17.5.26

Afonso Botelho: a aristocracia do Espírito

 



Publiquei no último número do jornal As Artes entre as Letras, quinzenário cultural que, desde 2009, se edita no Porto, esta crónica sobre Afonso Botelho. Depois de a ter enviado, chegaram mais livros deste invulgar autor, pelo que o meu estudo sobre a sua obra prossegue, no intervalo do tempo possível.

«Leio, melhor, estudo, Afonso Botelho, a obra e através dela a pessoa. Devo a António Braz Teixeira o impulso, ao ter-me concedido a oportunidade de intervir numa tertúlia comemorativa dos Reis. Iniciei aí, tardiamente, a ainda incipiente aprendizagem.

O meu vizinho aqui no Artes, Paulo Ferreira da Cunha, com o seu saber enciclopédico, já tinha descortinado na sua obra reflexos do mundo jurídico, em escrito onde menos se esperaria encontrar disso reflexo, a Teoria do Amor e da Morte, que a Fundação Lusíada, iniciativa generosa de Abel Lacerda Botelho, editou em 1996, escassos meses antes da sua morte, com 47 anos de idade.

Animado por essa sua pista, encontrei isso mesmo, mas agora com desenvolvimento, num enredo ficcional, muito de sinal autobiográfico, coevo daquele denso estudo, intitulado As Donas Chamam, Memórias de um Adolescente, que veio à estampa em Maio de 2005, pela Imprensa Nacional- Casa da Moeda. Aí, no relato Da Ingenuidade à Inocência, irrompe a constatação: «Com efeito, perante os nossos olhos permissivos, vai-se erigindo um direito natural, tão voluntarista como o direito positivo e com a mesma origem e legitimidade de uma qualquer postura académica». E continua: «Os jusnaturalistas, que outrora recorriam à ideia de criação para conceber os princípios das leis, capitulam face à objectividade dos valores emanados da votação […]».

E, recuando no tempo, é de cunho moral, mas levando-nos por igual ao fundamento do comportamento justo e da acção devida, a análise que dedica à obra de D. Duarte, concretamente o ensaio Andar dereito, vindo a lume, em Setembro de 1951 na Revista Portuguesa de Filosofia.

Mas não seja esse, o mundo do Direito, o propósito desta crónica, nem é também seu pretexto o folheto, publicado em 1949, em edição de autor, denominado Páginas Inoportunas, no qual compila algumas reflexões sobre o Integralismo Lusitano, por onde agora me tenho detido, e ali especificamente sobre o pensamento de Pequito Rebelo, congruente, aliás, com a sua filiação monárquica. Jesué Pinharanda Gomes, a cujo esforçado labor tanto deve a Filosofia Portuguesa, deixou, no número temático da revista Nova Águia, de que Renato Epifânio é Director, uma nota pessoal a rememorar quando, «imigrado da Guarda para Lisboa» convivera, nos distantes anos de 1960-1961, «por mero acaso, na sede da Causa Monárquica», na Praça Luís de Camões em Lisboa, onde Afonso Botelho e Henrique Barrilaro Ruas, para além de outros, animava um Círculo de Estudos. Quem queira, aliás, detalhar essa faceta política legitimista deste «aristocrata perdido numa sociedade igualitária», tem ao dispor o detalhado estudo de Gonçalo Sampaio e Mello, capítulo integrante da vasta colectânea Vultos e Perfis, editada em 2019 pela Bookbuilders, o qual reitera o que já tinha feito constar da obra colectiva O Pensamento e a Obra de Afonso Botelho, que a já citada Fundação Lusíada publicara em 2005.

Tentando seguir o fio condutor de um pensamento em formação, e eis o método que estou a seguir, dediquei-me, com mais atenção, à sua obra ficcional, nomeadamente os dois tomos publicados pela Sociedade de Expansão Cultural, respectivamente em 1958 e no ano seguinte, sob os títulos Intriga e Meia Hora de Espera, ambos com capa desenhada pelo seu irmão, o pintor António Botelho.

É, no âmbito desta narrativa imaginativa, mas com apontamentos memorialistas, que já emerge, ainda que não densificado, um outro segmento do seu substrato filosófico, não o que viria a verter no ensaio Elementos para o Estudo da Renúncia Cristã, dado à estampa em 2019, de novo pela Fundação Lusíada, ou na anterior colectânea, que o Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, divulgara em 1990, sob a denominação Saudade, Regresso à Origem, editado em 1997, mas, sim, o de uma aguda consciência social crítica.

Diversa é a perspectiva do seu teatro, nomeadamente na peça O Hábito de Morrer, levada a palco, com encenação de Varela Cid em 1963/1964, na qual, como verificou Miguel Real, em artigo feito constar daquele número citado da Nova Águia, «antecipa em mais de duas décadas os seus três grandes temas filosóficos: a Saudade, o Amor e a Morte», através de um “teatro sério”, «nacional e nacionalista, um teatro não sociológico, não vocacionado para problemática de carácter político e social, mas sim, tematizador de categorias transcendentes de natureza religiosa, metafísica, existencial ou filosófica». E suponho apenas, por não conhecer, que se reclame de idêntico perfil, a sua filmografia.

A tudo isto voltarei, assentes que estejam as ideias, para que fique mais do que este breve apontamento. Aguardo, aliás, a chegada de mais livros seus, vindo da Fundação António Quadros, seu íntimo amigo e luto por tempo, ainda que nocturno, para ler o que é exigível que leia».

10.5.26

Pinharanda Gomes: exercício de quem viveu


É Jesué Pinharanda Gomes, em 1963, nas primícias, com 24 anos de idade. Anunciara-se já três anos antes com o ensaio, publicado pela Guimarães, intitulado Romance e Romance Católico. É é claramente este o tom confessional deste breve escrito de 84 páginas, redigido em estilo dialogal e cuja epígrafe, ao ter uma dedicatória, «a quem morreu como viveu», anuncia ser a dialética imanente de uma lógica segundo a qual «os que vivem para morrer vivem eternamente».

E não se veja nisto expressão de derrotismo, antes a afirmação de um credo vindo de quem afirma: «fazendo a vida, prepara a morte, porque a auréola acompanhante da morte há-de ser, na memória dos homens, as suas acções e as suas palavras». Di-lo melhor logo no texto prefacial: «Vive melhor quem encara a morte, porque sabe viver».

Aplicando-se ao próprio autor, falecido a 27 de Julho de 2019, o princípio ganha acuidade, tal a extensão da sua obra escrita e a extensão do seu magistério. Dele fui comprando quantos livros consegui, sendo já uma extensa prateleira.

Li minuciosamente o opúsculo, como estou a fazê-lo agora com o que leio, estudando-o, sublinhando-o a lápis.

Nele estão em confronto três pessoas: primeiro, o que se submeteu a César e à ordem estabelecida e assim à «lei política», e, por nunca ter entrado num tribunal, «pode chamar-se santo político» mas nunca lhe foi feita justiça «porque a política nunca canonizou santos políticos»; o segundo, alheou-se da política, várias vezes esteve em tribunal acusado de subversão política, tudo fazendo pelo amor a Deus, morrendo em glória, não muito chorado, mas em odor de Santidade «comunicativo em outros que lhe tomaram o lugar»; enfim, o terceiro, não obediente a César ou a Deus, «morreu dependurado de uma corda, e o seu acto regozijou a muitos, inspirou piedade a alguns».

É neste contexto que se dá o manso diálogo entre os circunstantes, de imediato sob o lema «nascer é aparecer para morrer».

Talvez o leitor, a existir algum, na dificuldade de encontrar hoje este breve estudo, exigisse que aqui ficasse algum apontamento, não direi que o resumisse, mas, ao menos, dele desse pistas que motivassem a procura, bem como das suas referências intelectuais: Pascal, Kierkgaard, Unamuno, Gabriel Marcel. 

Na impossibilidade, ficam apenas três notas: a do seu distanciamento face a um existencialismo materialista de Jean-Paul Sartre, a visão crítica do Positivismo comteano que Teófilo Braga encarnou, e uma prevenção quanto ao envolvimento dos católicos em opções políticas, sobretudo as que antagonizam a sua religião.

Alma generosa e cândida, que tive o privilégio de conhecer e entrevistar, este filho de Quadrazais, a quem, desde 2012 o município do Sabugal dedicou um Centro de Estudos, confia, sem excepção, na inocência humana e na redenção do mal pela educação e pelo exemplo. 

Ante o criminoso, proclama: «procuremo-lo, vamos dizer-lhe que fez mal, que Deus lhe perdoa, que não faça mais! Vamos educá-lo ao ar livre, à boca cheia, torná-lo útil! Roubemo-lo às alfurjas das prisões, dos vexames, das humilhações! Um homem é um homem!». 

Dir-se-á que é irrealismo. Mas sê-lo-á ante a generalização, já não face ao valor subjacente ao princípio, que é expressão de Caridade, essa irmã da Piedade que deveria estar nos corações onde se esperaria encontrá-las. 


A conversão de Leonardo Coimbra

 


Só situa a conversão ao catolicismo do filósofo Leonardo Coimbra na inesperada recta final da sua vida, quem não tiver atentado no que foi escrevendo e na próprio programa da Renascença Portuguesa, de que foi fundador.

Num minúsculo livro, encontrado ontem no Porto, na Feira do Livro Antigo, encontrei disso mesmo mais uma evidência. Datado pelo autor com a anotação na última página «Sábado de Aleluia de 1923», o opúsculo estava bem longínquo do fatídico dia 2 de Janeiro de 1936 em que um acidente de automóvel o vitimou.