8.10.05

Forma pura

A geometria é a mais pura forma de geografia; não trata de nada que exista na terra, nem da própria terra: trata de todas as terras possíveis, e do próprio céu.

7.10.05

O homem que nunca não

Hoje quem vier aqui não encontra nada. O zero não existe, eu sei, é um conceito útil ao sistema decimal. Passarei, por isso, a escrever em numeração romana: nasci em MCMXLIX, mas esse não foi o meu ano zero, foi o meu ano um. Por assim ser, nunca não existi e, com sorte, no ciclo vital da vida, talvez nunca deixe de existir. O que pode ser é que se esqueçam.

6.10.05

Intervalo

O intervalo é o que separa os sistemas contínuos dos outros, que se chamam discretos. Nestes quando o intervalo surge, é porque acabaram. Depois deles, é o nada.

5.10.05

Tiro e queda

Quando fui à inspecção militar pesava quarenta e oito quilos; talvez por isso foi-me atribuída a especialidade de armas pesadas de infantaria. Tudo aquilo girava em torno do cálculo de trajectórias de tiros, parábolas mortíferas projectadas nos céus. Totalmente ignorante e sem qualquer queda para a geometria, um dia, aplicando, a meu modo, a fórmula do livro ao tiro do morteiro, apontei a boca da arma para o que era suposto ser o alvo. Sem paciência para tipos da minha laia, o irascível tenente, comandante do nosso esfrangalhado pelotão, invectivou-me com um ó rapaz olha lá para onde estás a apontar. Estava de facto, para a janela do quarto do comandante, no quartel em Mafra. A guerra estava perdida.

4.10.05

O salto mortal

Bem me parecia que tinha saltado um dia sem vir aqui. É como naquelas demonstrações dos teoremas em que se percebe que na dedução falta uma linha. O resultado está certo só que à conta de se fazer de uma pirueta.

2.10.05

Estar

Com a mudança tinha-os carregado para o topo da estante. Para ir ter com eles, tinha de ir buscar o escadote que está na cozinha. Mas nem sempre apetece a um homem levantar-se para ir buscar um escadote. Ontem decidi-me e apeei-os. Ficaram ao alcance da mão. Eis-me com o volume quinto, onde ele encontra a frase eu sou quem está cá, esse modo popular de cada um dizer que é igual a si próprio. Ele, o Vergílio Ferreira, na sua Conta Corrente, primeira série. Cada um, os que ainda sabem quem são e que ainda estão.

30.9.05

À glória de ∏

Calcular a curva pela recta, o perímetro da circumferência pelo seu raio, desemboca no paradoxo aparente da quadratura do círculo: só o geómetra sabe, iniciado no mistério do número, como isso é possível. O número é imperfeito, o resultado exacto.

29.9.05

O limite do eu

Imagine-se um triângulo inscrito no interior de uma circunferência. Imagine-se o triângulo a converter-se, primeiro em quadrado, a seguir em pentágono, a seguir em hexágono, em heptágono e assim sucessivamente, ganhando cada vez mais lados. A regra é conhecida: à medida que o número de lados aumenta, o perímetro do polígono aproxima-se cada vez mais do perímetro do círculo no interior do qual se encontra. Qual o limite? Geometricamente, o único limite é o infinito. Assim se passa com os que se desdobram: um dia de infinito, chegaram ao seu limite.

28.9.05

Apanhando as canas

A propósito de um livro de poemas de Luís Adriano Carlos, Urbano Tavares Rodrigues escreveu, em recensão, que: «por detrás dessa pirotecnia semântica e versificatória, neoconceptista, há uma emoção que pensa, à maneira de Pessoa, mesmo quando através do exercício lúdico, das geometrias do poema, das glosas do verso dado». Claro que me ficaram os olhos na expressão plural «geometrias do poema», mas ficaram só até ter dado conta que Urbano, tratando a obra como algo de «muito alto preço», forma de dizer da sua valia, diz que ele «é um livro de poemas ultra-habilidoso», querendo dizer, afinal, que ele é um livro rebuscado. A partir daqui já nem comigo me entendo: geométrico, sim, pensante, às vezes, lúdico, quando posso, agora habilidoso! Nem pirotecnicamente falado, porque não ando atrás de foguetes.

26.9.05

O lar como ideia

Sentado à sua banqueta, sobre o estirador debruçado, fosforescentemente iluminado, há um labirinto humano a desenhar. Na precisão exacta do seu rabiscar, riscado e garatujado, existe, nessa aracnídea figura de rebuscada alma, a ilusão da forma na alucinação do conteúdo. Um dia, estúdio adentro, a ideia surge, como se ali entrasse sem bater. O homem gera projecto. Nómada da geometria, faz da casa alheia o esboço que ali a antecipa e no papel. São hoje riscos, amanhã um lar.

25.9.05

A ridícula demonstração

Não tinha vindo aqui hoje e seguramente não há nada que tenha para dizer. Perguntar-me-ia alguém que me lesse, porque vim então dizê-lo assim, como se expressamente. Precisamente por isso, respondo eu, sem ter sequer interlocutor que me ouça: foi-se embora, deixando-me a falar sozinho. Estava eu a explicar-me, ridículo como todos os que se explicam, e assim fiquei.

24.9.05

A esfera

Os deuses tiram quando dão. Li isto no Fernando Pessoa. E hoje, que é sábado e um vento frio ensarilha a cidade e afugenta os homens, senti o que é. Nesta esquina, perdido de bêbado, olhando-me indiferente, um homem fala uma língua incompreensível. Naquela janela de uma repartição pública, pálida, uma luz cinzenta, artificial, gelada de desolação acompanha alguém para quem o único desespero restante é o trabalho por fazer. O mundo perdeu forma e substância, esfera oca no vazio, povoada de nada.

22.9.05

Tratado da grandeza

No Livro I dos «Elementos» de Euclides vem, logo a abrir, a seguinte definição: «Ponto é o que não tem partes, ou o que não tem grandeza alguma». Talvez por isso haja uns tipos que são considerados como uns grandes pontos. São os que não têem grandeza alguma.

21.9.05

Equidistante

O facto de o triângulo equilátero ser equiângulo demonstra não só a beleza da igualdade exterior, mas sobretudo o conforto da proporcionalidade interior. No mais, encontrados dois deles, temos o mundo quadrado e quadrilátero.

19.9.05

O paradoxo dos afectos

Os leitores destes meus escritos, e alguns poucos haverá, julgarão encontrar aqui, em cada um, um sentimento de que gostem relativamente à geometria que detestaram. Se for assim, e assim talvez seja, terão descoberto por esta forma e neste lugar o paradoxo essencial dos afectos: o ter-se de encontrar o que amamos naquilo que detestamos.

18.9.05

Sem mudar a pena

E se eu escrevesse sobre a janela do abismo e a geometeria do ocaso? Na primeira sobre os suicidas da vida, os que vêem o mundo do alto e têm ânsias de profundidade? Na segunda sobre a contigência do espaço que acaba e a probabilidade do tempo que se vai, os que vivem a vida por baixo, soterrados de deveres. Tinha nisso pelo menos uma grande vantagem. Numa só penada arrumava dois blogs e numa só noite!

17.9.05

Lua

Para os que ainda assomem à janela e consigam olhar para o céu, hoje há uma lua convidativa, cheia, circular, concêntrica com o desejo, em trajecto angular à nossa noite.

16.9.05

A ânsia do fim

A ideia da geometria surge quando o homem projectou no espaço circundante o que, amarfanhado, lhe vinha atroando na cabeça. Revolvia ele imundo a terra, boi e humano agarrados a um arado, o acre do corpo suado misturando-se com a frescura dos campos esventrados. Cumpria-se, com o íntimo entardecer, mais um dia de labuta pelo pão. De súbito, eis a abóboda celeste envolvendo-o e como nela pregadas, as estrelas tacteantes. Anoitecera. Esgotado como animal de carga, o homem, vazio e sem vida, achou o incompreensível. Ante o infinito do firmamento, estendeu a linha recta da sua vida. Achara o primeiro conceito. Faltava-lhe o segundo, e ainda falta: o ponto final que ele não acha, e por isso teima em viver, na ânsia de o encontrar.

15.9.05

Raios e coriscos

Ensina a geometria que «radiano é a medida de um arco cujo comprimento é igual ao raio da circunferência». Ora como desde a escola primária se sabe, um arco é uma curva, o raio uma recta. Pensa o leigo motorizado, que as estradas às curvas são mais longas do que as vias em recta. Por causa disso, mete pela portagem, para chegar mais depressa. Claro que, geometricamente falando, se andar um radiano, anda o mesmo do que se andasse um raio. O que não há é raio de maneira de eu compreender isto e muito menos a esta hora! Por isso, até amanhã, que se faz tarde e eu ainda tenho muito que andar!

13.9.05

O ponto final

Um ponto fixo, estático. Dele nascem helicoidais, hipnóticas, em serpenteado movimento. Submerge-se para o interior. Os olhos fixos captam a ilusão: o que era algo, tornou-se em nada. O lugar por onde entramos é o vazio do que poderemos ser. Nasce, assim, a vida. Quando o ser submerge, evanescente, recomeçou, do lado de lá do espelho da realidade.