É Jesué Pinharanda Gomes, em 1963, nas primícias, com 24 anos de idade. Anunciara-se já três anos antes com o ensaio, publicado pela Guimarães, intitulado Romance e Romance Católico. É é claramente este o tom confessional deste breve escrito de 84 páginas, redigido em estilo dialogal e cuja epígrafe, ao ter uma dedicatória, «a quem morreu como viveu», anuncia ser a dialética imanente de uma lógica segundo a qual «os que vivem para morrer vivem eternamente».
E não se veja nisto expressão de derrotismo, antes a afirmação de um credo vindo de quem afirma: «fazendo a vida, prepara a morte, porque a auréola acompanhante da morte há-de ser, na memória dos homens, as suas acções e as suas palavras». Di-lo melhor logo no texto prefacial: «Vive melhor quem encara a morte, porque sabe viver».
Aplicando-se ao próprio autor, falecido a 27 de Julho de 2019, o princípio ganha acuidade, tal a extensão da sua obra escrita e a extensão do seu magistério. Dele fui comprando quantos livros consegui, sendo já uma extensa prateleira.
Li minuciosamente o opúsculo, como estou a fazê-lo agora com o que leio, estudando-o, sublinhando-o a lápis.
Nele estão em confronto três pessoas: primeiro, o que se submeteu a César e à ordem estabelecida e assim à «lei política», e, por nunca ter entrado num tribunal, «pode chamar-se santo político» mas nunca lhe foi feita justiça «porque a política nunca canonizou santos políticos»; o segundo, alheou-se da política, várias vezes esteve em tribunal acusado de subversão política, tudo fazendo pelo amor a Deus, morrendo em glória, não muito chorado, mas em odor de Santidade «comunicativo em outros que lhe tomaram o lugar»; enfim, o terceiro, não obediente a César ou a Deus, «morreu dependurado de uma corda, e o seu acto regozijou a muitos, inspirou piedade a alguns».
É neste contexto que se dá o manso diálogo entre os circunstantes, de imediato sob o lema «nascer é aparecer para morrer».
Talvez o leitor, a existir algum, na dificuldade de encontrar hoje este breve estudo, exigisse que aqui ficasse algum apontamento, não direi que o resumisse, mas, ao menos, dele desse pistas que motivassem a procura, bem como das suas referências intelectuais: Pascal, Kierkgaard, Unamuno, Gabriel Marcel.
Na impossibilidade, ficam apenas três notas: a do seu distanciamento face a um existencialismo materialista de Jean-Paul Sartre, a visão crítica do Positivismo comteano que Teófilo Braga encarnou, e uma prevenção quanto ao envolvimento dos católicos em opções políticas, sobretudo as que antagonizam a sua religião.
Alma generosa e cândida, que tive o privilégio de conhecer e entrevistar, este filho de Quadrazais, a quem, desde 2012 o município do Sabugal dedicou um Centro de Estudos, confia, sem excepção, na inocência humana e na redenção do mal pela educação e pelo exemplo.
Ante o criminoso, proclama: «procuremo-lo, vamos dizer-lhe que fez mal, que Deus lhe perdoa, que não faça mais! Vamos educá-lo ao ar livre, à boca cheia, torná-lo útil! Roubemo-lo às alfurjas das prisões, dos vexames, das humilhações! Um homem é um homem!».
Dir-se-á que é irrealismo. Mas sê-lo-á ante a generalização, já não face ao valor subjacente ao princípio, que é expressão de Caridade, essa irmã da Piedade que deveria estar nos corações onde se esperaria encontrá-las.

