígrafo, que o seu panegirista chama de latinista exímio e helenista, depois de umas centenas de páginas sobre a arte de falar e escrever correctamente, atira-se, da página 434 em diante aos Lusíadas e desmonta-os aos pedacinhos, aplicando-lhes milimétrica e mesquinhamente todos e cada um dos mil princípios gramáticos que antes enunciara, incluindo as modificações prosódicas e os solecismos nas proposições parciais. Porquê a minha raiva de iletrado, esta fúria de ignorante? Porque os da minha geração, que à força de palmatória, dividiram as orações ao canto I o das armas e varões assinalados que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados, já sabem de onde veio a tortura. Foi ele! Se o apanho numa esquina, leva! De um par de galhetas não se livra!

23.10.05

Mundo de sofismas

Esgotada a demonstração racional «more geometrico», só a via caritativa da aquisição da verdade pela crença e pela confiança poderão salvar este mundo de sofismas. Chegados a este ponto de convicção, pergunto-me o que poderei considerar eu mais aqui. Atinjo os limites do irredutível, o do homem que, desconfiando na sua cabeça, se entrega aos ditames do seu coração. Perplexo como foi possível, não sei como continuar.

18.10.05

Um barba paradoxal

Se numa aldeia um barbeiro faz a barba a todos os que não fazem a própria barba, quem faz a barba ao barbeiro? Eu sei que é um paradoxo, mas lembrei-me dele ao dar conta que o barbeiro da minha rua tem um ajudante que um destes dias estava com a barba por fazer.

17.10.05

O esquadro

O esquadro tem esta coisa simbólica, o ser o símbolo da rectidão. Claro que muitos que o dizem e com isso se paramentam, são o contrário do que proclamam. Para esses resta o triângulo. Tem sobre ângulo, que o esquadro traça, a vantagem de ser fechado: não se perde o que se tem, não entram os que são de fora. Há quem viva disto e com isto prospere, mais do que simbolicamente, verdadeira e realmente.

16.10.05

Os sapatos e seus atacadores

Foi o Luís Sepúlveda quem disse, numa entrevista ao Mil Folhas que o desafio da Literatura não é apresentar as coisas de modo verosímil, mas sim credível. Ora aí está, nesse modo de demonstrar, o descaramento dos nossos dias: que importa a história verdadeira, quando a fábula convence? Eis o que pensa o amante nocturno, retornado a casa, madrugada alta, alma satisfeita, consciência pesada, os sapatos na mão!

14.10.05

Uma vida secante

Este blog diz ser «a história breve do homem que vivia à tangente». O problema é, como sucedeu nos últimos dias, o homem viver, não brevemente à tangente, mas longamente à secante. Fica em tal estado que nem coragem tem para vir aqui.

11.10.05

O equador

O norte magnético é a fatalidade dos que vivem no sul, a descoberta da latitude o sentido da distância. Nada mais existe no equador da vida.

9.10.05

A Mecânica dos Fluídos

O peso aparente de um corpo é a diferença entre a força da gravidade e o impulso que nele se exerce. Imagine-se o pobre humano, entre o impulso de acção e a força da inacção, o acordar preguiçoso num dia de deveres, o desejo de cama e a obrigação de secretária. Ao fim de um dia, tudo isso pesa, naturalmente. Só que, embora doa, como se explica na mecânica dos fluídos, é um peso simplesmente aparente; pior quando é positivo, porque então o corpo afunda-se, sem que nada afinal tenha meio de o sustentar.

8.10.05

Forma pura

A geometria é a mais pura forma de geografia; não trata de nada que exista na terra, nem da própria terra: trata de todas as terras possíveis, e do próprio céu.

7.10.05

O homem que nunca não

Hoje quem vier aqui não encontra nada. O zero não existe, eu sei, é um conceito útil ao sistema decimal. Passarei, por isso, a escrever em numeração romana: nasci em MCMXLIX, mas esse não foi o meu ano zero, foi o meu ano um. Por assim ser, nunca não existi e, com sorte, no ciclo vital da vida, talvez nunca deixe de existir. O que pode ser é que se esqueçam.

6.10.05

Intervalo

O intervalo é o que separa os sistemas contínuos dos outros, que se chamam discretos. Nestes quando o intervalo surge, é porque acabaram. Depois deles, é o nada.

5.10.05

Tiro e queda

Quando fui à inspecção militar pesava quarenta e oito quilos; talvez por isso foi-me atribuída a especialidade de armas pesadas de infantaria. Tudo aquilo girava em torno do cálculo de trajectórias de tiros, parábolas mortíferas projectadas nos céus. Totalmente ignorante e sem qualquer queda para a geometria, um dia, aplicando, a meu modo, a fórmula do livro ao tiro do morteiro, apontei a boca da arma para o que era suposto ser o alvo. Sem paciência para tipos da minha laia, o irascível tenente, comandante do nosso esfrangalhado pelotão, invectivou-me com um ó rapaz olha lá para onde estás a apontar. Estava de facto, para a janela do quarto do comandante, no quartel em Mafra. A guerra estava perdida.

4.10.05

O salto mortal

Bem me parecia que tinha saltado um dia sem vir aqui. É como naquelas demonstrações dos teoremas em que se percebe que na dedução falta uma linha. O resultado está certo só que à conta de se fazer de uma pirueta.

2.10.05

Estar

Com a mudança tinha-os carregado para o topo da estante. Para ir ter com eles, tinha de ir buscar o escadote que está na cozinha. Mas nem sempre apetece a um homem levantar-se para ir buscar um escadote. Ontem decidi-me e apeei-os. Ficaram ao alcance da mão. Eis-me com o volume quinto, onde ele encontra a frase eu sou quem está cá, esse modo popular de cada um dizer que é igual a si próprio. Ele, o Vergílio Ferreira, na sua Conta Corrente, primeira série. Cada um, os que ainda sabem quem são e que ainda estão.

30.9.05

À glória de ∏

Calcular a curva pela recta, o perímetro da circumferência pelo seu raio, desemboca no paradoxo aparente da quadratura do círculo: só o geómetra sabe, iniciado no mistério do número, como isso é possível. O número é imperfeito, o resultado exacto.

29.9.05

O limite do eu

Imagine-se um triângulo inscrito no interior de uma circunferência. Imagine-se o triângulo a converter-se, primeiro em quadrado, a seguir em pentágono, a seguir em hexágono, em heptágono e assim sucessivamente, ganhando cada vez mais lados. A regra é conhecida: à medida que o número de lados aumenta, o perímetro do polígono aproxima-se cada vez mais do perímetro do círculo no interior do qual se encontra. Qual o limite? Geometricamente, o único limite é o infinito. Assim se passa com os que se desdobram: um dia de infinito, chegaram ao seu limite.

28.9.05

Apanhando as canas

A propósito de um livro de poemas de Luís Adriano Carlos, Urbano Tavares Rodrigues escreveu, em recensão, que: «por detrás dessa pirotecnia semântica e versificatória, neoconceptista, há uma emoção que pensa, à maneira de Pessoa, mesmo quando através do exercício lúdico, das geometrias do poema, das glosas do verso dado». Claro que me ficaram os olhos na expressão plural «geometrias do poema», mas ficaram só até ter dado conta que Urbano, tratando a obra como algo de «muito alto preço», forma de dizer da sua valia, diz que ele «é um livro de poemas ultra-habilidoso», querendo dizer, afinal, que ele é um livro rebuscado. A partir daqui já nem comigo me entendo: geométrico, sim, pensante, às vezes, lúdico, quando posso, agora habilidoso! Nem pirotecnicamente falado, porque não ando atrás de foguetes.

26.9.05

O lar como ideia

Sentado à sua banqueta, sobre o estirador debruçado, fosforescentemente iluminado, há um labirinto humano a desenhar. Na precisão exacta do seu rabiscar, riscado e garatujado, existe, nessa aracnídea figura de rebuscada alma, a ilusão da forma na alucinação do conteúdo. Um dia, estúdio adentro, a ideia surge, como se ali entrasse sem bater. O homem gera projecto. Nómada da geometria, faz da casa alheia o esboço que ali a antecipa e no papel. São hoje riscos, amanhã um lar.

25.9.05

A ridícula demonstração

Não tinha vindo aqui hoje e seguramente não há nada que tenha para dizer. Perguntar-me-ia alguém que me lesse, porque vim então dizê-lo assim, como se expressamente. Precisamente por isso, respondo eu, sem ter sequer interlocutor que me ouça: foi-se embora, deixando-me a falar sozinho. Estava eu a explicar-me, ridículo como todos os que se explicam, e assim fiquei.

24.9.05

A esfera

Os deuses tiram quando dão. Li isto no Fernando Pessoa. E hoje, que é sábado e um vento frio ensarilha a cidade e afugenta os homens, senti o que é. Nesta esquina, perdido de bêbado, olhando-me indiferente, um homem fala uma língua incompreensível. Naquela janela de uma repartição pública, pálida, uma luz cinzenta, artificial, gelada de desolação acompanha alguém para quem o único desespero restante é o trabalho por fazer. O mundo perdeu forma e substância, esfera oca no vazio, povoada de nada.

22.9.05

Tratado da grandeza

No Livro I dos «Elementos» de Euclides vem, logo a abrir, a seguinte definição: «Ponto é o que não tem partes, ou o que não tem grandeza alguma». Talvez por isso haja uns tipos que são considerados como uns grandes pontos. São os que não têem grandeza alguma.

21.9.05

Equidistante

O facto de o triângulo equilátero ser equiângulo demonstra não só a beleza da igualdade exterior, mas sobretudo o conforto da proporcionalidade interior. No mais, encontrados dois deles, temos o mundo quadrado e quadrilátero.

19.9.05

O paradoxo dos afectos

Os leitores destes meus escritos, e alguns poucos haverá, julgarão encontrar aqui, em cada um, um sentimento de que gostem relativamente à geometria que detestaram. Se for assim, e assim talvez seja, terão descoberto por esta forma e neste lugar o paradoxo essencial dos afectos: o ter-se de encontrar o que amamos naquilo que detestamos.

18.9.05

Sem mudar a pena

E se eu escrevesse sobre a janela do abismo e a geometeria do ocaso? Na primeira sobre os suicidas da vida, os que vêem o mundo do alto e têm ânsias de profundidade? Na segunda sobre a contigência do espaço que acaba e a probabilidade do tempo que se vai, os que vivem a vida por baixo, soterrados de deveres. Tinha nisso pelo menos uma grande vantagem. Numa só penada arrumava dois blogs e numa só noite!

17.9.05

Lua

Para os que ainda assomem à janela e consigam olhar para o céu, hoje há uma lua convidativa, cheia, circular, concêntrica com o desejo, em trajecto angular à nossa noite.

16.9.05

A ânsia do fim

A ideia da geometria surge quando o homem projectou no espaço circundante o que, amarfanhado, lhe vinha atroando na cabeça. Revolvia ele imundo a terra, boi e humano agarrados a um arado, o acre do corpo suado misturando-se com a frescura dos campos esventrados. Cumpria-se, com o íntimo entardecer, mais um dia de labuta pelo pão. De súbito, eis a abóboda celeste envolvendo-o e como nela pregadas, as estrelas tacteantes. Anoitecera. Esgotado como animal de carga, o homem, vazio e sem vida, achou o incompreensível. Ante o infinito do firmamento, estendeu a linha recta da sua vida. Achara o primeiro conceito. Faltava-lhe o segundo, e ainda falta: o ponto final que ele não acha, e por isso teima em viver, na ânsia de o encontrar.

15.9.05

Raios e coriscos

Ensina a geometria que «radiano é a medida de um arco cujo comprimento é igual ao raio da circunferência». Ora como desde a escola primária se sabe, um arco é uma curva, o raio uma recta. Pensa o leigo motorizado, que as estradas às curvas são mais longas do que as vias em recta. Por causa disso, mete pela portagem, para chegar mais depressa. Claro que, geometricamente falando, se andar um radiano, anda o mesmo do que se andasse um raio. O que não há é raio de maneira de eu compreender isto e muito menos a esta hora! Por isso, até amanhã, que se faz tarde e eu ainda tenho muito que andar!

13.9.05

O ponto final

Um ponto fixo, estático. Dele nascem helicoidais, hipnóticas, em serpenteado movimento. Submerge-se para o interior. Os olhos fixos captam a ilusão: o que era algo, tornou-se em nada. O lugar por onde entramos é o vazio do que poderemos ser. Nasce, assim, a vida. Quando o ser submerge, evanescente, recomeçou, do lado de lá do espelho da realidade.

12.9.05

O bicho de conta

O Jorge de Sena, que era um obsessivo excessivo, fosforou num dia de 1964 a seguinte fórmula 5 px8 v+4 px12 v+5 px16 px17 v+7 px20 v+6 px24 v: 5+4+5+6+7+6. Resultou isto de ter dissecado, como se cadáver fora, a obra poética - imagine-se - do António Gedeão e ter observado que «em resumo geral dos três livros, os 90 poemas têm extensões que variam entre 4 a 108 versos por poema, e há, para eles, descontadas as coincidências extensivas, 45 extensões diferentes entre aqueles limites extremos». Só que, continuou Sena «segundo o quadro geral que, por muito vasto não transcrevemos aqui, 40 dos poemas têm extensões entre 8 versos e 24 versos, sendo perfeitamente excepcionais as extensões acima dos 80 versos, e abaixo de 8». Ou seja, remata Jorge: «como se depreenderá facilmente, apesar de o poeta experimentar dimensões tão diversas e numerosas, todavia ele se fixa, para 44% dos seus poemas, em extensões cujos valores extremos são aproximadamente a média dos limites mínimos dos três livros, para o valor mínimo, e metade do menor dos máximos, para o valor máximo». Quatro anos depois, o homem voltou à carga, com mais contas. Ora um tipo lê isto e sente ganas de andar aos murros, sacando o poeta agonizante à mão dos seus críticos e analistas, sobretudo amigos, sobretudo contadores. E não me digam que eu não gosto do Sena! Incapaz de sentimentos indiferentes, adoro em parte, odeio o resto.Tenho é amor ao Gedeão, em movimento perpétuo.

10.9.05

Operação clandestina

Há quem adicione a si, há quem subtraia aos outros. Há quem multiplique por muitos, há quem divida por poucos. Fiquei sempre desconfiado, desde a escola primária, que haveria uma outra qualquer operação, para além destas quatro. Não por olhar para a professora, mas por pensar nisso.

Um homem e um insecto

Quando eu era um miúdo e ainda em calções houve na minha rua trabalhos de terraplanagem. Entre o formigueiro nervoso de gente que ali acorria e a poeirada avermelhada que tudo aquilo levantava, surgiu um estranho personagem humano, alombando com mil cuidados um ainda mais estranho insecto. A esquisita criatura era algo pernalta, empinava-se em três pés, com joelhos metálicos que, atarrachados, lhe davam maior ou menor altura. Tudo aquilo era invulgar visto de longe. Aproximando-me, cauteloso, lobriguei-lhe a cabeça peculiar, esverdeada, canular, com dois olhos vítreos de gorda pupila azulácea, frontais. O mais insólito era, porém, aquele insistência do homem em mirar como se através dele. Colado à articulada criatura, espreitava, espreitava, tirando notas num papel sebento, escrevinhado a lápis. Um dia, deixou-me olhar. Lembro-me que eu era tão pequeno que ele teve de me soerguer, à força de braços. Exaltado, ante a alegria e o medo, dei uma rápida mirada. Veio então a estranheza. Via-se, de facto, através daquilo, mas afinal o mundo de pernas ao ar. Mais tarde soube-lhes o nome: o insecto chamava-se teodolito, o homem topógrafo. Às vezes dá-me saudades desse tempo em que, na minha rua, via o mundo às avessas. E eu que levei uma vida a tentar vê-lo direito, afinal para quê?

8.9.05

A lei angular

Aos vinte e três anos o António Gedeão escreveu o «poema da constância dos ângulos». Aconteceu-lhe no dia 26 de Setembro de 1929. Rematava assim: «Para uma certa temperatura, os ângulos entre faces semelhantes, em todos os cristais de análoga estrutura, têm valores concordantes». É assim entre diamantes, é asssim entre ametistas: concorda entre si só o que é análogo e semelhante. Como ele diz, ainda em verso, «são os valores dos ângulos achados, para as faces dos cristais considerados». Li-o, esta noite precisamente, ironicamente inconstante e prosaico.

7.9.05

0,1,2,3,4,5,6,7,8,9,10

Eu tinha quase a certeza de ter lido e logo esta noite dei comigo quase sem tempo para ir conferir. Mas roube-se ao sono o tempo que já se roubou ao descanso, depois de se ter ocupado em trabalho o tempo em que se devia ter jantado!. E lá fui. Com sorte descobri: «os números dígitos são dez, cada um com seu nome e nenhum o dez». Será inteligente a observação, mas genial mesmo é ter notado que dez é o total dos números que o antecedem. Ou seja, em suma, o dez em si é nada, tudo o que vem antes dele dá dez. Percebesse cada indivíduo que isto que vale para os números é verdade também para si e ganharia em humildade plural o que perderia em arrogância pessoal: eu não sou eu, mas apenas tudo o que está antes de mim. Ainda há quem despreze a aritmética, essa arte da subversão!

6.9.05

A meio caminho

Quando eu tinha quinze anos perguntavam-me «qual é o lugar geométrico dos pontos do espaço equidistantes das faces do diedro?» e eu tinha da responder, «o bisector do diedro». Hoje nem me lembro da pergunta, nem sei da resposta. E no entanto passaram-se quarenta anos de nada. Há quem diga que é a meia-idade. É um equívoco simpático para quem não vive cem anos. A própria noção de equidistância hoje dá-me imensa vontade de rir.

5.9.05

O infinitamente pequeno

O alongamento de uma recta até que se reduz a um ponto não é só a evidência do seu cansaço, é a premonição da sua ruptura. E, no entanto, por aí vamos desde o alfa que ignoramos ao ómega que tememos saber.

4.9.05

A fractura

Há concepções ideais que só demonstram uma coisa: que o real está em crise. Um mundo em deflagração, incerto, disperso, meramente provável, eis o que temos pela frente. A possibilidade de nem sequer existir não está suficientemente demonstrada. É essa a angústia do homem: o limite do seu saber é o horizonte do seu mundo.

3.9.05

Os equiparados

A frase «nunca discutas com um imbecil, pois as pessoas podem não notar a diferença», ilustra, de modo claro, em que medida a equiparação pode gerar a identidade. Sabem isso as pessoas que, tendo cão, ficam, ao fim de uns anos, a parecerem-se com ele e vice-versa, sobretudo quando vistos de frente.

2.9.05

O hexágono

A forma hexagonal dos favos das abelhas é um prodígio geométrico: têm lados iguais entre si, arrumam-se numa pirâmide lógica, implicam o gasto do mínimo de cera, permitem armazenar o máximo de mel. Fantástica racionalidade e sobretudo doce...

1.9.05

O mundo à medida

Muitos conhecem a frase «o homem é a medida de todas as coisas» e bastantes a atribuem certeiramente a Protágoras. O que já nem todos, sobretudo aqueles que nela intuem a proclamação de um entusiasmado antropocentrismo, é que a frase completa é: «o homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são». Assim, incluindo já o mundo por haver, o que não está e o que não há, eis a vida numa frase.

31.8.05

O prisioneiro

Na sua novela «O Problema Final», Arthur Connan Doyle faz Sherlock Holmes despenhar-se no abismo. Mata-o assim, para tristeza dos seus leitores. O precipício era escarpado, geometricamente irregular. Talvez por causa disso, teve de passar pela vergonha de o ressuscitar. Estava o autor prisioneiro de quem o lia.

29.8.05

A compreensão

Não, não tem dúvida: eu ignoro a aritmética dos valores concretos e nada sei da álgebra das variáveis possíveis. Na minha geometria falho nos corolários, vivo de postulados, raramente arrisco um teorema. Esforço-me é por demonstrar a validade das asserções pela congruência do seu enunciado. Vivendo entre papéis, equiparei o ilógico ao falso até ao dia em que, olhando em volta, descobri que o absurdo tem um sentido. A isso se chama a compreensão.

28.8.05

O icoságono

A coincidência dos extremos é o que define o polígono. Claro que frequentemente ele é multi-facetado, sendo cada vez maiores os seus ângulos internos. Tomemos o icoságono, o polígono de vinte lados. Surpreende-nos pelo seu variado exterior, mas uma vez mais, os extremos das linhas poligonais coincidem, como se afinal, numa circunferência. É por isso que a todos eles, por mais irregulares que sejam esses polígonos, se aplica sempre o teorema pelo qual a soma dos seus ângulos externos é igual a quatro rectos. Tal como na circunferência, afinal, uma vez mais, ali estão os trezentos e sessenta graus, a unidade de medida do sistema hexadecimal.

27.8.05

Sonhos de uma noite de Verão

O homem que se sentasse no quarto minguante da lua, sem se aperceber, correria o risco de cair, pois lentamente o arco que lhe dava assento, diminuía de espessura, até chegar ao nada absoluto. Uma semana depois, a lua nova traria o seu fim. É por isso que as pessoas argutas se sentam, baloiçando a perna, tal como o Peter Pan, no arco do quarto crescente. Não sabem é que a lua cheia os deglute mais à sua esperteza. Conselho pois para os sonhadores, este Verão: nem te deites ao sol, nem te sentes na lua. O ministério da Saúde recomenda.

26.8.05

Lado a lado

Hoje descobri que é sexta-feira e que o fim do mês se aproxima vertiginosamente. É esse o problema da métrica do tempo que o calendário efectua e a agenda exaspera. O viajante de comboio sente o mesmo, tal como a solitária figura que na plataforma da estação o espera. Reencontrados, enfim, seguem tristonhos, lado a lado, carregados de futuro e cansados de passado, uma mala atulhada de inutilidades, a separá-los. Pesada, inexorável no seu horário, a locomotiva da vida, segue indiferente, de acordo com o horário. O cais fica então vazio de ilusões.

25.8.05

A corda bamba

Por definição uma recta não tem espessura. Mais do que um conceito incorpóreo, ela é, como para o trapezista, o risco contínuo da queda.Uma variação imperceptível de humor e já estamos no chão.

24.8.05

O encadeado dos afectos

Na altura vinha a propósito da conversa. Falei na cadeia do agrimensor. Olharam-me atónitos. E, no entanto, foi com ela que, acocorado, eu medi a minha sala de aula, há mais de quarenta anos. São elos metálicos de 20 centímetros cada, unidos entre si por argolas. Usam-na os que medem terrenos, os ditos agrimensores. Na minha escola havia uma, guardada no armário, numa escola em Cabo Verde também. Eram aí «quatro fiadas de velhas carteiras de tampos furados pelos bichos da madeira e com um buraco para um tinteiro de esmalte estalado pelo tempo, cheio de fedorentas moscas mortas e tinta azul, líquido precioso que a professora retirava de uma garrafa, guardada cuidadosamente num armário onde estavam também o compasso, o giz, alguns mapas enrolados, a colecção das medidas, a cadeia do agrimensor, etc... Irene, assim se chamava a professora primária. Já faleceu, claro está! Paz à sua boa alma. Usava óculos de aros de tartaruga, era baixa, de rosto arredondado de aspecto agradável. Cândida figura. Foi ela quem me veio receber. A porta desengonçada estava pintada de um cinzento já estalado pelo tempo e sustida no local com auxílio de uma pedra, polida pelas mãos de várias gerações de meninos como eu». Obrigado Eduardo Gominho, pela companhia. Não nos conhecemos, mas há uma cadeia invisível que nos une, a da humanidade e a do agrimensor.

23.8.05

Aproximadamente

Há quem meça a palmo, há quem não tenha mãos a medir. Não são medidas exactas, mas dão uma ideia da dimensão.

22.8.05

O vexame da forma

Marco aqui, estaca acolá, o aldeão marcou as extremas da sua courela. Estendido um fio, era tudo um figura irregular, terreno delineado aos ângulos, propriedade recortada entre outras igualmente disformes, nada como os hectares rectangulares dos grandes agrários. E, no entanto, a terra é redonda. Depois da ceia, o homem sentou-se a cismar nisso. Nas altas esferas do céu, uma lua circular dava a luz que se via. Era a geometria rústica dos pobres, medida a palmo e aos socalcos. Nessa noite o aldeão, vexado, pensou em emigrar.

21.8.05

A excepção do improvável

A ideia de que, cortando um cone às fatias, segmentando-o em planos paralelos, se obtêm círculos cada vez mais pequenos, até que no fim, já no vértice, o que se corta é menos do que um ponto, é afinal o próprio nada, é abstractamente verdadeiramente e realmente impossível. Ao ser prático repugna o nada, se bem que para o matemático o zero faça sentido. E, no entanto, fatiado o frango de churassco, lasca a lasca, há sempre um que come a última, há sempre outro para quem já não há mais. O que legitima, enfm, uma conclusão epistemológica universal: as asserções verdadeiras, logicamente congruentes, ontologicamente improváveis, conhecem uma excepção: o frango de churrasco. O que hoje, domingo de praia, não é má ideia para o almoço. E com batatas fritas.

20.8.05

A estranha cinética do ridículo

Há uma geometria dos sentimentos tristes, feita por seres aracnídeos que transportam às costas desengonçados maquinismos, ridículos pela aparência, absurdos pela inutilidade. Equilibram-se como trapezistas de circos de miséria. Calcinados, carcaças ressequidas no deserto dos seres, correm embriagados de aceleração. Nenhuma lógica demonstra o não se desmoronarem. Enquanto correrem, sem sentido nem destino, iludem-se no adiar da queda.

19.8.05

O soma e segue

Há na ideia da geometria a mesma malignidade que na matemática de que ela é a expressão espacial: sempre a ambição do medir e do contar, o imperativo das contas e dos resultados. O reino da quantidade é a servidão do homem, a aritmética o seu pecado original. Quando pela primeira vez o humano descobriu as equações, esfrangalhou-se na ânsia de encontrar igualdades. Esquecida a magnífica diversidade, a beleza do único, o milagre do excepcional, tudos coisas que com a Natureza se aprendem, o homem julgou ter encontrado uma ciência. Hoje, acorda ao som de despertador, corre vergado a horários, subtrai-se ao ritmo dos extractos bancários, multiplica-se no que compra, diminui-se no que não tem. A sua tragédia é a prova dos nove, noves fora, nada! No mais, é um animal algébrico e tristonho.