21.11.10

A crise

Li isto ontem, tarde de sábado, na Sociedade Harmonia Eborense. O tema, a crise. Juntos, Ricardo Paes Mamede e Manuel Branco e uma assistência interessada e amigável. Uma tarde memorável. Obrigado a todos. O texto corresponde ao meu sentir mais profundo


A ideia de crise está presente no vocabulário do quotidiano, nas notícias, no subconsciente de cada pessoa. Chegou mais evidente às economias individuais e aos orçamentos domésticos por efeito do péssimo momento do sistema financeiro, em ameaça de “crash” com todo o cortejo de lembranças por loucos anos vinte.
Mas ela é omnímoda, generalizada. Fala-se na crise da instituição familiar, na crise do sistema educativo, na crise de valores, na crise da justiça, da autoridade, de crise da língua ante o novo Acordo Ortográfico.
Ante um tal panorama é de admitir que estamos a assistir a uma decadência de civilização, mais do que à agonia de um sistema de organização social.
Outros, biblicamente apocalípticos, vaticiam o fim dos tempos, o surgimento da Besta 666, a crise da própria existência.
Um destes dias uma daquelas revistas coloridas que têm muitas páginas de praticamente coisa pouca a propósito de tudo o mais, titulava na capa “2012 o ano do fim do Mundo”. Estamos lá quase, aproveitem para a orgia final com a vida os que ainda não morreram por dentro, ainda que já aparentemente mortos por fora. Mas os media simplificam o verosímil e o leitor toma o plausível não como possível mas como certo.
E a crise ganhou assim contornos necrológicos.
No meio deste despautério verbal, em que a realidade denotativa – o território da substância que os conceitos exprimem e as definições enunciam – é incrementada pela quase ficcional realidade conotativa – esse mundo extenso dos “a propósito” – e em que os mundos periféricos das falsas analogias são chamados a aumentar o mundo nuclear das ontologias conhecidas, assim como os aterros criaram a Holanda, é caso para dizer que em matéria de crise o panorama é, de facto, crítico.
Chegados a este ponto abissal e agónico que poderei eu dizer que ainda valha a pena ser dito?
Convencer-me, em primeiro lugar, problematizando o problema, e ante alguma supresa talvez, que a crise não é uma questão problemática, sim a solução. A desagregação dos sistemas é a forma pela qual a sua entropia gera novas formas adaptativas de organização, a crise é o momento em que a síntese se atingirá pela dialética da antítese.
É assim, num exemplo macroscópico, com os sistema galácticos que explodiram no cosmos, os sóis que se apagaram gerando universos gelados, de que nos chegarão partículas milhões de anos depois. Foi graças a isso tudo que a Terra surgiu e nós com ela.
É assim com o mosaico europeu que trouxe e levou o Império Austro-Húngaro, a Prússia e o Reino de Leão, a cidade de Cartago e o Reich dos Mil Anos, o Império Romano e Terra do Preste João, as Repúblicas, Ducados e Principados do que hoje é a Itália do novo Calígula, um mundo de fantasia e de precariedade.
É assim com as patologias do espírito quando a loucura vem a gerar novos patamares de lucidez incompreensível, cujo solilóquio só o seu falante autor entende, ou as bizarrias equizofrénicas da escrita em implosão verbal, sem pontuação e sem nexo, levando à glória o inenarrável e o irrepetível e gerando assim Literatura e a sua contemporaneidade.
É assim quando a Natureza, num espirro de constipação telúrica, ocupa o espaço a que tem direito, levando pela frente, em lava ou aluvião lamacento, tudo o que de humano se construiu, mundo precário, afinal raquítico, em suma liliputiano.
É sempre “em forma de assim” que a crise de tudo gera o nada, de onde o todo surge. O futuro é, desta forma, apenas uma forma de encontro da desagregação do passado, o ponto provável do seu novo equilíbrio.
Se Deus existir e tiver sobrevivido a Nietzsche, ele não é o ponto inicial do qual tudo emerge, sim o ponto final para o qual tudo converge, espécie de buraco negro no qual a existência se afunda, em remoinho, para se reorganizar, como em cadinho alquímico, vida morta gerando vida, o ser primordial a ser semente e rosa e fruto da criação.
Mas mais do que aquele optimista convencimento se trata. A haver crise, ela é, antes de qualquer outra, uma crise existencial, antroplógica, inerente mais à pessoa do que ao indíviduo, mais densa do que a do cidadão.
Vejamos, em retrogressão mental, este mundo. Crise de cidadãos, primeiro.
A crise da cidadania revela-se, em primeiro registo, no baixíssimo nível de participação na vida cívica: não é só a escassa millitância em causas públicas, é mesmo a cada vez mais alta, e progressivamente mais esmagadora, taxa de abstenção nos cada vez mais passivos actos eleitorais, em que a Nação é convidada a referendar as escolhas das cúpulas partidárias, a que não tem acesso, e a quem se hipotecou, progressivamente menos confiante.
Há hoje, sob a República, democracia formal mas não há movimento democrático. Os partidos de Governo escolhem os seus deputados. A democracia esgota-se no acto de voto, como o poder do dono no acto de emitir a irrevogável procuração. Ao sufragar, o eleitor aliena vida, suicida-se civilmente. A urna eleitoral é o esquife da sua morte cívica. O dia de eleições é o do cortejo da preguiça. A partir dali o governo da cidade passa a ser coisa dos empregados do poder. A venda do voto é o primeiro acto de corrupção.
Mas não só: a ideia da evasão fiscal como acto de legítima defesa cidadã face a um Estado predador e depreciador é outro sintoma característico do ocaso do civismo, tal como o progressivo divórcio entre o corpo eleitoral e a classe representativa que ele elege. No primeiro caso, sente-se o Governo como uma alteridade, o terceiro pagador e pai de todos os possíveis subsídios, no segundo sente-se o poder político como o fruto de uma escolha libertadora, primeiro, e de um desprezo catártico logo no dia seguinte a ser escolhido.
Não é o Estado supra-colectivo, é o Estado infra-individual aquele que construímos. Desprezamo-lo, ao Estado, como a inimigos, consideramos os que para ele elegemos como gente de segunda, só porque sim. Faz parte da cultura de quem votou pelo poder estar na oposição, como higiene e como caução para o futuro.
Bloqueado o sistema pela sua própria natureza hipócrita, nele a falta de expressão política por participação cívica substitui-se pelas manifestações de rua, como tentativa de indignada pressão colectiva.
Assim como a cólera é a raiva dos fracos, muitos dos que se revoltam fazem-no apenas porque incapazes para a revolução. A agitação simula a mudança.
A patologia da democracia representativa é a a alucinação epilética dos seus actores que faz dos espasmódicos tumultos de rua sintoma de doença através da ilusão da cura.
Limitada a democracia pelo sistema partidário, aprisionado o sistema partidário pela cacicagem que o domina, aquela acaba por ser, não apenas a expressão do indiferenciado maior número mas sobretudo a ratificação, sem alternativa, do sentir da imensa minoria que, em esquema rotativo, forma o bloco central de interesses que domina o Estado e assim governa a Nação, dela se aproveitando.
Trata-se, no que à imediata crise de hoje respeita, de uma crise financeira, derivada da hipertrofia do mercado especulativo de capitais sobre o aparelho de produção dos países.
Crise do capitalismo, diga-mo-la, inerente ao seu modo de produção, tem o seu epicentro nas contas públicas e no sistema bancário – como cerne que são da capitalização – e só tem, na lógica monetarista do sistema que nos governa, uma única solução, a da sobrecarga tributária sobre as forças produtivas mais indefesas, tendo em vista a colecta forçada e expropriadora para o reabastecimento do mercado com os meios de liquidez de que carece para a sua sobrevivência e que se vai buscar ao aforro privado ou quando ele já não há, ao exército de reserva do desemprego forçado.
Crise de cidadania, a presente é também a crise do indivíduo, a qual se gerou com a desagregação das relações sociais.
À imagem de marca do individualismo burguês sucede na contemporaneidade a do individualismo pan-proletário, o generalizado individualismo.
À sociedade de massas sucede a atomização social. A passividade consumista, o amorfismo intelectual, a anomia moral, a atrofia do gregarismo, são hoje as características da pulverização social em que se caíu.
Molecularizada, a sociedade torna-se mero somatório estatístico, em que à personalização segue a numeração. Cada um é o número fiscal, o do BI, o código do cartão bancário, o da password sem o qual o mundo cibernético se torna promíscuo, inseguro e devassado. É pelo simples número que o mundo da informação sabe quem sou o complexo eu.
Realidade digitalizada, tudo se decide hoje na base do inquérito e da sondagem, à diversidade do ponto de vista corresponde a padronização da resposta-típica.
A opinião tornou-se a resposta a um questionário em quadradinhos.
Certa matemática ocupou o lugar da poética e da música, e na matemática não passamos da aritmética, sociedade de adição, de subtração, de multiplicação, de alguma divisão. Tudo passou a ser mensurável, por isso tudo passou a ser contável, pior, comparável. Num mundo de fracções a ânsia tornou-se encontrar o menor denominador comum. O abaixamento do nível médio é a perversa consequência do desejo da redução do múltiplo ao uno.
As redes sociais, essas aparência de comunidade e de aldeia global revisitadas, são hoje janelas de comunicação de solidões desencontradas.
A imediatividade discursiva que a net permite gerou o nada comunicacional, reiterativo, em cíclico copy paste, em que se amputa a imaginação e se legitima o plágio.
O «gosto» alheio como resposta a um post próprio evita o ter de dizer porquê. A comodidade expressiva internáutica torna o palestrante um símio dactilógrafo de sentimentos singelos padronizados.
Surgem aqui os traços psicológicos do nosso tempo: primeiro, a depressão como forma reduzida, mas por isso tolerável, da angústia existencial, depois o triunfo do contável no novo mundo técnico do fungível e do computável.
A angústia, ao perder a dignidade de categoria existencial de manifestação do desespero humano, encontrou na tipologia terapêutica a forma redutora que a torna uma mera patologia asténica, que a química farmacológica se candidata a tratar.
Uma nova família de fármaco-dependentes, aditos a drogas legais, garantem assim o equilíbrio básico que os mantém dentro da convivialidade aceitável e lhes permite serem forças de trabalho aproveitáveis no aparelho produtivo que ainda funciona em estado pré-falimentar, que os normaliza, em suma, garantindo-lhes liberdade de circulação ambulatória no hospício em meio aberto que são as sociedades contemporâneas e onde “esses loucos que nos governam” são arquétipo, modelo, e forma de autorização para o viver respeitado, ainda que inimputavelmente.
E, no entanto, antropologicamente, ela, a angústia, é, enquanto intranquilidade fazedora do génio, ou enquanto prostração anestesiante do comum mortal, sintoma daquele inacabamento, daquela incompletude do homem, que o caracteriza como ser defectivo, inacabado, irrealizado, lançado, porém, ao mundo, ainda em gestação, da borda fora da barca de deuses cruéis que o condena, pedra bruta, à derelição, ao abandono, à entrega ao jogo das circunstâncias até que em pó final se transforme, Sísifo da sua eterna tentativa de refazer-se.
Só que hoje não há angustiados, sim deprimidos. O Prozac, enquanto Viagra do Espírito, resolveu a questão, tal como o comprimido azul permitiu a toda a luxúria sexo.
Além disso ao extâse místico sucedeu o orgasmo venéreo, as entranhas do corpo passaram a ser flatulência sucedânea dos arroubos da alma.
Ei-la, na sua intemporalidade a crise dos nossos dias.
Falta autenticidade ao humano. A metamorfose do ser passa pela redenção. Tentaram-no os totalitarismos políticos que pretenderam criar não apenas a “Ordem Nova” mas o “Homem Novo”. Em vão. A pequenez dos resultados contrastou com a delirante idealização dos projectos. Ficaram, na arqueologia do terror, os gulags e as câmaras de gás, os campos de reeducação e os reformatórios psiquiátricos, os campos da morte e o patíbulo dos condenados, o genocídio em massa e o suicídio individual.
Tentam-no as sociedades iniciáticas, esotéricas ou sacramentalizadas. Debalde também. A mesquinhez do interesse conspurcou o templo, profanizando o culto e o rito. A espiritualidade passou a ser resíduo monacal de uns quantos segregados, a transcendência uma alucinação dos incompatilizados com a vida.

Termino.
A vida é uma petição de princípio. Para nasceres é preciso estares vivo. Surge aí logo, no corte do cordão umbilical, no isntante do primeiro grito de espanto e de dor, o estado de necessidade, a luta pela sobrevivência.
O homem é o único ser para quem o mero instinto não permite a sobrevivência.
Pode morrer-se, porém, sem se ter vivido mas apenas sobrevivido.
Eis, aqui, no seu âmago íntimo, a crise de todas as crises: o mundo vegetativo de corpos que caminham para a mineralização, julgando-se humanos, escassamente humanos.
Comparado com o défice de almas, o défice das contas públicas é assunto para intendentes.
Do Oriente esfíngico e fatal chega-nos o sinal e o símbolo: a nossa paganização é a nossa perdição. Jogando aos dados quanto à sorte do pobre Job, o velho Deus, num momento de dormência, perdeu a favor do Diabo. A danação surgiu aí. O Ocidente tornou-se Poente.
Um dia acabará tudo. A vida, vale, porém, a pena. Não por ser uma inevitabilidade. Sim porque é uma milagrosa probabillidade. No labirinto dos tempos um dia um homem e uma mulher... e tudo assim surgiu e surgirá, nem que tenha de ressurgir porque assim está escrito.
Talvez haja esperança onde faltar a fé.
Na síntese de tudo quanto se contradiz, no menor denominador comum a quanto possa ser decência, o Homem deve ser o que é. A crise nasceu no dia em que alguém tentou que ele fosse o que devia ser.
A norma matou o ser. Com a primeira lei surgiu o primeiro carrasco.


4.10.10

Para já, para já

A história não é minha. Eram dois amigos, vindos da pobreza com o sonho de ver o mar. Um deles conseguiu-o. Arranjou trabalho na orla marítima. O outro ficou na longínqua santa terrinha. Ao apelo do primeiro, moveu o céu e a terra, juntou migalhas e comprou a viagem. Viu-o então, o mar aquela imensidão de água que se adivinha para lá do próprio horizonte. Silencioso, absorto num pesado pensamento, perguntou: «com tanta água de tanta chuva, de tanto rio, com esta água toda deste mar, como é que não somos engolidos?».
Suspenso, hesitante, remoendo quanto ao que dizer, o amigo retorquiu-lhe, enfim, a resposta que resume o modo como, afinal, na vida se enfrenta o complexo através do simples: «bom, para já, para já, há as esponjas, não é?...»

7.9.10

Uma janela para o mar

Podia ser em dia certo, como fazem os que prometem mudar no dia um de Janeiro de cada ano, ou quando comemoram o dia do aniversário. Podia ser porque reabrisse qualquer coisa como por exemplo os tribunais e a época dos saldos, ou por ser dia da Feira do Relógio ou Temporada na Gulbenkian.
A lógica comemorativa pressupõe uma dupla crença: primeiro na cronologia que é, afinal, uma forma de se quantificar a vida; depois na mudança que é um meio de desconfiar da retrogressão.
Desde que se inventaram os números o Homem passou a ser um infeliz. Mesmo quando os árabes trouxeram o zero que os romanos desconheciam. Aí adicionando nada tudo se torna maior, expressão surreal do paradoxo da nulidade avantajada. Com a Álgebra veio a fantasia de que a partir de incógnitas se aplicam as regras universais a casos particulares em que cada um se sente semelhante a todos os demais. Enfim tudo termina na lógica da equação. Crente nas virtudes do equilíbrio, o homem, poeira no cosmos, nem pensa que cada ponto é equidistante ao seu começo e ao seu fim, porque o tempo é circular.
Quase às duas da madrugada do dia 7 de Setembro, dia ocasional num calendário incerto, decidi voltar aqui. Como um viajante nocturno a quem lhe apetecesse ver o mar.

10.8.10

A viagem pela noite

A ideia do livro é ser uma reportagem, porque os autores foram admitidos no seio da Ordem da Cartuxa, franqueando portões até aí quase inexpugnáveis e vendo quebrar em seu benefíco a regra do silêncio e da clausura. Está escrito como quem escrevesse uma novela policial, em busca de um segredo que vai sendo desvendado ao longo das páginas do álbum. Há algo de O Nome da Rosa, talvez porque o tema o propicia.
Há momentos em que o o leitor supreende-se: quando descobre que nos primitivos tempos os frades que são contemplativos eram servidos por escravos hoje por irmãos que fazem, pela glória de Deus, o trabalho braçal; quando, sem ver citar origem, lhe dizem os autores que por ali se defende a pena de morte e que a Igreja não poíbe a pena de morte antes a aconselha.
Talvez para quem sinta um apelo à transcendência, o livro, escrito por Nacho Doce e por Paulo Moura, vocacione, para quem exija rigor à alma o livro facilite um pouco.
São humanos, claro, os retratados, na segunda recta da vida, e por isso a imperfeição pagã se projecte ainda e suas tentações meridianas e o livro tenta retratá-las mais ao mistério litúrgico daquela comunidade de votos de obediência.
Li-o parte desta tarde e disseram-me há momentos que poderia guardá-lo como meu. Isso permitir-me-á relê-lo, sublinhá-lo estudá-lo. Implantada em Portugal em 1587, a Cartuxa está em Évora. Renasceu ali.
Os monges falam a Deus sobre os homens, em oração, não falam aos homens sobre Deus. Fosse assim eram pregadores, convictos que a palavra traria a fé. Fé que é uma questão de vontade não de sentimento. A mística nasce da contenção que interioriza não do êxtase que implode do ser a alma.

31.7.10

O salmo e a redenção

Talvez porque fomos educados no cinismo da dialética, não a grandiosa e monumental hegeliana, catedral escorada que é a celebração da sua própria legitimidade, edificação vaidosa de verdades que o são por si mesmas e pela sua aparência de coerência intrínseca, mas pela outra, a cínica, utilitária, a do relativismo histórico e da luta dos contrários, que se não anulam mas da mentira fazem verosimilhança, e dão fundamento à carnificina e da pessoa fazem indivíduo e deste cidadão, por isso dizia caímos nesta anemia mental em que qualquer rasca propaganda nos seduz, quaisquer causas precárias nos mobilizam e demos nisto amibas tele-espectadoras e de tablóides folheantes, no mais zapantes internautas de um cosmos mental vazio, clicantes ratos entre vivas e olás e gosto disto e cito que citaste o que foi citado.
Mas sucedeu que o meu incerto ser em reconstrução encontrou e eu li e sublinho e agora mastigo-o com dentes e o regurgito, um extraordinário livro que Maria Almira Soares escreveu sobre um menino que assinava Vergílio António de Oliveira Ferreira. E que foi depois um «moinho de ensinar», e como o Mário do Cântico Final serviu casas «de saber manufacturado, burocrático», e sofreu «ferozes meninos do liceu» e a «tocante suficiente dos colegas, sérios, correctos, cronometrados» e tudo e tudo por instantes de glória e hossana porque há o milagre da excepção. E escreveu admiravelmente.
E nesse livro, que me tem feito companhia desde ontem, eu li o salmo que é o da redenção de uma vida e uma profissão de fé na ressurreição diária pelo amanhecer: «Descobrir a contradição do que não é contraditório que é afinal a vida com a sua exactidão, é ter realizado o maior esforço de compreender. Mas realizá-lo é não ser homem é morrer. Por isso eu morro vivendo». 

19.7.10

O coleccionador de angústias

Regresso hoje aqui com o sentimento de surpresa. Li a esmo o que escrevi. Perguntei-me porque teria saído deste lugar, horto de reflexões. O título deste post fui buscá-lo a um livro de Fidelino Figueiredo. O livro começa e termina com Dom Quixote, o quixotismo forma de angústia mansa, de ilusão risonha em que a idiotice é ingénua sabedoria.
Este blog começou por fazer jus literal ao nome e tratou nos seus primórdios de geometria, problematizando o pensamento a partir daí, como a Ethica Ordine Geometrico Demonstrata do judeu português Baruch Spinoza. Depois caminhou para o território em que a geometria o é naquele sentido em que a palavra vem abismalmente mencionada no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Trata da filosofia portuguesa e de um modo filosófico de pensar Portugal.
Regressei hoje, o pensamento martirizado de reflexão. Talvez haja alguma sombra em que possa haver  inteligência sem racionalidade nesta silva de enganos em que há quem julgue que só há saber na epistemologia, verdade na ontologia.

10.5.09

O Futurismo e o futuro

Multiplicam-se aparentes coincidências. Tinha estado com o livro sobre ele há uns dias, folheando sem saber sobre o que escrever. Inspirou-me então e este post foi o resultado. Hoje levei para ler o número três da Nova Águia, que é dedicado a Agostinho da Silva. Comecei pelo fim e a gostar do que lia, talvez por ter sabido encontrar o meu canto de recolhimento numa catedral pingue de fiéis, como é este projecto. Foi então que o vi, coincidente, o breve artigo sobre um pintor que pouco pintou. Escreveu-o Cristina Pratas Cruzeiro, sobre Guilherme Santa-Rita. Lembra ela ali o «Futurismo, ideologicamente assente na teoria da selecção natural de Darwin» e há aqui em frente uma exposição sobre Darwin que esta noite foi revista na minha memória de a não ter visto. Os manifestos futuristas fizeram cem anos em 20 de Fevereiro. «Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo», escreveu Filippo Tommaso Marinetti.
Regressei agora a casa, para conferir a citação a seu respeito: «dispensava força nêurica a mais, em projectos maravilhosos,em concepções imprevistas, em imaginações faulhantes, para poder materializar o que projectava, o que concebia, o que imaginava (...)». Escreveu Carlos Parreira, em 1918 sobre aquele que «terá deixado muito mais acções futuristas que obras». Monocromático, cubista, bi-dimensional, A Cabeça, o seu momento de geometria abstraccionista.

20.4.09

O Dr. Pomadinha

Consegui um recanto de tempo para ler uma palestra que Pinharanda Gomes proferiu em 20 de Março de 2006 na Sociedade Histórica para a Independência de Portugal sobre o pensamento de Agostinho da Silva. Texto curto, juntam-se-lhe os de duas outras intervenções do ilustre natural de Quadrazais proferidas nesse mesmo ano sobre o filósofo «caminheiro, mendicante ou itinerante», como ele lhe chama com afectuoso humor. Editado pela Zéfiro.
«Em contra do signo sebastianista, Agostinho escolhia o signo henriquino, o espírito de acção contra a resignada paixão: da arca fez barca».
Aprende-se muito em pouco tempo. Às vezes são pormenores que fazem sorrir, suma lição num mundo tão façanhudo. Agostinho - qual Agostinho?, pergunta-se o palestrante - publicou um estudo chamado Elogio da Academia. Documentos Literários. Assinou-o «com três pseudónimos: Doutor Botocudo Júnior, João Cabrinha e Dr. José Pomadinha». Fantástico gozo, magnífico intervalo.

19.4.09

O acaso

Li isto: «Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências. Elas nunca são procuradas e, no entanto, aparecem-nos sem que estejamos à sua espera. São uma espécie de Pã, no meio do caminho, sobressaltando-nos o passo, agitando-nos a alma». É um texto de Cynthia Guimarães Taveira, publicado nos Cadernos de Filosofia Extravagante, aqui.
Esta manhã sucedeu isto: escrevi esta manhã um post sobre a Clarice Lispector. Minutos depois chega um alerta Google, de que alguém tinha escrito num blog que começara há bem pouco tempo um texto sobre a Clarice Lispector: aqui.
Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências! Efectivamente.

7.4.09

Quadros, Bruno, a identidade do eu

Não sei quando li António Quadros pela primeira vez, nem quando me atrevi a escrever sobre ele. Foi muito antes de a vida me ter marcado agora encontro consigo. Sei é que acabei de ler o que só há pouco tempo me ensinaram ser, afinal, o seu único romance: Uma Frescura de Asas, editado em 1990.
O livro, coitadinho dele, vem maltratado com gralhas, pois deve ter sido composto por um tipógrafo calino como eu e revisto por um catador pior ainda do que eu quando me armo em revisor.
É um «livro insólito», diz-se na contra-capa. É um livro simbólico diria eu.
Na aparência é uma biografia de José Pereira de Sampaio, que passou para a História como Sampaio Bruno, mas eu creio que é, em muito, uma biografia espiritual do próprio António Quadros.
Li-o em quatro fôlegos. A narrativa é a de um homem, João Pereira, que está no leito de um hospital onde acabará por morrer. Qual é o seu nome alcança-se em dois momentos. Que se chama João na página 20, que é João Pereira na página 89.
De que trata? De muitas coisas, todas as que têm valência nas entranhas de um homem em crise ante si próprio: de Deus e dos Anjos, dos homens e do demais.
A narrativa assume a forma de um diário, que vai entre 6 e 11 de Novembro de 1915. Foi na verdade nesse primeiro dia que o autor de O Brasil Mental foi operado pelos cirurgiões Júlio Frankini e Severiano José da Silva. Sofria, desde os poucos meses de idade de uma rotura na virilha direita, estado que se agravou, por descuido seu, quando sofreu de uma hidrocele, que o impedia de caminhar. Morreu pelas 19:00 do dia de São Martinho.
Descontado o muito que é semelhante na história, importaria descortinar o que marca a pouca diferença. Uma biografia de Quadros está por fazer. Penso que ele a iniciou biografando-se através desta biografia romanceada. «Eu não podia escrever a eu, porque o eu é o mesmo e não tem outro. Onde há unidade de substância não pode haver dupla consciência», deixou ele, como uma chave para o mistério desta sua estranha criação.
Um seu dedicado e tão esquecido nessa dedicação, Jesué Pinharanda Gomes, disse na Colóquio que ele escreveu sobre «todas as escalas do humano e do divino saberes»
Hoje nem Quadros nem Bruno existem. É pena que criaturas destas se vão. Sei que o fazem de um modo singular: «Fechei os olhos para não ver que me estavam a ver», escreveu o biógrafo romancista. É neste acto de timidez que se lhes resolve a agonia de morrerem.

30.3.09

Optimismo levitante

A dedicatória era singela, amiga: «quando folheares este livro lembra-te dos dois dias de grande camaradagem que passámos no Redondo, 14/8/56». Encontrei-a, mal arrumada, na estante de literatura de ficção portuguesa, a edição tirada em 1956 pela Livraria Tavares Martins do livro A Alegria, a Dor e a Graça de Leonardo Coimbra, a que o editor juntou o diálogo Do Amor e da Morte. Estava num alfarrabista em Coimbra, um primeiro andar de preciosidades. Obra revista e prefaciada por Sant'Anna Dionísio, comemorativa de vinte anos do desaparecimento do filósofo. De ambos aqui falei, ainda ontem precisamente, tudo a evidenciar que o acaso é uma preguiça do espírito para não se confrontar com o embaraço dos acontecimentos destinados. «Podeis dizer que os indivíduos permanecem, porque, se acendeis a luz, eles surgirão», escreve o magnífico autor de A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre. Uma escrita de um «optimismo levitante» lhe chamou o prefaciador. Necessária escrita, indispensável optimismo, chegado a Lisboa, ferroviariamente.

29.3.09

Começar de novo

«Pensamento madrugante», chamou Sant'Anna Dionísio à filosofia de Leonardo Coimbra. Apanhei a frase esta manhã ao folhear os estudos que o teólogo Ângelo Alves dedicou ao que chamou o «filósofo da liberdade e do amor infinito».
Diabolizado por tantos devido à sua conversão à fé católica, que manifestou em acto oficiado pelo excelso Padre Cruz, Leonardo chegou ao culminar desse encontro com a Graça depois de um torturado percurso espiritual. «Curiosamente, a primeira loja maçónica em que se filiou intitulava-se "Luz e Caridade"», escreve Ângelo Alves.
Terei já eu citado aqui a sua frase, pináculo de intranquilidade fazedora «qualquer dia dou por írrito e nulo tudo o que tenho feito e começo de novo»?. Talvez não. Um bom domingo. Em paz.

23.3.09

A arte de continuar português

Vem hoje à luz do dia a Fundação António Quadros, apresentada no Círculo Eça de Queirós. Vingando, dará corpo a que não se perca o pensamento de um homem que disse um dia: «Quero ser um princípio e não um fim. que, depois de mim, as tempestades sejam outras e as lágrimas mais leves!». Se há momentos de uma filosofia que marcam um destino, o que ele escreveu sobre o mal do positivismo traçou-me a rota mental. Pela sistemática organizadora, pela originalidade criativa, pela pedagogia exemplar, pela ousadia cívica, pelo amor patriótico, pela íntrínseca bondade humana, tornou-se um símbolo e, sem que o sonhasse, a explicação de um mistério que o continuaria. Num tempo novo em que frutifica, a Filosofia Portuguesa ganha outra força e vigor.

21.2.09

O medo

A alegria no coração gera a tranquilidade no intelecto. É a angústia do não saber o cognoscível que fomenta o querer saber. «O medo, diz o Zohar, é o princípio do conhecimento. Quem está aí que tema Deus?». Colho a frase num novo blog, criado, a partir de Mértola, por Abdel Hayy. Chama-se O Lugar da Alma.

18.2.09

O mundo de Deus

Publicou onze números, entre 1957 e 1962. Graças à Hemeroteca podem ser lidos todos, facsimilados, aqui. A revista 57, folha independente de cultura, teve António Quadros como seu director. Vi a menção aqui no blog Cadernos da Filosofia Extravagante, que, amável, cita este nosso descuidado espaço e em cujo texto de apresentação vejo a magnífica frase: «Algum dia o mundo de Deus há-de ser dos pobres e dos vagabundos». Acredito no acaso porque ele não é.

18.12.08

O corpo espiritualizado

Quem ler o estudo que Dalila Lello Pereira da Costa publicou em 1970 sobre o êxtase antecipa o que condensou em 1981 no livro Os Jardins da Alvorada. Está lá tudo, essa indiferenciação do arroubo anímico e do espasmo carnal, o fremente de luz e de silêncio, a possessão, o instante imóvel e depois a infinita paz da reconciliação com o outro através de si, o encontro místico com Deus, o amor de conhecimento entre os humanos.
Eis o que em Julho de 1973 está escrito neste magnífico texto a que chamou A União em Corpo de Glória (ou a comunhão dos santos): «(...) de súbito, sem te fazeres anunciar ou ver, depuseste teu beijo no lóbulo da minha fronte direita, prolongado, inifinito. Depois, na palma da tua mão direita erguida ao alto, pousei e uni a minha. Para segundo contacto, passagem. E ao alto da tua cabeça pousei a outra mão. Em três pontos, em círculo fechado de vibração amor que se sentia e corria sem fim, sobre si, para sempre e sempre gozado. Mudo e sereníssimo. Que outro corpo então conhecido? Em que vida então colhida? Em que animação dela, nele, nunca conhecida? Estreme. Línguas de fogo mil, nele vertidas e circulantes. Pentecostes, céu vertido na terra, esta nossa de agora».
De livro em livro, de memória fui consultar uma lembrança. A Subida do Monte Carmelo de São João da Cruz, de que tenho um exemplar impresso pelo Carmelo de São José em 1947, vê o seu inflamado texto antecedido de um verso que fica como um acto majestoso de esplendorosa ambição da luz pela sacrificial renúncia às trevas: «para vir a gostar tudo, não queiras ter gosto em nada». Inicia-se assim, em ascensão e ascese, a purificação activa dos sentidos e do espírito, o fim da noite escura.

4.12.08

O espírito transformador

Narcísico, falando do Alter para assim falar do Ego, Alfredo Pimenta proferiu, no dia seis de Maio de mil novecentos e trinta e cinco, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, uma lição notável. Chamou-lhe «Auto-biografia filosófica». Referiu-a como sendo a do seu amigo Francisco de Lucena. Mas era, afinal, sob este artifício literário a narrativa, em prosa esmerada, do seu próprio pensamento.
Espírito inquieto, este «enamorado da Beleza» e «esfomeado da Verdade», como o surpreendeu Henrique Barrilaro Ruas, vogou tempestuoso pelas «Sete Partidas do Mundo do Pensamento», para arribar ao porto tranquilo da Abstenção Filosófica, vindo do mar do cepticismo.
A separata em que o li, magra de trinta e quatro páginas, encontrei-a no espólio que doou à Fundação Calouste Gulbenkian.
Falando para jovens, deixou num momento luminoso dessas «considerações superficialmente amenas», a mostra da sua vincada lucidez. Citando Séneca, recusou grandeza ao efémero, ao precário, ao imperceptível passageiro tempo presente.
Basta a infinitude do futuro e pensar quanto o tempo circular corre perseguindo o seu próprio passado, para se saber, e por isso acreditar, que o flagrante instantâneo do tal tempo presente é apenas a ilusão do encurtamento da distância, Eis o que torna a nossos olhos o menor em maior, o que já foi no que ainda parece ser.
Só por esta centelha de verdade valeu a pena interromper a tarde chuvosa de um quotidiano no mais enganado.

22.11.08

Uma tragédia subjectiva

A minha geração vive a recta final da sua existência. Fomos nós aqueles para quem a vida foi matéria, o pensamento razão, o sentimento sensação, o real o cognoscível, o tempo um intervalo certo na dimensão do espaço. Fomos nós quem, por causa do naturalismo empurrámos tanto saber para a sociologia, por causa do positivismo tanto do anímico para a psicanálise, fomos nós quem sacámos do pragamtismo a amoralidade, do sensualismo fabricámos a forma hedonista de viver e inventámos a sociologia e a psicologia e todas as formas de nivelamento e catalogação do diferente e do surpreendente, reconduzindo o original ao curro da taxonomia, plantando a árvores dos conceitos onde estava o jardim dos enunciados.
A minha geração herdou os monstros da razão, filhos incestuosos da dialética perversa e seu relativismo ontológico e do aviltamento concentracionário do humanismo e fez deles formas mansas de governo e de domínio: fomos nós quem idolatrou o Estado que devora os seus filhos, cidadãos seus contribuintes, quem do egoísmo e do individualismo fez o dissolvente veneno do consumismo, que inutiliza a produção e abastarda o valor, gerando o lixo e o excesso, hipotecando o ser à usura do ter.
Foi no nosso tempo que o homem chegou à lua perdendo o mito lunar e se exilou nas estrelas alucinogénicas por ter tornado dejecta a terra que o viu nascer, transmutando o ouro do amor salvífico no ferro da guerra assassina.
Um outro mundo, porém, uma Atlântida florida, foi cultivada em discreto silêncio pelos poucos excelsos que souberam resistir ao nivelamento vil de tantos outros ninguém. Revelada pelos símbolos, astrolábios do saber esconso, encontra-se no labirinto da Criação pela fé gnóstica na necessidade de navegar. Nela o tempo gira em sentido retrógrado, a areia do seu relógio mal oculta as inscrições arquetípicas na lápida da Tradição.
Terra de mitos, de lendas e de cantares, em que o saber se alcança pela adivinhação, povoada de habitantes cuja inteligência sente e em que o coração pensa, nela morre a matemática do contável, por surgir, radiante, a poética do cantável.
Pensei hoje em tudo isso, porque o pensamento é real pluralidade do fragmentário e não a aparente unidade do sistemático.
Pensei nisso, nas doze estações da inteligência, porque, rendido ao sono, senti a proximidade daquele mundo «em que tudo é símbolo e analogia», em que «uma coisa nem parecida com a existência (vem) ocupar não o espaço, mas o modo como eu pensava o visível».
Viajei, com o Fausto, Uma tragédia subjectiva, do Fernando Pessoa. Quem descobrir a Verdade não pode sequer dizê-la nem tão pouco pensá-la. Ela é o indizível, o infinito para além do que ainda não começou. Regressei agora para vir escrever este silêncio.

26.9.08

O querer bem

Foi a aritmética quem liquidou a poesia, silenciando a música. Ao aprender a contar, o homem viciou-se no pecado de medir, perdeu a suprema graça da sua encantadora unidade. Em vez da indivisibilidade do ser, passámos à multiplicação das individualidades. Cada criatura é o que se adiciona, a vida feita de subtracções ao tempo que falta.
Depois ficou tudo imóvel, parou a música das esferas que é o contínuo em movimento. Descobriu-se o zero e com ele a posição relativa de cada um no corpo do número e com isso a ordem da sua grandeza. No infinito do firmamento contém-se a totalidade do firmamento e o sonho das estrelas que o vão gerando.
Inferiorizados, os portugueses tiram-se reciprocamente as medidas do seu exterior, anotando o total do que é visível. Ao avantajamento de bens sucede a soberba do intelecto. Há um dia em que a arrogância da maldade demonstra a exuberância de se querer bem. Reduzido à sua insignificância, o objecto do desejo cai afogado no mundo de todos os outros.

22.9.08

O pensamento inquieto

O que interessa num livro? Às vezes o que nele se escreve, outras as notas à margem com que alguém o glosou, quantas vezes a beleza da própria capa, o cuidado de tipografia, até a riqueza da encadernação.
Ora no caso desta tarde, feita da necessidade urgente de trabalhar na profissão e do cansaço mental a evitá-lo, parei por uns momentos, devolvido à liberdade tranquila, para uma visita à estante. Ali estava, impresso a mando da Editorial Império, sita na Rua do Salitre, em 1945, o Leonardo Coimbra, apontamentos de biografia e de bibliografia, escrito pelo Álvaro Ribeiro.
Tinha-o o lido e talvez o releia ainda hoje, quarenta e oito páginas em estilo límpido.
Mas o a propósito vem de uma nota, escrita na folha de guarda, ao lado do nome Leonardo Coimbra: «Leonardo Coimbra: um dos maiores pensadores de todos os tempos. Fundador do sistema filosófico intitulado creacionismo. Converteu-se à Religião Católica depois de longos anos de estudos filosóficos e científicos. Foi professor do Liceu de Gil Vicente na época de 1918-1919».
Mais: diz a nota que o livro é uma recordação do curso de Religião e Moral do ano lectivo de 1952-1953. O aluno, do 5º ano, turma B, chamava-se António José Nery de Oliveira.
Terminou tudo num alfarrabista. Recuperei-o, guardei-o, li-o, visitei-o esta tarde de inércia.
«Nunca o pensamento inquieto poderá desenhar uma figura rectilínea», escreve Álvaro Ribeiro sobre o autor de A Alegria, a Dor e a Graça. Talvez por isso os tropeções do espírito, as pernas do afecto a ensarilharem-se no intelecto.

A coincidência assombrosa

Reflexão nocturna! Quantas vezes o oculto se esconde no coincidente, assim se desconsidere o acaso e se tente ir à razão da máxima probabilidade. Pensado isto ontem, li esta manhã a resposta vinda do Aquém: «Pedro Martins parte de uma coincidência assombrosa: D. Dinis nasceu em 9 de Outubro de 1261; Álvaro Ribeiro, o filósofo desconhecido que se propõe desocultar, morre no mesmo dia, 9 de Outubro, mas 720 anos depois, em 1981. 720 anos exactos!». É um novo livro da editora Serra d'Ossa: O Céu e o Quadrante, Desocultação de Álvaro Ribeiro. É a legitimação do que aos dezanove anos intuí, abandonado pelo último dos Além's.

20.9.08

A dual negativa

É possível um filosofar de portugueses, que seja diferente só por ser oriundo dos nascidos em Portugal? Talvez não, apesar de terem uma língua comum, a fazer supor uma matriz unitária de pensamento, e já não se pode dizer que haja, a unir-nos, a Raça.
É possível um filosofar que seja sobre assuntos portugueses, que sejam diversos só por serem os que respeitam a Portugal? Talvez não, mau grado termos como Nação questões nossas e como Estado problemas que são próprios, e ainda haver quem acredite na Pátria que é una e indivisível.
Ora a questão reside precisamente no território definido por esse duplo talvez não, a dual negativa dubitativa.
É por causa da força mental da incerteza que se tem animado a razão a que se chamou de filosofia portuguesa. Escavam no modo de ser português, nessa antropologia do homem lusitano de que o espanhol é o além-fronteira, uma psicologia social que seja una e indistinta; escavam na tradição e seus arcanos os sinais de uma única antiga História da portugalidade.
É possível pois uma filosofia portuguesa. Ou melhor dito, existe, mesmo quando os portugueses não reconhecem Portugal.

15.9.08

Deus e o Diabo

O pricípio do terceiro excluído, o tertium non datur da filosofia aristotélica, tem seguramente que adaptar-se, como excepção, ao pensamento português. Escreveu Teixeira de Pascoaes «Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal». Está entendido? Não vale a pena insistir na tentativa de superar a exclusão. A filosofia portuguesa toda está contra, mesmo um anjo com asas.

14.9.08

O mirone do ajuntamento

Sabem todos os que com a filosofia portuguesa se ocupam e mais ainda os que com ela se preocupam, o que se passa.
Criei este blog para ir deixando por aqui apontamentos, leituras, notas soltas, provindas desse meu amor ao que Álvaro Ribeiro viu, e tantos outros sentiram: a possibilidade de uma filosofia portuguesa, reflexo anímico do modo de ser português. Saltito entre os nomes, os de Leonardo Coimbra, Orlando Vitorino, António Quadros, Pascoaes, José Marinho, Braz Teixeira, António Telo, muitos outros. Dalila Lello Pereira da Costa.
Apesar desta minha devoção tenho tentado ignorar o que se passa.
Tenho lido pouco, coleccionado livros para a estante, pensado quase nada, sentido sobretudo em silêncio. O blog ficou parado, asteróide morto na estratosfera, uma ideia sem substância, uma energia não corporizada.
O cansaço pressagia por vezes tempestade, tal como na Natureza quando uma súbita calmaria anuncia a chegada de uma trovoada.
Esta manhã enfrentei o que já sabia tinha acontecido. Fui à Leonardo ler e na carta aberta ao Jesué Pinharanda Gomes estava tudo. Choveu na minha alma.
Ser solitário, cada vez mais refugiado no ensimesmamento, sempre teria dificuldade em conviver com a multidão que se reuniu em torno da Nova Águia. Talvez nem queira ser mirone do ajuntamento.
Criatura a quem as lógicas de mando e domínio nada dizem, é impossível imaginar-me a filosofar a obediência ao Céu no areópago dos que querem o mando na Terra. Mesmo a ideia de dizer que filosofo é um dito que tem de vencer o pudor para me sair da boca.
Avesso à vozearia, incapaz de não me perder na algazarra da praça, lembro sim, com saudade,´a reconfortante ideia da tertúlia, o calor amigo da roda solta do café e das conversas desgarradas, não tê-las conhecido, sim por ter sido capaz de as viver, precisamente ao ler um texto do Pinharanda Gomes.
Talvez por isso, faça dó o que vejo. Ou talvez se deva olhar para tudo isto como uma das convulsões pelas quais a vida gera vida. No final, cada um ficará onde tem de ficar. Tudo menos as ilusões.
Ante isto, que fazer? Ruminar, talvez, fastios, regurgitar, sim, imprecações. Desejar um bom domingo ao Moraes Sarmento e quando chegar a casa ir lêr. Pausada e solitariamente, por nada, para que possa, enfim, ser por alguma razão.

20.8.08

O segredo

Ana de Castro Osório, que recusou casar com Camilo Pessanha, editar-lhe-ia, em 1920 a Clepsydra. Amor irrealizado, tinham-se unido pela fraternidade do sentimento, iniciados que já estavam na fraternidade universal da filiação maçónica, antiga e aceite, em que haviam encontrado a via oculta, a palavra sagrada, a cadeia da união.
Opiómano, emigrado para uma terra de exílio, Pessanha sofreria da mesma doença que Wenceslau de Moraes, o viver como um sonâmbulo num sonho alheio, numa pátria estrangeira.
Danilo Barreiros descrevê-lo-ia como «o morto-vivo», os chineses de Macau chamavam-lhe «o homem da meia vida».
No seu mais simbólico verso, o Branco e Vermelho, fez a viagem final, alucinatória, pelo território da luz. O poema inaugura-se com: «A dor, forte e imprevista/ Ferindo-me, imprevista/ De branca e de imprevista/ Foi um deslumbramento/Que me endoidou a vista/Fez-me perder a vista/ Fez-me fugir a vista/ Num doce esvaimento».
É a fenomenologia de um êxtase, a linguagem dos místicos, o dizer indizível, o segredo. Disse-o António Quadros, na Páscoa de 1988.

2.6.08

Os quadrilheiros

Talvez seja mesmo o ensimesmamento a saída única para um espírito angustiado, pesaroso pelo definhamento mental da maioria, e pelo espírito de milícia dos que se julgam os eleitos.
Numa qualquer cave de sinistras ideias, fabriqueta de petardos que arrombem as frontarias do ruminar oficial, o inferno por baixo, ou em qualquer mansarda, onde se embriague o espírito no alheamento do real, o céu como horizonte, a poética como companhia.
Portugal são hoje quadrilhas mentais que contam espingardas de erudição e se fuzilam com balas de retórica.
O pensamento pátrio começa a reduzir-se a isto: exumação e panegírico fúnebre. Não são discípulos são necrófilos; não são continuadores, são coveiros.
Não pertencer a nada, não ter grupo, nem seita, café certo ou família que nos reconheça é o que resta aos poucos que se queiram salvar dos salvadores de Portugal.
A filosofia portuguesa está nisto: os mestres pensadores deviam estar na a vala comum, onde nenhuns salteadores de sepulcros os encontrem. Vileza, ao que isto tudo chegou!

8.2.08

Leitor desconhecido

Fidelino de Figueiredo escreveu um livro estranho e assimétrico, chamado «Um coleccionador de angústias», que preâmbulo confessa dever-se-ia chamar «Agonia do Individualismo». Nesse livro apela, lembrando-o o «leitor desconhecido». Tenho-o comigo e hei-de lê-lo um dia. Seguramente um dia, tal como ele «de cor, por quartos de hotéis, de país em país».

6.1.08

Dalila, a sensibilidade pensante

Soube pela revista «on line» Leonardo que a Dalila Lello Pereira da Costa tinha publicado mais um livro, intitulado, «As Margens Sacralisados do Douro Através do Vários Cultos».
Veio pelo correio, e ei-lo, enfim, a ser lido. Comecei pelo fim, como faço por vezes com os jornais, como quem progride do já sabido para o como se soube.
A segunda parte da obra de «pristina nostalgia» é dedicada «à irmã Galiza, com saudades».
E é sobre a saudade «essa disciplina espiritual suprema» que assina um texto, tal como escreveu, em 1975 - ano impróprio para tanto - um livro, com Pinharanda Gomes.
«A saudade vence a irreversibilidade do tempo e a distância do espaço, efectua a sintese, ou mais a união do espaço e do tempo, anulando sua aparente diferença e desunião: e anulando-os finalmente como forças terrenas».
É pela força libertadora da saudade que o homem português descobriu o céu e a terra, em busca do «mito do ser e estar paradisíaco», argonauta do mundo por haver.
Lerei tudo, este livro e todos os outros.
Ama-se esta mulher pelo que é, pelo que sabe sentir e sabe fazer-nos sentir. Obrigado por ter sido como é, essa magnífica «sensibilidade pensante». Nasceu em 1918.

7.10.07

Adolescência regressiva

«Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem com os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, como portugueses». António Quadros o escreveu, no seu livro Portugal, Razão e Mistério.
Encontrei esta citação, não em um dos dois volumes dessa obra, mas aqui, neste blog que é dedicado ao seu pensamento. Actual o dito, como todos os suas semelhantes, neste ciclo em baixa do ser português. Não é uma questão de política, é um problema de sociedade em geral. Num país que se não reconhece como Nação e tem vergonha se ser Pátria, em que deixou de haver cidadãos, os poucos eleitores, os muitos contribuintes e todos os indiferentes, vivem aqui, como se turistas fossem, na terra multi-secular dos seus avós.

24.8.07

Setembro, em Sesimbra, a 4

Segundo li no blog Telegrapho de Hermes, citando como fonte a Revista Leonardo: «57 livros para a história da Filosofia Portuguesa é tema de uma exposição que vai estar patente, entre 4 e 22 de Setembro, na Biblioteca Municipal de Sesimbra. No último dia, realiza-se, pelas 15 horas, um colóquio sobre Rafael Monteiro e a filosofia portuguesa com participação de António Reis Marques, João Aldeia, Roque Braz de Oliveira, António Telmo, Pedro Martins e Luís Paixão. A iniciativa insere-se nas comemorações dos 150 anos de Filosofia Portuguesa». Um acontecimento a não perder.

11.8.07

As normas corporativas (2)

[continuação] «As normas corporativas não podem contrariar as disposições legais de carácter imperativo», diz o Código Civil. Mas, como dissemos, são fontes imediatas de Direito, como vem no mesmo Código, que ao acrescentar que «os usos que não forem contrários aos princípios da boa fé são juridicamente atendíveis quando a lei o determine», não se esquece de anotar que «as normas corporativas prevalecem sobre os usos».
Faz espécie que, tendo a Revolução de 25 de Abril de 1974 extinto o regime corporativo que a Constituição antes vigente, a de 1933, proclamava ser o nosso regime político, continue teimosamente no Código Civil, ostensiva e provocante, uma norma a considerar que é fonte de Direito o conjunto das «normas corporativas», que, como recordamos no último texto, são «as regras ditadas pelos organismos representativos das diferentes categorias morais, culturais, económicas ou profissionais, no domínio das suas atribuições, bem como os respectivos estatutos e regulamentos internos».
Como solver este mistério de sobrevivência jurídica e de aparente incongruência política?
Os mais práticos, aqueles que querem fazer passar por refinada teoria o que é afinal uma mera ideologia, dirão que se trata de um esquecimento do legislador, há trinta e três anos perdida a norma no olvido de quantos modificaram o sistema jurídico nacional ao sabor das conveniências mais diversas, pois que seria incongruente um Direito que, sendo do corporativismo, seria afinal o de um «fascismo», pois não é com mimos menos ásperos que o nosso corporativismo de base doutrinária eclesial tem sido tratado, apesar de os mais lúcidos analistas, como Manuel de Lucena logo à cabeça, terem mostrado quanta diferença há, entre tanta semelhança que parece existir.
Mas, e se não se tratasse de um lapso legisferante, mas de uma significativa manifestação filosófica e mais profunda, a evidenciar um lastro aglutinador típico do modo de ser português do nosso Direito? Se fosse essa uma fenda na muralha positivista do nosso sistema jurídico escrito, a abrir caminho a uma filosofia jurídica portuguesa, nossa?
É que, a ser assim, o que o Código Civil diria, enquanto carta de alforria da Pessoa face ao Estado, seria que, precisamente ao lado das leis estaduais, que se dirigem aos cidadãos e suas organizações, existiram as normas da comunidade organizada de pessoas, as corporativas, inderrogáveis como conceito, perenes como instituições. Não poderiam, isso é certo, ser anti-leis, mas seriam reduto privativo de normatividade, área inexpugnável de um mundo jurídico próprio, pelo Direito reconhecido e por ele legitimado.
E porquê? Porque dirigindo-se às categorias «económicas ou profissionais», e nisso abrangendo as empresas, os sindicatos e as associações de classe, não deixariam de fora as categorias morais e as culturais, nas quais não está o cidadão, nem o indivíduo mas sim a Pessoa, armada da sua dignidade, da sua espiritualidade, da sua alma, que não há Direito que usurpe na sua intangibilidade.
Inviolável que o é, a Pessoa, gozando dessa majestade ética típicamente da sobernia do ser, não poderia estar contra o Direito, mas sempre estaria antes do Direito: ela seria o fundamento, a razão, a única forma de legitimação de todo o Estado, de todas as leis, de todos os que vivem para as acatar e para as fazer cumprir.
Eis pois, fruto desta escavação arqueológica pelo Código Civil, um dos alicerces de uma filosofia jurídica portuguesa, a perenidade civil das «normas corporativas». Desmintam-me, que não quero estar convencido se estiver em erro!

As normas corporativas (1)

Julgam tantos que é possível ter sobre o Direito um pensamento que seja universal para todas as Nações, mau grado o Estado que as tribute, apesar do que for a Geografia, que de cada espécie humana faz um indivíduo diferenciado, da Tradição territorial que de cada cidadão faz um patriota constitucional, da Opressão que torna cada contribuinte num resistente activo.
E, no entanto, um instante de reflexão logo mostra o irrazoável de tal possibilidade, anulando-lhe a existência.
Não havendo Direito igual não pode haver sobre ele um pensamento uniforme, por vezes nem a convergência é sequer possível: assista-se a um italiano a falar num colóquio jurídico em face de uma audiência de escandinavos e conclua-se ao rir!
O discurso sobre haver ou não uma «filosofia portuguesa», estende-se ao saber se há ou não uma filosofia jurídica para Portugal. A resposta só pode ser: há, porque é.
Enquanto formos uma identidade psicológica distinguível, e ainda o somos, teremos como Nação um nome, a dos portugueses; enquanto tivermos uma sociedade civil que o Estado, vampirizando-lhe o sangue, lhe não corrompa o coração, seremos Portugal. Enquanto tivermos uma ordem, a que reconheçamos obediência legítima, que nos vença a liberdade por nos convencer da sua Justiça, teremos um Direito Português.
É sobre tudo isso que passarei a escrever.
Num país em que ainda há um Código Civil que reconhece como estando em vigor, como fontes imediatas de Direito «as normas corporativas», que seriam as de um regime corporativo deposto em 1974, mas que afinal são, diz a lei, «as regras ditadas pelos organismos representativos das diferentes categorias morais, culturais, económicas ou profissionais, no domínio das suas atribuições, bem como os respectivos estatutos e regulamentos internos», há por força este modo de ser português no campo da Justiça.
Estamos num país em que manda o Estado com suas leis, mandam as as corporações com os seus regulamentos. Só isso, que é nosso, dá para pensar. Pensemos pois!

10.8.07

António Quadros

Como antes ler do que escrever sem saber, descobri um blog dedicado a António Quadros. E nele encontrei esta magnífica frase: «O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental». Valeu a pena ter ido lá, encontrar a mordedura do ofídeo psicológico que me mordeu e que nem as férias conseguem curar.

22.7.07

O relativismo, essa água contaminada

O primeiro encontro entre o português Manuel Laranjeira e o espanhol Miguel de Unamuno ocorreu em Espinho. O triste médico encontrou no expansivo filósofo um «paradoxeur», prisioneiro do seu próprio relativismo e armadilhado pelas aporias da sua forma de dizer. Depois estreitou-se uma amizade que daria em espístolas, editadas pela Portugália e de que eu ainda anseio encontrar o livro para as ler.
Ao saber-se pela biografia de Don Miguel como, tendo sido deputado republicano e socialista em 1931, apoiou, entusiástico, o franquismo e a Falange, em 1936, para disso se arrepender em discurso violento no próprio ano, perguntei-me se, naquele momento do diálogo entre os dois em que ao ouvir dizer «qualquer água me serve desde que me mate a sede», Laranjeira responde que «assim um dia matará sim a sede e morrerá envenenado» já não estará contido, no ovo, o princípio de toda uma vida, toda uma trágica diferença que levará Laranjeira ao suicídio e ao olvido e Unamuno ao panteão da glória e às tubas da fama. Corria o ano de 1908. É sua a frase: «El modo de dar una vez en el clavo es dar cien veces en la herradura».

15.7.07

A perda de tempo

Vindo do Porto, aterrei em Lisboa e, esgotado de cansaço, dormi, pela segunda vez em dois dias, nove horas seguidas. Acordei com o turvo pensamento de pecado, a estranha sensação de incomum. Ainda em torpor, acudiu-me, entre o sono e sonho, ter visto, em Santa Maria da Feira um busto do Leonardo Coimbra, algumas das letras que lhe assinalam o nome caídas ou roubadas, enfim sumidas.
Não sei porque penso isto, nem sei porque estou ainda aqui, o banho por tomar, o dia por viver. Perto de minha casa um sino chama pelos que têem aquela fé. Hoje, além disso, é dia de votar, para os que têem essa esperança.
Lembrei-me foi de haver, entre a molhada desarrumada de livros que me cercam, um que o Alfredo Ribeiro dos Santos escreveu, biografando o Leonardo Coimbra. Esse opúsculo, que a Fundação Lusíada editou está prefaciado pelo Jesué Pinharanda Gomes. Fui lê-lo, por nele se conter uma frase provocatória acerca do Porto e de Lisboa e eu ter chegado a Lisboa, vindo do Porto: «No Porto, que trabalha, nem nunca nem ninguém, perde tempo. A perda de tempo é propriedade de Lisboa, que é, em si mesma, uma perda de tempo». Ora, pois, e eu a dormir, primeiro no Porto, e agora em Lisboa, perdendo tempo em todo o lado e em toda a parte!

8.7.07

Pensar Portugal

A filosofia portuguesa pode ser o filosofar dos portugueses e, a ser isso, é pouco, por não sermos muitos. A filosofia portuguesa pode ser o pensar Portugal e, se for assim, já é um começo esperançoso, porque a Nação tem de renascer pelo espírito, velha que está, após oito séculos de esgotado ser. Mas a filosofia portuguesa tem sido o modo de reiterar temas que se julgam nossos e de mais ninguém, como se um povo de marinheiros pudesse ter uma vida própria que não fosse o saber viver alheadamente.
Ontem bateram-me à porta dois locais que são tertúlias do espírito desse pensar português sentindo Portugal: o maranos, e o leonardo. Há mais, mais haverá.

28.1.07

O labirinto

O acaso fez-nos sentar lado a lado. Prometeu-me que me levaria a conhecer a Dalila Lello Pereira da Costa, soube por ele que tinham acabado os «Teoremas de Filosofia». Numa agenda que editou comemorativa do Fernando Pessoa, descobri que há dias de um qualquer ano longínquo nasceu o Vergílio Ferreira. Não sabia que era ele quem produzia o Borda de Água. Quando falou do «Sampaio Bruno» veio-me ao pensamento que hoje ainda, já nem sei onde, vi uma menção à «Ideia de Deus». Quase no fim do jantar veio a frase «conhecer é ser». Já nem sei qual de nós a disse ou a tinha pensado. Acho que a sentem todos os que pensam com o coração. Na osmose entre mim e o outro dá-se o sabê-lo como se fosse eu. Ao viajar pelo labirinto alheio reconheço-me no absurdo da minha confusão.

13.1.07

A partir do antes

Há, a ilustrar a exposição evocativa do António Gedeão, que está na Biblioteca Nacional, uma entrevista com a sua pessoa, nos últimos tempos em que viveu. Nela, o autor dos «Poemas Póstumos» recorda como tudo foi criado a partir do antes e como assim é possível, sempre recuando no tempo, chegar ao momento em que se retira a terra do sistema solar e o sol da própria galáctica. Claro que, seguindo sempre para trás, em direcção à origem, a dúvida surge, inevitável e eis aqui a grandeza do génio, neste momento agónico do anterior do princípio. Gedeão: «claro que eu não sou capaz de perguntar quem criou isto tudo. Por isso, não pergunto». Repito para os leitores distraídos: não é o que não sou capaz de responder, como diria, sem dar conta da sua arrogância, qualquer vulgar, é ter a grandeza de não se ser capaz de perguntar. Confesso que ao ouvir isto, assim tão breve e tão lúcido, de um homem à beira do fim, me vieram as lágrimas aos olhos, talvez por andar enfraquecido. Desculpem.

7.1.07

Ânsia de fim

O Livro de Areia de Jorge Luis Borges é a alusão em conto a um livro monstruoso, infinito, em que a cada página sucede sempre outra página, um livro sem princípio e sem fim. Trouxe-lho um homem que exalava melancolia. As folhas estão numeradas de modo arbitrário. Metáfora da vida, a obra corrompe a realidade que é viver, tornando-a como que infame. Condenado ao eterno, o precário tem sempre uma ânsia de fim.

22.12.06

O acto de renascer

Eu tentava explicar que, passageiros na carruagem do tempo, caminhamos contra o tempo. Ria-se, incrédula. Gesticulando, o gesto a ajudar à compreensão, expliquei que a viagem era rumo ao infinito, porque o tempo é circular. Ria-se, mais divertida ainda. Ainda tentei a frase poética que a nossa vida não ruma ao fim, mas em direcção ao princípio de tudo, onde finalmente se dá o milagre da vida. Só ficou, enfim, séria, muito preocupada mesmo, foi quando, já em desesepero, argumentei que a forma orgânica, estruturada, corpórea, em que os viventes se julgam vivos, é apenas a forma intermédia, provisória, de uma vida que se cumpre, enfim, quando morre para que possa renascer. Não sei já em que instante desta cantata verbal, invoquei o caldo de couves e a segunda lei da termodinâmica. Foi sucesso garantido. Ribombaram cavas palmas, ecoaram dós arfantes, um assobio mesmo, silvo estridente, vindo da geral, a dizer que sim! «Acho-o o máximo», ouvi. Hoje, acordei a pensar nisso, talvez para não me sentir no mínimo.

19.11.06

Amadeu de Souza Cardoso

Sim, eu hoje notei-os, vagueando, perdidos, sem nexo como quem faz tempo, pelos jardins da Fundação Gulbenkian que são, pois que perto da minha casa, uma continuação botânica da minha vida sem história domingueira. Foi depois, pela hora de almoço, ao vê-la, velha amiga, os olhos verdes lindos, ansiosos de beleza, estonteada no passo incerto, Avenida de Berna abaixo à procura de um café logo hoje que é domingo, logo aqui que fecham quase todos, que compreendi tudo. As visitas guiadas à exposição do Amadeu de Souza Cardoso estavam num caos de desorganização.
Pobre Amadeu, que aos trinta e um anos se foi desta vida e a cujos quadros muita da negligência familiar se foi, desprezando-os.
Numa raivosa carta a sua mãe, escrita de Paris, perguntava-lhe: «A Mamann sabe o que é a burguezia? Sabe sim. É a geral sociedade, essa que vive animalmente, isto é, aquela em que os sentimentos animaes é tudo e os espirituais nada. É uma sociedade de alma animal, Ha tambem bons burguezes., porque a alma animal tambem pode ser altamente virtuosa, mas nunca superior».
Burgueses, maltezes e outros macambúzios fregueses andavam hoje por aqui à cata dele. Pregado às paredes, enfim morto, Amadeu, o destinatário do «K4, O Quadrado Azul», «o substantivo ímpar 1» de José de Almada Negreiros ali estava, enfim, ao seu dispôr, não fora a desorganização que impedia o assalto geral.

13.11.06

A cadeia de união

Regressei, apressado, porque sabia que ia chegar atrasado.. Mas ele esperava-me. Há uma semana disse-lhe que ali estaria, na Boa-Hora, segunda-feira, todo o dia. Anotara e não se esquecera, nem do dia nem do que me prometera: alguns livros do falecido advogado Luiz Pedro Moitinho de Almeida, a cuja memória dedica desvelo fraternal. Eu acredito no destino que nos tece a cadeia da união que nos enlaça. Hoje à noite, já exaurido, peguei num deles. É uma conferência proferida em 3 de Abril de 1954, precisamente em Setúbal. Moitinho de Almeida que eu vi, vivo, pela última vez, a advogar, também no Tribunal em Setúbal, conheceu Fernando Pessoa, empregado de um escritório de seu pai. A conferência dedicou-a à biografia do poeta. É um texto eivado de carinho. Remata-a uma carta de Pessoa sobre uma tentativa do então jovem Moitinho editar uns versos em francês. O autor da «Tabacaria» sugeria que os suprimisse: «tirando o tirado o seu livro ficará interessante», disse. Pensei nisso: «tirando o tirado», sobrava-me a alegria de viver, o remanescente que ainda vale a pena.

8.11.06

A exclusão do mais ninguém

Há na estilística do português um uso indeterminado do pronome possessivo. Mas o mais ambíguo ainda é o artigo definido, usado para individualizar o objecto. É o falar dos que dizem «o meu amanhã», como se lhes pertenecesse e o soubessem como vai ser. Língua variada, tudo se complica quando o pronome possessivo não traduz posse, mas sim uma simulacro de adjectivo, a que o artigo definido dá o toque de intimidade. É como na frase «aquela tua maneira de mo dizeres». O «tua» nada tem a ver com o que te pertence, o que possuis, mas com aquilo que em ninguém mais eu encontro. Aquela tua maneira de seres tu.

1.10.06

Um mês antes de hoje

Há em Lisboa uma exposição sobre a dignidade da morte. Para os vivos a vida é uma semi-recta, porque julgam que há um fim, onde há apenas um retorno. A exposição é de fotografias de doentes terminais, vistos um mês antes de morrerem. O que impresiona é que cada uma daquelas caras podia ser a tua, a dele, até a minha, hoje mesmo.

31.8.06

Manicómio da Unanimidade

Pouco tempo antes de morrer Leonardo Coimbra escreveu um livro a que chamou «A Rússia de Hoje, o Homem de Sempre». Saíu em 1962. É uma análise para-filosófica do bolchevismo e do homem russo. O livro tem dois capítulos, o primeiro dedicado ao humano e anímico o segundo ao geográfico e político. O seu parágrafo final é uma antevisão: «Manicómio da Unanimidade, zoologismo do rebanho unânime, engordado e feliz, são pontos extremos, onde o Inferno dantesco poderá viver, mas onde o homem real, o homem ontológico, não pode estabelecer definitivamente a sua morada». Todos vimos que foi assim. Há livros com compramos por acaso e com relutância, e que lemos por causa da realidade e da sua repugnância. Logo este que abre com «a tragédia do homem esta na ignorância de si e do Universo que vive, ou antes, convive», torna-se, envelhecido, situado, num livro de sempre.

6.8.06

Sujar a realidade

O magistério de Leonardo Coimbra e o que tem de controverso projectou-se por vezes pelas mais inesperadas formas e nas mais invulgares circunstâncias. O seu estilo fogoso e o clamor do seu verbo eram o melhor serviço à difusão das suas ideias, nomeadamente junto das audiências mais jovens. Encontrei no livro de memórias do poeta José Gomes Ferreira, que ando a ler, esta forma singular de o dizer: «Demais, Leonardo Coimbra em nada se assemelhava aos meus mestres antecedentes. Trazia um estilo novo em que (não mintas, José Gomes Ferreira!) abundava a retórica ou o que aos nossos ouvidos de mocinhos ignorantes umas vezes soava a coisa nenhuma de alto verbo, outras, a música que nos empolgava e nos estremecia de pavor, quando o contemplávamos no estrado de lágrimas nos olhos». Fantástico retrato deste «professor exímio em palavrões (praguejava como se quisesse sujar a realidade)», fantástica forma de o desejar conhecer.

8.7.06

Partículas em suspensão

A escrita neste blog encontra-se suspensa. Obrigado a todos os que o visitaram e têm procurado saber.

25.6.06

Existir e viver

Não há pior do que um cartesianao para perder o tino da razão. Basta dar conta de que não existe, apesar de pensar. Um sentimento assim e entra-se na loucura do viver.

10.6.06

Possuído de si

Voltei ao artigo de Pedro Sinde sobre o Álvaro Ribeiro na revista «Teoremas de Filosofia», por me lembrar ter visto lá escrito que o indivíduo aprenderá a separar o «eu» de «o meu». Sim, mas quando fala do «seu» corpo e da «sua alma» dá-se então o equívoco entre o que é a sua personalidade e a «propriedade sua». Possuído de si, o homem, mata-se às suas próprias mãos.

5.6.06

A semântica senil

Este blog deveria ser dedicado à filosofia portuguesa, se eu estudasse, mas eu sou um mau aluno, daqueles do curso nocturno que acham que chegarem esgotados às aulas justifica adormecerem nelas. Compro livros que não leio e calculo que por osmose a coisa funcione. Hoje encontrei um desses muitos livros em que um dos capítulos se intitula «perguntas interessantes e respostas conhecidas». Não era um manual de filosofia, era um caderninho de introdução à linguística, organizado pela Maria Helena Mira Mateus e pela Alina Villalva. Quando eu andava pela Faculdade de Direito, errante entre os compêndios e refugiado das sebentas, soube que ela dirigia um Centro de Linguística Teórica. Fiquei com a ideia de que era junto à Feira Popular. Ou estou certo ou já baralho tudo, tartamudo de todo, linguisticamente incapaz.

25.5.06

O ter-te como filosofia da existência

A tragédia do homem nasce com as gramáticas para quem o verbo ser equivale ao verbo existir e tudo ao verbo estar. Aí, nada do que não é há. E no entanto, caminham a nosso lado os que foram e já não estão, fazem-nos companhia as ilusões do que ainda virá a estar, podendo existir mas ainda não é. Um dia, numa madrugada de agonia por este confinamento da existência ao que está, um homem, armado de ser até aos dentes, atacará à bomba toda a lógica, a tiro tudo quanto é gramática. Nesse dia profundamente libertador, as forças da ordem, as que garantem que mais não haja do que o que está, sairão para a rua. Uma carnificina feroz mutilará de vez o homem revoltado. Quando o sol raiar, já nada há para quem foi. Morto o mundo do ser, surgirá então, pegajoso e regulador, o mundo do ter e as suas servidões. Um homem, dos muito poucos que sobreviverão, encanter-se-à por uma mulher. Dir-lhe-à és minha, terão um filho e a isso chamarão amor.

22.5.06

Os números racionais

A propósito de Álvaro Ribeiro, a que a revista «Teoremas de Filosofia» dedica o seu número 12, Pedro Sinde escreve que «o português é, no seu melhor, de um realismo idealista ou de um idealismo realista, que o torna felizmente incapaz da abstracção, naquele sentido ede uma reflexão separada da vida, de construção de castelos no ar». Anoto o advérbio «felizmente». Um povo que vive o que vê, e com o concreto se basta, é seguramente um povo feliz. Rural, os pés assentes na terra, sabe contar pelos dedos, basta-lhe a aritmética, dispensa a álgebra e a infelicidade que com ela chega sob a forma de números racionais.

12.5.06

Obras portuguesas on line

A Biblioteca Nacional informa: «a língua portuguesa está actualmente entre as 9 principais línguas do Projecto Gutenberg, uma vez que tem de mais de 50 obras disponíveis de forma livre. Entre as actuais 51 obras encontramos nomes de autores clássicos como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão, entre muitos outros. No âmbito do projecto Distributed Proofreaders (DP), voluntários revêem obras online página a página, comparando imagens digitalizadas com o resultado em OCR. Após várias rondas de revisão, os livros digitais resultantes podem ser descarregados gratuitamente no sítio do Projecto Gutenberg (PG). A Biblioteca Nacional Digital contribui para este projecto com imagens de obras portuguesas, sendo responsável por 33 das referidas 51 obras. Para mais informações, consulte a página http://pagina-a-pagina.blogspot.com ou envie um mail para rfarinha@bn.pt.». Nós, os portugueses leitores, agradecemos. Obrigado Biblioteca.

1.5.06

Para pensar depois

«Ser português é ser europeu sem a má-criação da nacionalidade», escreveu um dos vários que eram o Fernando Pessoa. Não sei o que pense, hoje que não quero pensar. Rabisco aqui, como se num pedaço de papel, antes que esqueça e depois me não lembre o que tinha deixado para pensar depois.

24.4.06

Uma certeza aguda

Há muito tempo que eu não vinha aqui. Comecei este «blog» por achar que na geometria encontraria uma forma não geométrica de me exprimir. Depois dediquei-o à filosofia portuguesa. Com o avolumar daquilo a que me obriga o meu emprego, que eu sou mal empregado, patrão de mim mesmo e ao serviço dos outros, passam-se dias em que nem um pensamento sequer, quanto mais uma filosofia. Esta manhã um sentimento de não poder definhar mais a pontos de estar como estou, acordou comigo, no mesmo sofá. Vim aqui deixar esta nota. Escreveu-a o Reinaldo Ferreira, esse mesmo, o repóter. Li-a como se minha fosse ou de mim falasse: «Tome-se um homem, feito de nada, como nós, e em tamanho natural. Embeba-se a carne, lentamente, duma certeza aguda, irracional, intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, agite-se um pendão e toque-se um clarim. Serve-se morto». Di-lo, comovidamente, o Mário Viegas. Ouço-o, raivosamente, eu, que aqui o cito.

16.4.06

A sagesse caprina

Permita-me o incomunidades a citação: «Não se sabe o que fazem, porém mexem-se. Alinham os bodes sem formatura no mais castanho-vivaz dos carreiros entre-verdes. A sagesse caprina domina as presenças ignorantes, sua quietude altaneira oprime os compassados, os que inverteram o grito e são agora profissionais, batem, por exemplo, no burro sempre que o social os aliena». Notável frase, notável blog.

12.4.06

O hino à claridade

Por bem fazer, mal haver. Trata-se de Rosa Araújo, recordado aqui, pela voz da Villaret, tal como o lembrei, revoltado, também aqui. Leia-se mais, por exemplo aqui. É um dos muitos portugueses de que Portugal se esqueceu.

7.4.06

A esquisita revelação

Escrevi no dia 7 de Junho do ano passado, num blog que morreu chamado «O Mundo em Gavetas»: «Talvez eu consiga encontrar apenas de noite, escondido do resto e albergado dos outros um espaço e um momento, um instante singelo na complexidade do mundo plural que me aflige: poderia ser esta casa na duna, ou talvez seja uma criatura. Oculto como é esse mundo, o revelá-lo destruir-lhe-ia o encanto, quero dizer, o encantamento». Um destes dias comemoro esta frase, reparando que me esqueci dela, completamente.

2.4.06

Portugal uno e plural

O controverso Orlando Vitorino arquivou num livro a que chamou «Exaltação da Filosofia Derrotada» o que chamou «Uma Constituição para Portugal». Não vem agora ao caso falar disso, só lembrar, pelo muito que nele se diz, o que é o segundo princípio dessa sua proposta de Lei Fundamental: «Portugal é uma Nação, uma Pátria, uma República e um Estado». Digo isto e disto me lembro pois que, olhando para o que se passa, Portugal é às vezes, apenas algumas, outras vezes, uma só, destas muitas coisas de que deveria todas afinal, numa só e única coisa.

1.4.06

Não separe o homem

Istambul é a única cidade do mundo que se situa em dois continentes. Isso que mostra que a terra separa aquilo que o céu uniu: um só mundo, um só espírito com muitos deuses.

30.3.06

O culto do silêncio

Barricavam-se nas tertúlias, a filosofia surgia-lhes entre chávenas de café, pensamento pigarreante, as ideias em intervalos, o pensar como exasperação de empregos rotineiros e de ocasião. Funcionários modestos, professores de liceu, tradutores do que calhava, muitos sem escola, deixaram uma escola. As Academias desprezavam-nos, as Faculdades nem os queriam ver. Alguns são o que se chama a filosofia portuguesa, nómada e errática. A sua fé é na Pátria dos Portugueses o seus Deus uma divindade incorpórea, o divino Espírito Santo, que todos veneram, mesmo os que rezam em silêncio por uma Nação que não morreu.

29.3.06

O dom sugestivo e vagabundo

Augusto de Castro Sampaio Corte Real, que foi jornalista, director do «Diário de Notícias» e diplomata, publicou em 1928 um livro chamado «As mulheres e as cidades», em cujo prólogo escreve, a propósito do amar e do viajar o seguinte: «viajar e amar não é para todos a mesma coisa. Nós nunca amamos uma criatura humana: amamos a ilusão que em nós próprios formamos dessa criatura. Da mesma forma, para aqueles espíritos que possuem o dom sugestivo e vagabundo de evocar, viajar é passear pelo mundo real um mundo imaginário». O mais interessante é ter encontrado um blog que o cita, com carinho, pelo livro em si e pelo modo como o encontrou, de alguém que descobriu, vendido ao quilo, «este livro que alguém amou muito».

27.3.06

Acreditar em Portugal

Filho primogénito de António Ferro e de Fernanda de Castro, António Quadros, de seu nome completo Antóno Gabriel Quadros Ferro morreu no dia 21 de Março de 1993. Antónia de Sousa entrevistou-o para o Diário de Notícias que foi publicado dez dias antes do seu desparecimento. A terminar essa conversa, que seria a última, perguntou-lhe que mensagem gostaria de dirigir aos portugueses. Quadros, que sempre viveu com a intranquilidade estimulante de ter ficado aquém dos seus desejos, respondeu: «Acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de vós e sem Portugal sois menos do que sois».Lembrei-me esta noite desse grande homem e de ter escrito em 1922 um livro actual que se chamou «Memórias das Origens, Saudades do Futuro». Talvez amanhã, chapinhando no charco em que caímos, consigamos manter a crença e viva a esperança. Hoje fica apenas este momento de lembrança.

24.3.06

Porque

«Portugal existe, porque foi construído pelos portugueses«. A frase. com tudo o que tem de notável, pertence a Agostinho da Silva, numa entrevista dada a Miguel Esteves Cardoso, um estrangeirado que fala português.

23.3.06

A prova real

Desejos multiplicados, receios diminuídos, face à adversidade, dividir, nos bons momentos, adicionar, esta é a aritmética simples dos afectos. Depois, há as operações mais complexas, as do cálculo frio dos interesses, a geometria dos equilíbrios. No mais, há quem viva estatísticamente, no risco da maior probabilidade, quem sobreviva em conjuntos, no conforto dos mundos concêntricos. Há quem conte pelos dedos, quem não saiba a prova dos nove. Noves fora nada!

21.3.06

Um exercício de estilo

Num livro ingénuo, que encontrei em luxuosa encadernação contrastante com a sua tipográfica modéstia, tirado em 1964, e dedicado «a quem morreu como viveu», Pinharanda Gomes, que em Quadrazais nasceu em 1939, põe na boca de Teófilo, em diálogo socrático com Crisóstomo a pergunta para a qual a minha vida ainda me não ofereceu sequer o favor de uma resposta: «o que é o modo e viver senão o exercício da morte?». «Nascer, é aparecer para morrer», dissera Crisóstomo, umas folhas antes, como se a propósito.

17.3.06

Espectador da vida

Deve-se à genialidade do pintor Almada Negreiros a fórmula que resolve numa equação enigmática a individualidade humana e o mistério do amor unitivo. No seu 1+1=1, resume-se o princípio que na química se manifesta quando o dióxido de carbono, inoculado num líquido, perde as suas propriedades próprias e assume as do próprio meio onde se espraia. É assim a união carnal, liquefazendo-se ambos, num extâse criador. «Tu és tu, porque é assim que és», disse ele, complacente no vértice de uma vulgar tragédia. Eu sei, pensei eu, espectador da vida, mineralizado em conceitos, és apenas um número, a tua angústia o não saberes se, ao sê-lo, és o máximo divisor, se o menor denominador comum. Um número, apenas isso. O número perfeito, irracional, o número de ouro, a extrema razão.

14.3.06

O som maravilhoso

O último livro que o António Alçada Baptista escreveu, publicado em 2003 e que oxalá não seja o último livo que o António Alçada Baptista escreva, chama-se «A Cor dos Dias» e são pequenas notas bem-humoradas, longe do estilo íntimo e espiritualizado da sua «Peregrinação Interior». Naquele fala alto e bom som com cada um de nós, neste falava num mumúrio com o próprio Deus. E, talvez por isso, perguntado que foi sobre «o que faz o senhor quando está só», revela-nos ter respondido: «escuto-me a viver e é um som maravilhoso».

11.3.06

Pascal: o geómetra dos sentimentos

Quando tinha dezasseis anos, Pascal descobriu que «se partirmos de um hexágono inscrito numa cónica, então os três pontos nos quais os pares de lados opostos se encontram ficam alinhados». Este teorema tem o seu nome. Quando eu tinha dezasseis anos, descobri o Pascal à força de ter de aprender filosofia no Liceu, com um professor que se chamava Pelicano. Mas o Pascal que eu encontrei, ensinou-me esta regra para toda a vida: o amor é cego, a amizade fecha os olhos. Vem nas folhinhas de um livro que ele nunca conseguiu acabar, o livro que nem precisava de escrever.

8.3.06

Apóstrofe

«O português gosta de fazer projectos vagos, castelos no ar que não pensa realizar. Mas no seu íntimo alberga uma secreta esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente». Esta frase foi escrita há cinquenta anos, por Jorge Dias, o antropólogo que estudou em adulto, morreu cedo e nos deixou o levantamento etnográfico sobre o comunitarismo de uma aldeia hoje submersa, Rio de Onor e uma colecção vasta de estudos. O livro chama-se «O Essencial sobre os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa», foi publicado pela Imprensa Nacional de 1985. Encontrei-o referido no «site» do Centro Nacional de Cultura, num artigo de Guilherme de Oliveira Martins, que agora, é pena, mas assina «d'Oliveira Martins».

5.3.06

Aritmética e geometria, essas palavras femininas

Olhares oblíquos, pensamentos transversos sobre volumétricas formas de improváveis mulheres, o piramidal acicate da carne, o ortorrômbico da crustácea desilusão. A cardinalidade dos números inteiros mostra a sua natureza finita. Contando-as pelos dedos, as que passam por esta rua, saídas do colégio, parecem não mais acabar.

4.3.06

Trier

Ter uma filha que esteve em Trier, ter eu já estado em Trier, ter o Karl Marx estado em Trier e terem estado, antes de todos nós, os romanos em Trier, faz-me lembrar que nada há hoje que não tenha sido, o que foi, será. Eu sei que é uma esperança de vida e uma ânsia de camaradagem, entre nós, antropologicamente semelhantes e por isso diferentes.

2.3.06

Teologia de táxi

Foi no táxi, porque foi no táxi que tive dez minutos de tempo, o livro era pequeno, cabia num cantinho da pasta e o capítulo menor ainda, legível na duração da corrida. Era o Borges, o Jorge Luís, com quem fiz as pazes e que leio agora, descobrindo-o - eu analfabeto confesso, arrependido da incultura, agora na meia-idade, que é a idade do saber - filósofo profundo, escritor sensível, irónico observador. Numa breve reflexão sobre o tempo circular, lança a ideia delirante de um conto, que talvez nem tenha chegado sequer a escrever, de um teólogo que persegue o herético, denuncia-o e fá-lo queimar nas fogueiras inquisitoriais para descobrir, num espanto tardio e já inútil, que para Deus omnisciente, Nosso Senhor, o herege e ele eram, afinal, uma única e só pessoa. É assim que se compreende o sublime da vida: cada coisa precede-se a si própria, mas só no infinito do eterno o múltiplo se funde no um, para se expandir no vário, renascendo no exacto momento de morrer.

1.3.06

A lesma, esse caracol sem casca

O «cá se vai» tão tipicamente português é a forma adequada de exprimir o nosso modo de ser: vista do ponto de vista verbal, sugere movimento, a sua verdadeira significação é o simbolizar o imobilismo. Normalmente, acrescenta-se um «tudo na mesma», para não haver enganos e alguém imaginar que estamos de partida. O melhor remoque ainda é o «tudo na mesma, como a lesma»: assim percebe-se tudo e ainda se pode responder, querendo ser amável: «é a vida, não é?», não vá alguém supor que estamos mortos, cá se indo!

27.2.06

O nítido nulo

Através da História conhecemos todo o tempo que os outros nossos antecedentes já viveram, através da Geografia, conhecemos mais mundo do que eles conheceram. A única dúvida é não sabermos quando começou o tempo nem onde acaba o mundo. Dividindo infinito por infinito o resultado é zero. Ou seja, comparando-nos com os nossos antecedentes, estamos pior, ao nível do nulo, nitidamente.

26.2.06

A tautologia e o cardíaco

Bertrand Russel disse um dia que as matemáticas mais não são do que uma vasta tautologia, já que dizer três mais quatro é, afinal, uma outra forma de dizer sete. É por isso que a gramática poética é o fundamento do único conhecimento e da única linguagem enriquecedoras: não por se aprender com a cabeça, mas sim porque se apreende com o coração.

Os blogs de JAB!

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.

23.2.06

Por causa que não na sei

Sabem os que sabem que a «Menina e Moça» do Bernardim Ribeiro é um livro carregado de sentidos ocultos e que se presta a hermenêuticas esotéricas. E sabem muitos, sobretudo os que como eu aprendiam Literatura no liceu com gosto, ou à força de chapadas, ou num misto de tudo, que ele começa com «Menina e Moça me levaram de casa de meu pai para longes terras». Agora o que nem todos sabem é o resto: «Qual fosse então a causa daquela minha levada - era pequena - não na soube. Agora não lhe ponho outra, senão que já então parece havia de ser o que depois fui». Haverá melhor forma ou outro meio de, numa frase só, dizer de todo o fatal sentimento deste povo predestinado e do seu fado ignorante? Talvez haja e vem no livro, ainda no seu prefácio: «O livro há-se ser o que vai escrito nele. Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas». Eis-nos pois, em desordem, pela vida levados, por causa que não na sabemos, com uma tristeza que nem podemos contar.

16.2.06

A charanga

Agora vai ser até rebentarem com o Agostinho da Silva. Quando era vivo quase metade ignorava-o, a maioria do resto tomava-o como um palhaço, uma minoria compreendia-o. É para isto que servem as efemérides, para matar os mortos, ressuscitando-os primeiro. Houve um livro que ele escreveu em 1981 que se chamava «Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro». A ideia de orquestra pode induzir em erro. Em matéria de História e de Futuro, somos mais um realejo. Dá-se à manivela e já se sabe o que lá vem. Por isso é melhor deixarem passar a festa das comemorações. Quando retirarem os mirones e os gaiteiros, talvez se possa, enfim, tratar o assunto com respeitabilidade. Dele disse o Ruben A. esta coisa lindíssima, que consegui encontrar na página 101 do segundo volume do seu livro de memórias «O Mundo à minha procura»: «Ensinava-nos a não perder tempo, a ganhar tempo, a completar iniciativas que se discutiam». Um homem destes faz falta na vida de um país. Hoje, no burlesco comemorativo do espectáculo social em que vivemos, de barbicha ao vento e gato ao colo, é apenas uma forma de passar o tempo.

12.2.06

A angústia do amor

Adolfo Casais Monteiro traduziu para português «O desespero humano» de Sören Kirkegaard. Dedicou o trabalho a Leonardo Coimbra. Encontrei agora o livro, tirado em 1936 pela Livraria Tavares Martins, num monte de velharias amarelecidas, a cinco euros cada. Dentro, guardada por algum seu leitor, a cinta vermelha que guarneceria a obra, resumindo-a como «o desespero das almas que não querem abandonar-se à misericórdia e ao perdão de Deus». Não vou ter tempo de o ler tão cedo, mas lembrei-me esta noite de ter lido sobre quem tivera um papel primordial na conversão de Leonardo: o Padre Cruz. Procurei recordar onde o lera e encontrei-o, um breve artigo de Pinharanda Gomes, arquivado nas Actas de um Colóquio que se chamou «As linhas míticas do pensamento português». Estava entre os livros que, aqui por casa, haverão de voltar para a estante, quando houver mais estante. Folheei-o agora, para me deter numa carta que o Padre [Francisco Rodrigues da] Cruz escreveu a Leonardo em Dezembro de 1935 e onde a certo passo cita Santo Afonso: «quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer». Ora Deus quis que este homem se convertesse, ele não quis outra coisa que esta conversão. Desesperado, tinha então um filho a morrer. A fé surgiu-lhe na angústia do amor.

10.2.06

Rio Mau

Passei de carro, era perto de Vila do Conde. E levava na memória o nome: Rio Mau. Na curva da sinuosa estrada, ainda me passou pela cabeça a ideia de subir, procurar, encontrar. Mas é isto o selvagem urbano com um automóvel nas mãos: segui deliberadamente em frente, regressando a Lisboa. Tinha lido em Dalila Lelo Pereira da Costa, na sua «Corografia Sagrada», onde compilou um artigo que publicara em Agosto de 1989, que era ali que estava o homem engolido pelo monstro, simbolizado na Igreja românica de São Cristóvão de Rio Mau. Erguida pelos Templários, nela está expresso «o valor ritual e existencial do sofrimento, como meio de transmutação». Na dureza granítica da vida, a ideia de que, no irrequieto movimento da viagem pela vida, não mais lá voltarei, persegue-me como se vistos os sinais, tivesse fechado os olhos à luz, o cego que não quer ver.

9.2.06

O menino e a criança

Em Dezembro de 2002 o Museu de Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, organizou uma exposição dedicada a outro notável filho da terra, Teixeira de Pascoaes. Advogado também - dos que se exilam nas letras - disse sobre ele a irmã, Maria da Glória, num livro, editado em 1971, que eu ainda hei-de encontrar: «foi sempre um homem, nunca foi criança». Pegando exactamente na frase, António Cândido Franco, acrescenta, no catálogo evocativo dos cinquenta anos da sua morte: «o que é também outro modo de dizer que ele foi sempre um menino, nunca um adulto». Parece absurda a conclusão; absurda porém a realidade que a impõe.

7.2.06

A noite e o riso

Li hoje num jornal que vão sair CD's com algumas das «conversas vadias» do Agostinho da Silva. Claro que para muitos, o que vai ficar é o lado burlesco do personagem, as barbas ao vento, o ar de São Francisco de Assis, de quem aliás escreveu uma biografia. Passou-se o mesmo com o Vitorino Nemésio, de quem muitas pessoas só se lembram do «se bem me lembro». É o que dá a televisão. Um único personagem resistiu, o maestro António Melo, que acompanhava ao piano o Museu do Cinema do António Lopes Ribeiro. Entrava mudo e saía calado, com uma única excepção, à despedida, o dizer «boa noute». Tal qual: «noute», que em bom português ainda é mais onomatopaicamente escura do que a noite.

2.2.06

Nos por cá, todos bem

O português naquela sua fusão rural do animal à terra, trai-se quando fala. Acontece com advérbios de lugar que se tornam como complementos pessoais. É o «você ainda há-de vêr o que é um caldo de galinha feito pela minha senhora». É evidentemente que o tem propósito e duplamente propósito no «para do Marão, mandam os que já estão». Mas o «da minha senhora», é outra coisa e um outro mundo, é o sentido e o afecto do « das minhas», esse mundo de intimidade familiar partilhado na mesma cama, sofrido na mesma malga, sepultado no mesmo chão.

A sala 3

Às vezes é só ir ao cinema ver um filme sobre o acaso e sair-nos, afinal, um filme sobre a necessidade: a útil necessidade de manter uma conveniência, a sensual necessidade de entreter um devaneio, a cruel necessidade de liquidar uma inconveniência. Depois é só o remorso da impunidade, o ridículo da justiça, a sordidez do mundo a oferecer um culpado. Às vezes é só ir ao cinema, numa noite de acaso, por necessidade de companhia.