31.7.10

O salmo e a redenção

Talvez porque fomos educados no cinismo da dialética, não a grandiosa e monumental hegeliana, catedral escorada que é a celebração da sua própria legitimidade, edificação vaidosa de verdades que o são por si mesmas e pela sua aparência de coerência intrínseca, mas pela outra, a cínica, utilitária, a do relativismo histórico e da luta dos contrários, que se não anulam mas da mentira fazem verosimilhança, e dão fundamento à carnificina e da pessoa fazem indivíduo e deste cidadão, por isso dizia caímos nesta anemia mental em que qualquer rasca propaganda nos seduz, quaisquer causas precárias nos mobilizam e demos nisto amibas tele-espectadoras e de tablóides folheantes, no mais zapantes internautas de um cosmos mental vazio, clicantes ratos entre vivas e olás e gosto disto e cito que citaste o que foi citado.
Mas sucedeu que o meu incerto ser em reconstrução encontrou e eu li e sublinho e agora mastigo-o com dentes e o regurgito, um extraordinário livro que Maria Almira Soares escreveu sobre um menino que assinava Vergílio António de Oliveira Ferreira. E que foi depois um «moinho de ensinar», e como o Mário do Cântico Final serviu casas «de saber manufacturado, burocrático», e sofreu «ferozes meninos do liceu» e a «tocante suficiente dos colegas, sérios, correctos, cronometrados» e tudo e tudo por instantes de glória e hossana porque há o milagre da excepção. E escreveu admiravelmente.
E nesse livro, que me tem feito companhia desde ontem, eu li o salmo que é o da redenção de uma vida e uma profissão de fé na ressurreição diária pelo amanhecer: «Descobrir a contradição do que não é contraditório que é afinal a vida com a sua exactidão, é ter realizado o maior esforço de compreender. Mas realizá-lo é não ser homem é morrer. Por isso eu morro vivendo». 

19.7.10

O coleccionador de angústias

Regresso hoje aqui com o sentimento de surpresa. Li a esmo o que escrevi. Perguntei-me porque teria saído deste lugar, horto de reflexões. O título deste post fui buscá-lo a um livro de Fidelino Figueiredo. O livro começa e termina com Dom Quixote, o quixotismo forma de angústia mansa, de ilusão risonha em que a idiotice é ingénua sabedoria.
Este blog começou por fazer jus literal ao nome e tratou nos seus primórdios de geometria, problematizando o pensamento a partir daí, como a Ethica Ordine Geometrico Demonstrata do judeu português Baruch Spinoza. Depois caminhou para o território em que a geometria o é naquele sentido em que a palavra vem abismalmente mencionada no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Trata da filosofia portuguesa e de um modo filosófico de pensar Portugal.
Regressei hoje, o pensamento martirizado de reflexão. Talvez haja alguma sombra em que possa haver  inteligência sem racionalidade nesta silva de enganos em que há quem julgue que só há saber na epistemologia, verdade na ontologia.

10.5.09

O Futurismo e o futuro

Multiplicam-se aparentes coincidências. Tinha estado com o livro sobre ele há uns dias, folheando sem saber sobre o que escrever. Inspirou-me então e este post foi o resultado. Hoje levei para ler o número três da Nova Águia, que é dedicado a Agostinho da Silva. Comecei pelo fim e a gostar do que lia, talvez por ter sabido encontrar o meu canto de recolhimento numa catedral pingue de fiéis, como é este projecto. Foi então que o vi, coincidente, o breve artigo sobre um pintor que pouco pintou. Escreveu-o Cristina Pratas Cruzeiro, sobre Guilherme Santa-Rita. Lembra ela ali o «Futurismo, ideologicamente assente na teoria da selecção natural de Darwin» e há aqui em frente uma exposição sobre Darwin que esta noite foi revista na minha memória de a não ter visto. Os manifestos futuristas fizeram cem anos em 20 de Fevereiro. «Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo», escreveu Filippo Tommaso Marinetti.
Regressei agora a casa, para conferir a citação a seu respeito: «dispensava força nêurica a mais, em projectos maravilhosos,em concepções imprevistas, em imaginações faulhantes, para poder materializar o que projectava, o que concebia, o que imaginava (...)». Escreveu Carlos Parreira, em 1918 sobre aquele que «terá deixado muito mais acções futuristas que obras». Monocromático, cubista, bi-dimensional, A Cabeça, o seu momento de geometria abstraccionista.

20.4.09

O Dr. Pomadinha

Consegui um recanto de tempo para ler uma palestra que Pinharanda Gomes proferiu em 20 de Março de 2006 na Sociedade Histórica para a Independência de Portugal sobre o pensamento de Agostinho da Silva. Texto curto, juntam-se-lhe os de duas outras intervenções do ilustre natural de Quadrazais proferidas nesse mesmo ano sobre o filósofo «caminheiro, mendicante ou itinerante», como ele lhe chama com afectuoso humor. Editado pela Zéfiro.
«Em contra do signo sebastianista, Agostinho escolhia o signo henriquino, o espírito de acção contra a resignada paixão: da arca fez barca».
Aprende-se muito em pouco tempo. Às vezes são pormenores que fazem sorrir, suma lição num mundo tão façanhudo. Agostinho - qual Agostinho?, pergunta-se o palestrante - publicou um estudo chamado Elogio da Academia. Documentos Literários. Assinou-o «com três pseudónimos: Doutor Botocudo Júnior, João Cabrinha e Dr. José Pomadinha». Fantástico gozo, magnífico intervalo.

19.4.09

O acaso

Li isto: «Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências. Elas nunca são procuradas e, no entanto, aparecem-nos sem que estejamos à sua espera. São uma espécie de Pã, no meio do caminho, sobressaltando-nos o passo, agitando-nos a alma». É um texto de Cynthia Guimarães Taveira, publicado nos Cadernos de Filosofia Extravagante, aqui.
Esta manhã sucedeu isto: escrevi esta manhã um post sobre a Clarice Lispector. Minutos depois chega um alerta Google, de que alguém tinha escrito num blog que começara há bem pouco tempo um texto sobre a Clarice Lispector: aqui.
Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências! Efectivamente.

7.4.09

Quadros, Bruno, a identidade do eu

Não sei quando li António Quadros pela primeira vez, nem quando me atrevi a escrever sobre ele. Foi muito antes de a vida me ter marcado agora encontro consigo. Sei é que acabei de ler o que só há pouco tempo me ensinaram ser, afinal, o seu único romance: Uma Frescura de Asas, editado em 1990.
O livro, coitadinho dele, vem maltratado com gralhas, pois deve ter sido composto por um tipógrafo calino como eu e revisto por um catador pior ainda do que eu quando me armo em revisor.
É um «livro insólito», diz-se na contra-capa. É um livro simbólico diria eu.
Na aparência é uma biografia de José Pereira de Sampaio, que passou para a História como Sampaio Bruno, mas eu creio que é, em muito, uma biografia espiritual do próprio António Quadros.
Li-o em quatro fôlegos. A narrativa é a de um homem, João Pereira, que está no leito de um hospital onde acabará por morrer. Qual é o seu nome alcança-se em dois momentos. Que se chama João na página 20, que é João Pereira na página 89.
De que trata? De muitas coisas, todas as que têm valência nas entranhas de um homem em crise ante si próprio: de Deus e dos Anjos, dos homens e do demais.
A narrativa assume a forma de um diário, que vai entre 6 e 11 de Novembro de 1915. Foi na verdade nesse primeiro dia que o autor de O Brasil Mental foi operado pelos cirurgiões Júlio Frankini e Severiano José da Silva. Sofria, desde os poucos meses de idade de uma rotura na virilha direita, estado que se agravou, por descuido seu, quando sofreu de uma hidrocele, que o impedia de caminhar. Morreu pelas 19:00 do dia de São Martinho.
Descontado o muito que é semelhante na história, importaria descortinar o que marca a pouca diferença. Uma biografia de Quadros está por fazer. Penso que ele a iniciou biografando-se através desta biografia romanceada. «Eu não podia escrever a eu, porque o eu é o mesmo e não tem outro. Onde há unidade de substância não pode haver dupla consciência», deixou ele, como uma chave para o mistério desta sua estranha criação.
Um seu dedicado e tão esquecido nessa dedicação, Jesué Pinharanda Gomes, disse na Colóquio que ele escreveu sobre «todas as escalas do humano e do divino saberes»
Hoje nem Quadros nem Bruno existem. É pena que criaturas destas se vão. Sei que o fazem de um modo singular: «Fechei os olhos para não ver que me estavam a ver», escreveu o biógrafo romancista. É neste acto de timidez que se lhes resolve a agonia de morrerem.

30.3.09

Optimismo levitante

A dedicatória era singela, amiga: «quando folheares este livro lembra-te dos dois dias de grande camaradagem que passámos no Redondo, 14/8/56». Encontrei-a, mal arrumada, na estante de literatura de ficção portuguesa, a edição tirada em 1956 pela Livraria Tavares Martins do livro A Alegria, a Dor e a Graça de Leonardo Coimbra, a que o editor juntou o diálogo Do Amor e da Morte. Estava num alfarrabista em Coimbra, um primeiro andar de preciosidades. Obra revista e prefaciada por Sant'Anna Dionísio, comemorativa de vinte anos do desaparecimento do filósofo. De ambos aqui falei, ainda ontem precisamente, tudo a evidenciar que o acaso é uma preguiça do espírito para não se confrontar com o embaraço dos acontecimentos destinados. «Podeis dizer que os indivíduos permanecem, porque, se acendeis a luz, eles surgirão», escreve o magnífico autor de A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre. Uma escrita de um «optimismo levitante» lhe chamou o prefaciador. Necessária escrita, indispensável optimismo, chegado a Lisboa, ferroviariamente.

29.3.09

Começar de novo

«Pensamento madrugante», chamou Sant'Anna Dionísio à filosofia de Leonardo Coimbra. Apanhei a frase esta manhã ao folhear os estudos que o teólogo Ângelo Alves dedicou ao que chamou o «filósofo da liberdade e do amor infinito».
Diabolizado por tantos devido à sua conversão à fé católica, que manifestou em acto oficiado pelo excelso Padre Cruz, Leonardo chegou ao culminar desse encontro com a Graça depois de um torturado percurso espiritual. «Curiosamente, a primeira loja maçónica em que se filiou intitulava-se "Luz e Caridade"», escreve Ângelo Alves.
Terei já eu citado aqui a sua frase, pináculo de intranquilidade fazedora «qualquer dia dou por írrito e nulo tudo o que tenho feito e começo de novo»?. Talvez não. Um bom domingo. Em paz.

23.3.09

A arte de continuar português

Vem hoje à luz do dia a Fundação António Quadros, apresentada no Círculo Eça de Queirós. Vingando, dará corpo a que não se perca o pensamento de um homem que disse um dia: «Quero ser um princípio e não um fim. que, depois de mim, as tempestades sejam outras e as lágrimas mais leves!». Se há momentos de uma filosofia que marcam um destino, o que ele escreveu sobre o mal do positivismo traçou-me a rota mental. Pela sistemática organizadora, pela originalidade criativa, pela pedagogia exemplar, pela ousadia cívica, pelo amor patriótico, pela íntrínseca bondade humana, tornou-se um símbolo e, sem que o sonhasse, a explicação de um mistério que o continuaria. Num tempo novo em que frutifica, a Filosofia Portuguesa ganha outra força e vigor.

21.2.09

O medo

A alegria no coração gera a tranquilidade no intelecto. É a angústia do não saber o cognoscível que fomenta o querer saber. «O medo, diz o Zohar, é o princípio do conhecimento. Quem está aí que tema Deus?». Colho a frase num novo blog, criado, a partir de Mértola, por Abdel Hayy. Chama-se O Lugar da Alma.

18.2.09

O mundo de Deus

Publicou onze números, entre 1957 e 1962. Graças à Hemeroteca podem ser lidos todos, facsimilados, aqui. A revista 57, folha independente de cultura, teve António Quadros como seu director. Vi a menção aqui no blog Cadernos da Filosofia Extravagante, que, amável, cita este nosso descuidado espaço e em cujo texto de apresentação vejo a magnífica frase: «Algum dia o mundo de Deus há-de ser dos pobres e dos vagabundos». Acredito no acaso porque ele não é.

18.12.08

O corpo espiritualizado

Quem ler o estudo que Dalila Lello Pereira da Costa publicou em 1970 sobre o êxtase antecipa o que condensou em 1981 no livro Os Jardins da Alvorada. Está lá tudo, essa indiferenciação do arroubo anímico e do espasmo carnal, o fremente de luz e de silêncio, a possessão, o instante imóvel e depois a infinita paz da reconciliação com o outro através de si, o encontro místico com Deus, o amor de conhecimento entre os humanos.
Eis o que em Julho de 1973 está escrito neste magnífico texto a que chamou A União em Corpo de Glória (ou a comunhão dos santos): «(...) de súbito, sem te fazeres anunciar ou ver, depuseste teu beijo no lóbulo da minha fronte direita, prolongado, inifinito. Depois, na palma da tua mão direita erguida ao alto, pousei e uni a minha. Para segundo contacto, passagem. E ao alto da tua cabeça pousei a outra mão. Em três pontos, em círculo fechado de vibração amor que se sentia e corria sem fim, sobre si, para sempre e sempre gozado. Mudo e sereníssimo. Que outro corpo então conhecido? Em que vida então colhida? Em que animação dela, nele, nunca conhecida? Estreme. Línguas de fogo mil, nele vertidas e circulantes. Pentecostes, céu vertido na terra, esta nossa de agora».
De livro em livro, de memória fui consultar uma lembrança. A Subida do Monte Carmelo de São João da Cruz, de que tenho um exemplar impresso pelo Carmelo de São José em 1947, vê o seu inflamado texto antecedido de um verso que fica como um acto majestoso de esplendorosa ambição da luz pela sacrificial renúncia às trevas: «para vir a gostar tudo, não queiras ter gosto em nada». Inicia-se assim, em ascensão e ascese, a purificação activa dos sentidos e do espírito, o fim da noite escura.

4.12.08

O espírito transformador

Narcísico, falando do Alter para assim falar do Ego, Alfredo Pimenta proferiu, no dia seis de Maio de mil novecentos e trinta e cinco, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, uma lição notável. Chamou-lhe «Auto-biografia filosófica». Referiu-a como sendo a do seu amigo Francisco de Lucena. Mas era, afinal, sob este artifício literário a narrativa, em prosa esmerada, do seu próprio pensamento.
Espírito inquieto, este «enamorado da Beleza» e «esfomeado da Verdade», como o surpreendeu Henrique Barrilaro Ruas, vogou tempestuoso pelas «Sete Partidas do Mundo do Pensamento», para arribar ao porto tranquilo da Abstenção Filosófica, vindo do mar do cepticismo.
A separata em que o li, magra de trinta e quatro páginas, encontrei-a no espólio que doou à Fundação Calouste Gulbenkian.
Falando para jovens, deixou num momento luminoso dessas «considerações superficialmente amenas», a mostra da sua vincada lucidez. Citando Séneca, recusou grandeza ao efémero, ao precário, ao imperceptível passageiro tempo presente.
Basta a infinitude do futuro e pensar quanto o tempo circular corre perseguindo o seu próprio passado, para se saber, e por isso acreditar, que o flagrante instantâneo do tal tempo presente é apenas a ilusão do encurtamento da distância, Eis o que torna a nossos olhos o menor em maior, o que já foi no que ainda parece ser.
Só por esta centelha de verdade valeu a pena interromper a tarde chuvosa de um quotidiano no mais enganado.

22.11.08

Uma tragédia subjectiva

A minha geração vive a recta final da sua existência. Fomos nós aqueles para quem a vida foi matéria, o pensamento razão, o sentimento sensação, o real o cognoscível, o tempo um intervalo certo na dimensão do espaço. Fomos nós quem, por causa do naturalismo empurrámos tanto saber para a sociologia, por causa do positivismo tanto do anímico para a psicanálise, fomos nós quem sacámos do pragamtismo a amoralidade, do sensualismo fabricámos a forma hedonista de viver e inventámos a sociologia e a psicologia e todas as formas de nivelamento e catalogação do diferente e do surpreendente, reconduzindo o original ao curro da taxonomia, plantando a árvores dos conceitos onde estava o jardim dos enunciados.
A minha geração herdou os monstros da razão, filhos incestuosos da dialética perversa e seu relativismo ontológico e do aviltamento concentracionário do humanismo e fez deles formas mansas de governo e de domínio: fomos nós quem idolatrou o Estado que devora os seus filhos, cidadãos seus contribuintes, quem do egoísmo e do individualismo fez o dissolvente veneno do consumismo, que inutiliza a produção e abastarda o valor, gerando o lixo e o excesso, hipotecando o ser à usura do ter.
Foi no nosso tempo que o homem chegou à lua perdendo o mito lunar e se exilou nas estrelas alucinogénicas por ter tornado dejecta a terra que o viu nascer, transmutando o ouro do amor salvífico no ferro da guerra assassina.
Um outro mundo, porém, uma Atlântida florida, foi cultivada em discreto silêncio pelos poucos excelsos que souberam resistir ao nivelamento vil de tantos outros ninguém. Revelada pelos símbolos, astrolábios do saber esconso, encontra-se no labirinto da Criação pela fé gnóstica na necessidade de navegar. Nela o tempo gira em sentido retrógrado, a areia do seu relógio mal oculta as inscrições arquetípicas na lápida da Tradição.
Terra de mitos, de lendas e de cantares, em que o saber se alcança pela adivinhação, povoada de habitantes cuja inteligência sente e em que o coração pensa, nela morre a matemática do contável, por surgir, radiante, a poética do cantável.
Pensei hoje em tudo isso, porque o pensamento é real pluralidade do fragmentário e não a aparente unidade do sistemático.
Pensei nisso, nas doze estações da inteligência, porque, rendido ao sono, senti a proximidade daquele mundo «em que tudo é símbolo e analogia», em que «uma coisa nem parecida com a existência (vem) ocupar não o espaço, mas o modo como eu pensava o visível».
Viajei, com o Fausto, Uma tragédia subjectiva, do Fernando Pessoa. Quem descobrir a Verdade não pode sequer dizê-la nem tão pouco pensá-la. Ela é o indizível, o infinito para além do que ainda não começou. Regressei agora para vir escrever este silêncio.