Interessante assistir, em relação a um autor que se consagra, ao que foram os primeiros passos da sua iniciação.
António Quadros não se firmou no domínio da ficção, sim no do ensaio filosófico, entre a difusão de ideias próprias e a sistematização do pensamento dos que integram o cânone da filosofia portuguesa.
Há dele ainda inéditos, nomeadamente um escrito já na fase terminal da vida, na sequência de Uma Frescura de Asas. Este cuja leitura alcancei é a sua estreia.
Ao terminar o livro, editado em 1960 pela Portugália - e que conheceu uma segunda edição em 1973 - que se corporiza em oito contos, fica a ideia de que algo já está a sedimentar-se no seu pensamento, algo que viria a entroncar-se na escola de que Leonardo Coimbra e Álvaro Ribeiro seriam os pais fundadores, algo que tem na poesia de pessoa o seu referencial esotérico. Há, no entanto, nesta obra uma expressão ainda balbuciante, mais ao nível dos apontamentos da narrativa menos ainda na linha condutora e na estruturação da história narrada. Há, além disso, uma lírica subjacente, que a dedicatória «à Mulher Eterna» simboliza, como simbólica são as dedicatórias a Mircea Eliade - «o Mitólogo, que do claro-escuro nocturno do seu pequeno jardim de Cascais levou a minha infância à visão do maravilhoso possível», e a Salvador Dali que reencontrou «sério, ardente e espectacular».
Não significa isto que não haja no insólito de alguns dos contos algo em que o paradoxal tem de encontrar uma explicação que o interprete para além do lúdico e nos faça caminhar para o substrato filosófico das ocorrências.
Em Marta, por exemplo, a quem Ricardo, todo esperança por «um amor perplexo», oferece um «vestido cor de terra», e logo uma «oferta solene e iniciática», só a entregar-se-lhe quando ele deixou de recear os outros, a amar como se estivessem sós no mundo, a irromper, impelida pelo «chamamento da natureza», enfim «branca e nua», há algum apontamento de mais do que uma infidelidade surpreendida, sim um clímax por merecimento, ido o mistério. Só que a escrita desequilibra-se quando a contemporaneidade irrompe, atrevo-me a pensar desnecessariamente, com as menções aos momentos sociais de convivialidade dançante. E a leitura deixa uma sensação de algo irrealizado.
Em Margarida, há, como caso contado, o espectro difuso de uma vaga doença mental a levar ao isolamento, silencioso e apático, a itinerância sucessiva por casas que rejeita, todas tidas como casas sem alma, e no final, o leitor pressente o acto tresloucado que vitima o próprio filho. Há, porém, como interjeição, o excerto revelador, estranho, excêntrico, vindo da sua boca, a anteceder uma promessa que não se cumprirá: «Já temos o fogo, o fogo que purifica todas as coisas, o fogo divino e criador, o fogo que é a fonte. Já temos a árvores que é natureza erguendo-se para o céu, que é escada por onde a nossa alma poderá subir para contemplar tudo quando é eterno e divino».
Ao leitor, o encontrar, da sequência...
