10.5.26

Pinharanda Gomes: exercício de quem viveu


É Jesué Pinharanda Gomes, em 1963, nas primícias, com 24 anos de idade. Anunciara-se já três anos antes com o ensaio, publicado pela Guimarães, intitulado Romance e Romance Católico. É é claramente este o tom confessional deste breve escrito de 84 páginas, redigido em estilo dialogal e cuja epígrafe, ao ter uma dedicatória, «a quem morreu como viveu», anuncia ser a dialética imanente de uma lógica segundo a qual «os que vivem para morrer vivem eternamente».

E não se veja nisto expressão de derrotismo, antes a afirmação de um credo vindo de quem afirma: «fazendo a vida, prepara a morte, porque a auréola acompanhante da morte há-de ser, na memória dos homens, as suas acções e as suas palavras». Di-lo melhor logo no texto prefacial: «Vive melhor quem encara a morte, porque sabe viver».

Aplicando-se ao próprio autor, falecido a 27 de Julho de 2019, o princípio ganha acuidade, tal a extensão da sua obra escrita e a extensão do seu magistério. Dele fui comprando quantos livros consegui, sendo já uma extensa prateleira.

Li minuciosamente o opúsculo, como estou a fazê-lo agora com o que leio, estudando-o, sublinhando-o a lápis.

Nele estão em confronto três pessoas: primeiro, o que se submeteu a César e à ordem estabelecida e assim à «lei política», e, por nunca ter entrado num tribunal, «pode chamar-se santo político» mas nunca lhe foi feita justiça «porque a política nunca canonizou santos políticos»; o segundo, alheou-se da política, várias vezes esteve em tribunal acusado de subversão política, tudo fazendo pelo amor a Deus, morrendo em glória, não muito chorado, mas em odor de Santidade «comunicativo em outros que lhe tomaram o lugar»; enfim, o terceiro, não obediente a César ou a Deus, «morreu dependurado de uma corda, e o seu acto regozijou a muitos, inspirou piedade a alguns».

É neste contexto que se dá o manso diálogo entre os circunstantes, de imediato sob o lema «nascer é aparecer para morrer».

Talvez o leitor, a existir algum, na dificuldade de encontrar hoje este breve estudo, exigisse que aqui ficasse algum apontamento, não direi que o resumisse, mas, ao menos, dele desse pistas que motivassem a procura, bem como das suas referências intelectuais: Pascal, Kierkgaard, Unamuno, Gabriel Marcel. 

Na impossibilidade, ficam apenas três notas: a do seu distanciamento face a um existencialismo materialista de Jean-Paul Sartre, a visão crítica do Positivismo comteano que Teófilo Braga encarnou, e uma prevenção quanto ao envolvimento dos católicos em opções políticas, sobretudo as que antagonizam a sua religião.

Alma generosa e cândida, que tive o privilégio de conhecer e entrevistar, este filho de Quadrazais, a quem, desde 2012 o município do Sabugal dedicou um Centro de Estudos, confia, sem excepção, na inocência humana e na redenção do mal pela educação e pelo exemplo. 

Ante o criminoso, proclama: «procuremo-lo, vamos dizer-lhe que fez mal, que Deus lhe perdoa, que não faça mais! Vamos educá-lo ao ar livre, à boca cheia, torná-lo útil! Roubemo-lo às alfurjas das prisões, dos vexames, das humilhações! Um homem é um homem!». 

Dir-se-á que é irrealismo. Mas sê-lo-á ante a generalização, já não face ao valor subjacente ao princípio, que é expressão de Caridade, essa irmã da Piedade que deveria estar nos corações onde se esperaria encontrá-las. 


A conversão de Leonardo Coimbra

 


Só situa a conversão ao catolicismo do filósofo Leonardo Coimbra na inesperada recta final da sua vida, quem não tiver atentado no que foi escrevendo e na próprio programa da Renascença Portuguesa, de que foi fundador.

Num minúsculo livro, encontrado ontem no Porto, na Feira do Livro Antigo, encontrei disso mesmo mais uma evidência. Datado pelo autor com a anotação na última página «Sábado de Aleluia de 1923», o opúsculo estava bem longínquo do fatídico dia 2 de Janeiro de 1936 em que um acidente de automóvel o vitimou.