11.6.14

O ponto abissal e agónico


A ideia de crise está presente no vocabulário do quotidiano, nas notícias, no subconsciente de cada pessoa. Chegou mais evidente às economias individuais e aos orçamentos domésticos por efeito do péssimo momento do sistema financeiro, em ameaça de “crash” com todo o cortejo de lembranças por loucos anos vinte.
Mas ela é omnímoda, generalizada. Fala-se na crise da instituição familiar, na crise do sistema educativo, na crise de valores, na crise da justiça, da autoridade, de crise da língua ante o novo Acordo Ortográfico.
Ante um tal panorama é de admitir que estamos a assistir a uma decadência de civilização, mais do que à agonia de um sistema de organização social.
Outros, biblicamente apocalípticos, vaticiam o fim dos tempos, o surgimento da Besta 666, a crise da própria existência.
Um destes dias uma daquelas revistas coloridas que têm muitas páginas de praticamente coisa pouca a propósito de tudo o mais, titulava na capa “2012 o ano do fim do Mundo”. Estamos lá quase, aproveitem para a orgia final com a vida os que ainda não morreram por dentro, ainda que já aparentemente mortos por fora. Mas os media simplificam o verosímil e o leitor toma o plausível não como possível mas como certo.
E a crise ganhou assim contornos necrológicos.
No meio deste despautério verbal, em que a realidade denotativa – o território da substância que os conceitos exprimem e as definições enunciam – é incrementada pela quase ficcional realidade conotativa – esse mundo extenso dos “a propósito” – e em que os mundos periféricos das falsas analogias são chamados a aumentar o mundo nuclear das ontologias conhecidas, assim como os aterros criaram a Holanda, é caso para dizer que em matéria de crise o panorama é, de facto, crítico.
Chegados a este ponto abissal e agónico que poderei eu dizer que ainda valha a pena ser dito?
Convencer-me, em primeiro lugar, problematizando o problema, e ante alguma supresa talvez, que a crise não é uma questão problemática, sim a solução. A desagregação dos sistemas é a forma pela qual a sua entropia gera novas formas adaptativas de organização, a crise é o momento em que a síntese se atingirá pela dialéctica da antítese.
É assim, num exemplo macroscópico, com os sistemas galácticos que explodiram no cosmos, os sóis que se apagaram gerando universos gelados, de que nos chegarão partículas milhões de anos depois. Foi graças a isso tudo que a Terra surgiu e nós com ela.
É assim com o mosaico europeu que trouxe e levou o Império Austro-Húngaro, a Prússia e o Reino de Leão, a cidade de Cartago e o Reich dos Mil Anos, o Império Romano e Terra do Preste João, as Repúblicas, Ducados e Principados do que hoje é a Itália do novo Calígula, um mundo de fantasia e de precariedade.
É assim com as patologias do espírito quando a loucura vem a gerar novos patamares de lucidez incompreensível, cujo solilóquio só o seu falante autor entende, ou as bizarrias equizofrénicas da escrita em implosão verbal, sem pontuação e sem nexo, levando à glória o inenarrável e o irrepetível e gerando assim Literatura e a sua contemporaneidade.
É assim quando a Natureza, num espirro de constipação telúrica, ocupa o espaço a que tem direito, levando pela frente, em lava ou aluvião lamacento, tudo o que de humano se construiu, mundo precário, afinal raquítico, em suma liliputiano.
É sempre “em forma de assim” que a crise de tudo gera o nada, de onde o todo surge.
O futuro é, desta forma, apenas uma forma de encontro da desagregação do passado, o ponto provável do seu novo equilíbrio.
Se Deus existir e tiver sobrevivido a Nietzsche, ele não é o ponto inicial do qual tudo emerge, sim o ponto final para o qual tudo converge, espécie de buraco negro no qual a existência se afunda, em remoinho, para se reorganizar, como em cadinho alquímico, vida morta gerando vida, o ser primordial a ser semente e rosa e fruto da criação.
Mas mais do que aquele optimista convencimento se trata. A haver crise, ela é, antes de qualquer outra, uma crise existencial, antroplógica, inerente mais à pessoa do que ao indíviduo, mais densa do que a do cidadão.
Vejamos, em retrogressão mental, este mundo. Crise de cidadãos, primeiro.
A crise da cidadania revela-se, em primeiro registo, no baixíssimo nível de participação na vida cívica: não é só a escassa millitância em causas públicas, é mesmo a cada vez mais alta, e progressivamente mais esmagadora, taxa de abstenção nos cada vez mais passivos actos eleitorais, em que a Nação é convidada a referendar as escolhas das cúpulas partidárias, a que não tem acesso, e a quem se hipotecou, progressivamente menos confiante.
Há hoje, sob a República, democracia formal mas não há movimento democrático. Os partidos de Governo escolhem os seus deputados. A democracia esgota-se no acto de voto, como o poder do dono no acto de emitir a irrevogável procuração. Ao sufragar, o eleitor aliena vida, suicida-se civilmente. A urna eleitoral é o esquife da sua morte cívica. O dia de eleições é o do cortejo da preguiça. A partir dali o governo da cidade passa a ser coisa dos empregados do poder. A venda do voto é o primeiro acto de corrupção.
Mas não só: a ideia da evasão fiscal como acto de legítima defesa cidadã face a um Estado predador e depreciador é outro sintoma característico do ocaso do civismo, tal como o progressivo divórcio entre o corpo eleitoral e a classe representativa que ele elege. No primeiro caso, sente-se o Governo como uma alteridade, o terceiro pagador e pai de todos os possíveis subsídios, no segundo sente-se o poder político como o fruto de uma escolha libertadora, primeiro, e de um desprezo catártico logo no dia seguinte a ser escolhido.
Não é o Estado supra-colectivo, é o Estado infra-individual aquele que construímos. Desprezamo-lo, ao Estado, como a inimigos, consideramos os que para ele elegemos como gente de segunda, só porque sim. Faz parte da cultura de quem votou pelo poder estar na oposição, como higiene e como caução para o futuro.
Bloqueado o sistema pela sua própria natureza hipócrita, nele a falta de expressão política por participação cívica substitui-se pelas manifestações de rua, como tentativa de indignada pressão colectiva.
Assim como a cólera é a raiva dos fracos, muitos dos que se revoltam fazem-no apenas porque incapazes para a revolução. A agitação simula a mudança.
A patologia da democracia representativa é a a alucinação epilética dos seus actores que faz dos espasmódicos tumultos de rua sintoma de doença através da ilusão da cura.
Limitada a democracia pelo sistema partidário, aprisionado o sistema partidário pela cacicagem que o domina, aquela acaba por ser, não apenas a expressão do indiferenciado maior número mas sobretudo a ratificação, sem alternativa, do sentir da imensa minoria que, em esquema rotativo, forma o bloco central de interesses que domina o Estado e assim governa a Nação, dela se aproveitando.
Trata-se, no que à imediata crise de hoje respeita, de uma crise financeira, derivada da hipertrofia do mercado especulativo de capitais sobre o aparelho de produção dos países.
Crise do capitalismo, diga-mo-la, inerente ao seu modo de produção, tem o seu epicentro nas contas públicas e no sistema bancário – como cerne que são da capitalização – e só tem, na lógica monetarista do sistema que nos governa, uma única solução, a da sobrecarga tributária sobre as forças produtivas mais indefesas, tendo em vista a colecta forçada e expropriadora para o reabastecimento do mercado com os meios de liquidez de que carece para a sua sobrevivência e que se vai buscar ao aforro privado ou quando ele já não há, ao exército de reserva do desemprego forçado.
Crise de cidadania, a presente é também a crise do indivíduo, a qual se gerou com a desagregação das relações sociais.
À imagem de marca do individualismo burguês sucede na contemporaneidade a do individualismo pan-proletário, o generalizado individualismo.
À sociedade de massas sucede a atomização social. A passividade consumista, o amorfismo intelectual, a anomia moral, a atrofia do gregarismo, são hoje as características da pulverização social em que se caíu.
Molecularizada, a sociedade torna-se mero somatório estatístico, em que à personalização segue a numeração. Cada um é o número fiscal, o do BI, o código do cartão bancário, o da password sem o qual o mundo cibernético se torna promíscuo, inseguro e devassado. É pelo simples número que o mundo da informação sabe quem sou, o complexo eu.
Realidade digitalizada, tudo se decide hoje na base do inquérito e da sondagem, à diversidade do ponto de vista corresponde a padronização da resposta-típica.
A opinião tornou-se a resposta a um questionário em quadradinhos.
Certa matemática ocupou o lugar da poética e da música, e na matemática não passamos da aritmética, sociedade de adição, de subtração, de multiplicação, de alguma divisão. Tudo passou a ser mensurável, por isso tudo passou a ser contável, pior, comparável. Num mundo de fracções a ânsia tornou-se encontrar o menor denominador comum. O abaixamento do nível médio é a perversa consequência do desejo da redução do múltiplo ao uno.
As redes sociais, essas aparência de comunidade e de aldeia global revisitadas, são hoje janelas de comunicação de solidões desencontradas.
A imediatividade discursiva que a net permite gerou o nada comunicacional, reiterativo, em cíclico copy paste, em que se amputa a imaginação e se legitima o plágio.
O «gosto» alheio como resposta a um post próprio evita o ter de dizer porquê. A comodidade expressiva internáutica torna o palestrante um símio dactilógrafo de sentimentos singelos padronizados.

+

Surgem aqui os traços psicológicos do nosso tempo: primeiro, a depressão como forma reduzida, mas por isso tolerável, da angústia existencial, depois o triunfo do contável no novo mundo técnico do fungível e do computável.
A angústia, ao perder a dignidade de categoria existencial de manifestação do desespero humano, encontrou na tipologia terapêutica a forma redutora que a torna uma mera patologia asténica, que a química farmacológica se candidata a tratar.
Uma nova família de fármaco-dependentes, adictos a drogas legais, garantem assim o equilíbrio básico que os mantém dentro da convivialidade aceitável e lhes permite serem forças de trabalho aproveitáveis no aparelho produtivo que ainda funciona em estado pré-falimentar, que os normaliza, em suma, garantindo-lhes liberdade de circulação ambulatória no hospício em meio aberto que são as sociedades contemporâneas e onde “esses loucos que nos governam” são arquétipo, modelo, e forma de autorização para o viver respeitado, ainda que inimputavelmente.
E, no entanto, antropologicamente, ela, a angústia, é, enquanto intranquilidade fazedora do génio, ou enquanto prostração anestesiante do comum mortal, sintoma daquele inacabamento, daquela incompletude do homem, que o caracteriza como ser defectivo, inacabado, irrealizado, lançado, porém, ao mundo, ainda em gestação, da borda fora da barca de deuses cruéis que o condenam, pedra bruta, à derelição, ao abandono, à entrega ao jogo das circunstâncias até que em pó final se transforme, Sísifo da sua eterna tentativa de refazer-se.
Só que hoje não há angustiados, sim deprimidos. O Prozac, enquanto Viagra do Espírito, resolveu a questão, tal como o comprimido azul permitiu a toda a luxúria sexo.
Além disso ao extâse místico sucedeu o orgasmo venéreo, as entranhas do corpo passaram a ser flatulência sucedânea dos arroubos da alma.
Ei-la, na sua intemporalidade a crise dos nossos dias.
Falta autenticidade ao humano. A metamorfose do ser passa pela redenção. Tentaram-no os totalitarismos políticos que pretenderam criar não apenas a “Ordem Nova” mas o “Homem Novo”. Em vão. A pequenez dos resultados contrastou com a delirante idealização dos projectos. Ficaram, na arqueologia do terror, os gulags e as câmaras de gás, os campos de reeducação e os reformatórios psiquiátricos, os campos da morte e o patíbulo dos condenados, o genocídio em massa e o suicídio individual.
Tentam-no as sociedades iniciáticas, esotéricas ou sacramentalizadas. Debalde também. A mesquinhez do interesse conspurcou o templo, profanizando o culto e o rito. A espiritualidade passou a ser resíduo monacal de uns quantos segregados, a transcendência uma alucinação dos incompatilizados com a vida.
Termino.
+
A vida é uma petição de princípio. Para nasceres é preciso estares vivo. Surge aí logo, no corte do cordão umbilical, no instante do primeiro grito de espanto e de dor, o estado de necessidade, a luta pela sobrevivência.
O homem é o único ser para quem o mero instinto não permite, porém, essa sobrevivência.
Pode morrer-se sem se ter vivido mas apenas sobrevivido.
Eis, aqui, no seu âmago íntimo, a crise de todas as crises: o mundo vegetativo de corpos que caminham para a mineralização, julgando-se humanos, escassamente humanos.
Comparado com o défice de almas, o défice das contas públicas é assunto para intendentes.
Do Oriente esfíngico e fatal chega-nos o sinal e o símbolo: a nossa paganização é a nossa perdição. Jogando aos dados quanto à sorte do pobre Job, o velho Deus, num momento de dormência, perdeu a favor do Diabo. A danação surgiu aí. O Ocidente tornou-se Poente.
Um dia acabará tudo. A vida, vale, porém, a pena. Não por ser uma inevitabilidade. Sim porque é uma milagrosa probabillidade. No labirinto dos tempos um dia um homem e uma mulher... e tudo assim surgiu e surgirá, nem que tenha de ressurgir porque assim está escrito.
Talvez haja esperança onde faltar a fé.
Na síntese de tudo quanto se contradiz, no menor denominador comum a quanto possa ser decência, o Homem deve ser o que é. A crise nasceu no dia em que alguém tentou que ele fosse o que devia ser.
A norma matou o ser. Com a primeira lei surgiu o primeiro carrasco.

[escrito em 2013, encontrei-o hoje]

16.2.14

Que obra mais ante o sentimento?


Pode escrever-se e tanto se tem escrito sobre o Autor ou sobre a Obra. Deve evitar-se a minudência íntima, com que tantos redigem biografias de trivialidades, para que ainda exista a decência do respeito. Mas não ante o sentimento quando singelo, o que exprime quanto provém do coração, pois é mais filosofia que quanta racionalidade o frio cérebro possa compor. 
É esta a essência profunda do ser, o precário fugaz da sua existência. 
Um autógrafo, o flagrante de uma vida. 
Que tudo se torne no que veio a ser, que importa? 
O milagre do instante, essa é a verdade do Amor, numa singela dedicatória. 
Que obra sua valeria mais neste preciso momento para este Homem, que totalidade de uma biblioteca que houvesse já escrito, seria mais do que a ternura destas linhas? 

13.10.13

Pelo Sinal...

Símbolos e a via simbólica, sinuoso caminho, helicoidal, labiríntico e por isso perplexo, e o Sinal, que procuro, na desordem primordial até aos caos final, entre o acaso que me gerou como ser e a fatalidade que me ditará a transmutação no que vier.
Tudo isso, esta manhã, de Domingo, ouvido José de Almada Negreiros, poeta d'Orpheu, Futurista e Tudo!

15.9.13

Maquiavel (texto final)


Não a publicarei integralmente, a apresentação que redigi para a edição de O Príncipe que a Editorial Presença publicou. Deixo aqui ficar o final, que se junta aos cinco excertos que aqui divulguei [e que podem ler-se aqui].
Escrevi tudo em 2008. O trabalho coroou um esforço de empenhamento no estudo da obra integral do "Secretário", incluindo os textos políticos, a poética, o teatro, a correspondência. Polémico, por trazer uma outra visão do biografado que não a odiosa comum, foi trabalho praticamente inútil: nem uma crítica, reparo, reprovação, sim, o desprezo do silêncio. Oficialmente este escrito nunca existiu.

[...] Está feita a apresentação da obra. Que me perdoem os especialistas a ousadia de pensar que este meu acto de atrevimento é uma tentativa de libertar o Florentino do cárcere a que o condenaram todos os que dele fazem instrumento de confirmação ou de infirmação das suas ideias apriorísticas.
Causa de facto viva impressão que um mesmo homem, sobretudo por causa de um mesmo livro, mereça qualificativos tão díspares entre si como se de um Anjo ou de um Demónio se falasse.
Maquiavel ainda hoje causa paixões.
São os que o reduzem ao que escreveu neste livro, contra os que exigem que se leia tudo o que há dele. Junto-me a estes, pois urge ler o Maquiavel republicano para que se entenda este tratadetto, rir com o Maquiavel obsceno de La Mandragola para compreender o poético autor dos sonetos de delicado enamoramento, descobrir o todo para entender a parte.
São os que vêem nesta obra um manual de instruções para tiranos, contra os que nela vêm um manual de sobrevivência para que os tiranizados sobrevivam à tirania. Não me juntei a nenhum deles, pois acho que O Príncipe foi apenas uma tentativa de mostrar aos que eram aquilo que tinham de ser, para continuarem a sê-lo.
São os que encontram aqui doutrina e ciência no campo da política contra os que só acham pragmatismo e oportunismo no mundo do governo. Percebi que Maquiavel escreveu este texto misturando um interesse a muita observação e rematou com uma proclamação; uma obra destas corre o risco de ir do zero ao infinito das categorias dos que vivem a dissecar pensadores à falta de pensarem sobre o que eles pensaram.
Niccolò Machiavelli é, sobretudo, mais diverso do que aqueles que, com estupidez militante, o reduzem ao homem unidimensional.
Primeiro, ele teve o condão de, através de toda a sua obra, desmascarar a política. Um jornalista brasileiro, ao escrever sobre a edição de um dos seus livros disse, com humor, que Maquiavel promoveu um verdadeiro strip-tease do modo de pensar na política, começando por tirar as luvas.
Segundo, ele teve a lucidez de mostrar como é que os políticos tiranizam também pelo marketing da sedução, essa violência doce sobre as inteligências. O nosso Padre António Vieira, que está livre do pecado de ser maquiavelista e tem a virtude de ter pensamentos que se aparentam aos do Florentino, escreveu: «na perda de uma batalha arrisca-se um exército, na perda da opinião arrisca-se um reino»[1].
Terceiro, ele deixou a cada um a sua moralidade, para que, mostrando a eficácia do mal, pudesse ter a nobreza de escolher o caminho dificultoso do bem. Tal como Vieira, a propósito de Dom João IV, ele poderia ter afirmado que um tal Rei «sabia reinar porque sabia dissimular; e reinou porque não dissimulou»[2].
Por fim, ele convocou, no final de O Príncipe, um chefe que desse à Nação dos italianos a sua unidade, à Pátria a sua mítica, ao Povo a sua vontade de viver, que conduzisse a Itália à República, através de uma política que não invocaria o Santo Nome de Deus em vão.
Maquiavel ousou enfrentar os que, reclamando-se a voz de Deus na terra, insultando com o seu comportamento pecaminoso os fundamentos do cristianismo, entendiam que era na moral cristã, que eles ofendiam diariamente, que se deveria encontrar o fundamento da legitimidade da política: o cristianismo era, para ele, um obstáculo, por ser uma moral decadente. Olhando em volta, vendo quem eram os Papas e como se comportavam – Roma veduta, fede perduta – entende-se bem porquê. Mas a Cúria romana não lho perdoaria, porque consenti-lo era abrir a porta ao cisma da Reforma.
Em 13 de Outubro de 1517 o monge Martinho Lutero afixou na Igreja de Wittenberg as suas 95 teses sobre a questão das indulgências, o modo como a Cúria romana encontrara de se financiar – nomeadamente para a construção da Basílica de São Pedro e pagar aos banqueiros Függer – através da remissão a dinheiro dos pecados inclusive dos mortos. Tal proclamação ateou como um rastilho. Denunciado embora pelos dominicanos como herético e excomungado pelo Papa Leão X, Lutero assistiria à disseminação das suas ideias, que traduziam a doutrina Protestante: o livre exame, o sacerdócio universal dos crentes, a simplicidade ritual do culto, a negação do livre-arbítrio, em nome de uma concepção pessimista sobre a natureza humana.
Niccolò Macchiavelli foi e é a totalidade que se pode conter na excelência de uma pessoa, a equação dos defeitos e das virtudes: conselheiro da crueza da guerra, diplomata ao serviço da paz, há na sua figuração conhecida um sorriso estranho[3], enigmático como o da Gioconda, a Mona Lisa, por antonomásia a mulher da Renascença, em torno da qual ainda hoje alinham hordas de curiosos, um sorriso de quem, através da ironia, se ri do mundo e do sofrimento que a vida consegue causar na sua perpétua renovação.
Quis trazer-vos um Homem e não um monstro, quis mostrar que há em Roma quem beatifica Savonarola depois de ter excomungado, enforcado e queimado Savonarola e hoje disfarça o crime condenando Maquiavel.
Quis – nestes tempos em que se desespera quanto à possibilidade de redenção da sociedade através do Estado – deter-me sobre este exemplo de realismo pessimista quanto ao Homem e de individualismo heróico em prol do ressurgimento da Pátria.
E porque de um Homem se trata, termino, com um Niccolò Machiavelli que na sua correspondência tem a fraqueza de confessar a sua fragilidade amorosa, mesmo o perder-se na luxúria sensual. Disse-o numa carta a Francesco Vettori, a 4 de Fevereiro de 1513:

«E porque vos assustais com o meu exemplo, lembrando o que me fizeram as setas do Amor,  sou obrigado a dizer-vos como me governei com  ele. Com efeito, deixei-o agir e segui-o por vales, bosques, penhascos e campos, e achei que me fez mais mimos do que se o tivesse maltratado. Por isso, tirai-lhe a albarda, tirai-lhe o freio, fechai os olhos e dizei: vai, Amor, guia-me, conduz-me; se for para meu bem, será para teu louvor; se for para meu mal, será para tua desonra: eu sou teu servo.»[4].

É o mundo de Dioniso, um Maquiavel em reiterado enamoramento, gozando a «alegria silenciosa» do amor, em arroubos líricos como quando, no seu Albergaccio, alternando a rude existência e a escrita deste livro, se apaixona por uma vizinha «una creatura tanto gentile, tanto delicata, tanto nobile e per natura e per accidente, che io non potrei laudarla né tanto amarla che la non meritasse piu»; ou, perdido o tino, liquefeito em vulgares obscenidades que na nossa literatura se chamariam vicentinas, escreve boçalidades de gargalhada plebeia, libertador diurético talvez das retenções da conveniência social.
Faltava-me isso para lhe compreender o enigma, sensual entre amorais pregando moralidades, virtuoso mestre na arte de defender a virtù, contraditório entre a dor e o riso, ambiguamente verdadeiro, enfim, humano, e porque profundamente apaixonado, demasiado humano. A sua vida resume-se numa frase do capítulo XVII deste livro: «quem não ganhar amor que evite o ódio». Ele perseguiu o Amor ideal, entre a cidade dos homens e o afago dos amores venais.
Conseguiu-o através da ironia do sorriso, rindo-se de si e de nós desdenhoso: contemporizou com a tirania que o perseguiu, foi desprezado pela nova República que quis servir. Incerto entre os homens, perdido entre as mulheres, morreu do menos poético modo, falhando-lhe os intestinos. Deixou aos filhos os restos da pobreza.
Um dos seus textos poéticos chama-se O Capítulo. Dividiu-o em partes, escreveu-o ao longo dos anos. Cada um desses tercetos tem um nome que é um tratado de filosofia condensado numa só frase: fortuna, ingratidão, ambição, ocasião. Cada ser humano revê-se ali, como a um espelho.
Ao contrário do que pensam os académicos, as grandes obras são mais o produto do sentimento do que do pensamento, a vida a escoar-se, «nervos, vida e História» em cada página.
Eis o Maquiavel que encontrei. Podia ser qualquer de nós. Em cada um dos homens contem-se a totalidade da Humanidade.


[1] Sermão pelo bom sucesso das nossas armas.
[2] A frase completa é um convite à leitura do Sermão Histórico e Panegírico dos anos da Rainha Dona Maria Francisca Isabel de Sabóia, de que faz parte: «Sabia reinar, porque sabia dissimular; e reinou, porque não dissimulou. Prezava-se só da justiça, afectava o nome de justiceiro, e era justo. Para os criminosos severo, para os pleiteantes igual, para os ministros senhor, para os vassalos pai, e para todos rei.»
[3] Viroli, na obra citada, constrói todo o seu registo em torno deste sorriso, «un sorriso di sfida, che muore sulle labbra senza avere il calore di attenuare la pena che serra il cuore» [página 131]
[4] Encontrei a carta traduzida no prefácio de Manuel Mendes à edição de 1945 de O Príncipe. Consultei a versão original, que cito. Registo aqui o modo como foi traduzida por Mendes: «Dizeis que estais assombrado de saber o que as flechas de Cupido me fizeram. Talvez vos deva explicar exactamente a minha política para com ele. Em suma, eu deixo-o livremente agir como entenda, sigo-o com docilidade por vales e montes, florestas e campos, e certifico-me, no final de contas, que ele me tratou muito melhor, do que teria feito se eu lhe tivesse resistido ou lutado com ele. Ainda o melhor é aliviá-lo de sela, de freio e de rédeas, fechar os olhos e dizer-lhe: “Vai, Amor, sê meu guia, conduz-me – o bem será a tua glória, o mal para o teu descrédito! Não passo de teu escravo”(…)».

31.8.13

Adivinhar


Não sabem, os do Império da Razão, os súbditos do racionalismos, os limitados pela lógica e pelo pensar apenas com a cabeça, o valor que tem o adivinhar. E como as adivinhas, jogo de paradoxos enigmáticos, são um exercício para se chegar a essa forma superior que é a do pressentimento, a do conjecturar, o sexto sentido dos que sabem sem saberem porquê.
Por alguma razão adivinha e adivinhar têm o mesmo étimo. 
Tudo isto porque um Secretário de Câmara Municipal, que o foi por Elvas no final do século dezanove, recolheu, com dedicação e amor manso, o reportório de adivinhas do seu Alentejo.
O livro encontra-se aqui, bem como um apelativo sumário. Alberto Marques fê-lo, por gostar de livros.

16.5.13

António Quadros, o meu testemunho



Eis o testemunho que apresentei no colóquio evocativo dos vinte anos passados sobre a morte de António Quadros.

Há livros que, ao frequentá-los, marcam, o que os da fria gnoseologia chamam, “cortes epistemológicos”. São clivagens no pensamento e na própria essência do ser pensante.
Sucedeu-me isso com António Quadros. Por isso aceitaria deixar este testemunho.
De testemunho estranho se trata, este meu, porque sendo o de uma pessoa que se clama de uma outra, eu a convocar-me dele, nunca os nossos corpos se encontraram em qualquer das esquinas da coincidência possível, o meu testemunho não tem provas do efeito, sou apenas o lugar íntimo onde se situa a causa do que se espera possa vir a ter amanhã.
António Quadros frutificará, germinando a semente que deixou. A improbabilidade tornou-se facto. Falarei, pois, daquilo que sou, vindo dele.
Provenho de uma geração que, numa significativa parte, se formou sob a bandeira do marxismo, não como mais um método analítico da economia política, sim como doutrina totalizadora, a dar explicação, programa, bandeira, política e meio para a proclamada única interpretação e para a internacional transformação do mundo, como ficou na célebre tese do autor do Das Kapital sobre Ludwig Feuerbach.
Mas eu não sou o meu tempo, por ser a ele antecedente. Escapei, pois, incólume, a essa colectivização da pessoa.
O que me tornou naquilo que sou, foi, sim, o aluvião sensitivo dos que, vindos dos escombros trágicos da segunda guerra me transmitiram do exílio as dores, da barbárie totalitária a vergonha, os que sentiram o opróbio da humana angústia, os que viram no Homem a criatura defectiva, imperfeita, em busca do ómega possível do seu encontro com uma mística sem deuses, em perpétua derrelicção, antropologia existencial do ser, situados, cercados pela História e pela genética, livres, porém, pela contingência de um acaso cósmico, os que, entre nós, tudo isso sentiram neste modo triste de ser-se português.
Estava, pois, por isso mesmo, preparado para o encontro desde que, aos dezasseis anos, não tendo ainda lido os clássicos russos, lhes conhecia, da estepe cultural, a alma, tão próxima da nossa na sua nostalgia. E tinha sentido a náusea e sobretudo a queda. E o homem revoltado. Preparei-me então para o Sísifo da vida, roendo-me dos fígados a peste que me tornara um ser isolado do colectivo dos da minha geração.
O pragmatismo amoral que se apoderou-o subitamente no Verão passado de 1975, de muitos dos pequeno-burgueses de fachada socialista, que já eram, encapotadamente então, o que o futuro lhes reservava, tornando-os hoje gestores materialistas do capital apátrida e suas perversões, passou-me ao lado, porque de ideologia se tratava apenas, tecnocracia de acção a fingir-se, através da dialética, ciência, positivismo utilitário, ideias hipócritas feitos carreira, seguro-caução.
Eis o vazio então em torno de mim, na hora agónica em que nenhum outro povoa o amanhã da nossa existência. Nem a frescura de asas desses seres intermédios, mercuriais ou herméticos, que ele viu.
Fruto de negações sucessivas e desencontros com a minha época, faltava-me também então um espaço a que pudesse chamar Pátria.
É que eu provinha de Angola, em viagem, e chegara a este rectângulo vindo de um Império a desabar. Em 1962. Portugal, no limite a que se confinou, devolvido ao princípio da gesta argonauta, já era uma saudade do futuro, o mito profético das terras do Malpassar. A emergência da Nação Lusíada compreendi-a com ele, como mistério, imanência, destino, comunidade de vivos e mortos, diáspora, para além dos regimes, governos, intendências. Devo-lhe o patriotismo, esse inconsciente colectivo feito identidade transcendental do ser.
Li-o então, também no momento em que, jurista em formação, Leibnitz e a sua lógica deôntica, ensaiando o cálculo aplicável a tudo quanto fosse a norma e a Lei, me atraía, com a força de um magneto intelectual, e com ele o império da racionalidade, único critério que eu respeitava – que limitado eu era, sem saber! – de razão e da verdade; e de bondade e de beleza, a redução do ser ao denominador comum do ímpar magnífico.
E, permitam, o abuso da pessoalização. Naquele tempo, e durante tanto tempo assim foi, lia Simões da Fonseca e juraria que as sinapses neuronais eram homologias epistémicas da aritmética digital, que a lógica booleana tinha tornado operacional e Allan Turing instrumento de computação universal. E von Neumann e a sua teoria matemática dos jogos. E Nobert Wiener e a Cibernética, a mãe de toda a interdisciplinaridade. E trocaria a inteligência humana pela inteligência artificial dos servo-mecanismos, da robótica, sei lá o quê de inhumano, qualquer Golem e Companhia do “Espírito na Máquina” de Arthur Koestler. E julgava-me contemporâneo quando, para o ser, teria, como Leonardo Coimbra, de dar tudo por írrito e nulo e recomeçar.
Surpreendi-o então, imagine-se, a António Quadros, firme e cavalheiro, a polemizar com António Sérgio, não porque contra o espírito seareiro no que isso implicava de programa cívico pela democratização da República, não enquanto filho da “política do espírito” de António Ferro, seu pai, sim como inteligência contemporânea em acção contra o reducionismo, geometrismo cartesiano afinal revisitado, negação do curvilíneo pelo rectilíneo, do complexo pelo simplificado, do enigmático pelo evidente, do diverso pelo uniforme.
Corajoso, não se deixou intimidar ante os que, sob falsa tolerância, anatemizavam todos os que não vinham da laicidade jacobina paramentados, ou pelo radicalismo político protegidos, jogados, nada democraticamente, afinal, para o lixo como “cadaveroso reino da estupidez”.
A coerência é uma linhagem. No seu caso um dever para consigo, antes de ser um respeito para com os seus. Uma militância.
Crúzio foi o homenageado então contra esse mundo que, julgando-se moderno era, afinal, obsoleto por não ser antigo, faltando-lhe da Tradição os arcanos, e que – fantásticas palavras suas as suas, como golpes certeiros – «por isso polarizou e orientou os desejos obscuros de uma burguesia desenraizada, céptica e materialista, à procura de justificações ou alibis para o seu pragmatismo de curto fôlego».
Só que eu tinha chegado então, tanto tempo perdido, ao 1982 da minha vida. E sentia, febril e marítimo, o nascer de um volante dentro de mim.
Foi precisamente naquele livrinho seu, dedicado à “Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista” que tudo começou. Ainda em dois volumes, da Guimarães. A partir dali, surgiu-me a revelação: Pascoaes e a bruma densa do Marão, pensamento granítico e névoa poética, Fernando Pessoa, pela primeira vez trazido do óbvio paradoxo de um Álvaro de Campos, para o esotérico de que ele é, em permanente desassossego, enigma e chave, ambos os seus dois poetas, e assim o achou João Bigotte Chorão.
Pela sua mão chegou-me, arrumada já a dispersa estante, toda a filosofia portuguesa, o seu antes primordial com Leonardo Coimbra, Álvaro Ribeiro e José Marinho, e, logo todos, de Agostinho da Silva, errante, a Dalila Lello Pereira da Costa, em íntima clausura, inclassificáveis na sua indeterminação, Lima de Freitas e Margarida Cepeda, na simbólica da expressão artística, Francisco da Cunha Leão e, através dele o psicologismo do homem lusitano enquanto português e por isso não ibérico, todos quantos, afinal, que recolheu para “Memória das Origens”, dez anos depois. E não mais parou de jorrar essa fonte extraordinária de saber.
É verdade que o encontrara porque me perdera de mim naquilo em que a vida me traçara a rota desaustinada a que se chama Destino. Percebi-o depois, em retrospectiva. Contemporâneo na docência universitário de António Braz Teixeira não dei conta que um fio filosófico nos unia, imperceptível, impossível de se revelar.
Com o País a arder, António Quadros então escrevia. Em 1976 escrevia porque pensava, enquanto tantos desertavam ou se abstinham de intervir, e outros se iludiam ante a miragem salvífica de uma Revolução, que prometia liberdade e socialismo.
As elites salvadoras despareceriam, sem descendentes ou sucessores, o povo viveu a sua hora de festim de ilusões macabras.
Não o pressenti então, nesse seu livro vivido no campo da honra, o “Portugal Entre Ontem e Amanhã”, tão alheado que estava eu do que ele simbolizava, e como agora o leio, nesse escrito cauto, presságio da inatingida «eticidade de uma política nacional autêntica», e eis-nos hoje ante os tempos da anomia integral, a dar-lhe razão no seu contido entusiasmo face ao que, em tresloucada aceleração, ruía do edifício moral da Nação que é o que precede os Estados e seus Governos.
“Franco-atirador” já fora ele, aliás, em 1970, compilando crónicas que editara no “Diário Popular”, juntando nesse livro da sua “Espiral” o tudo e o nada que fazem do pensamento intervenção, da opinião arma. Nesses tempos, em que a liberalização política do País estava por vir, antecipou-se ele em liberdade, a do espírito livre. Conteve a forma, não o tema.
Mas foi a filosofia da existência, que marcaria o primeiro e porventura o mais vincado elo familiar com a sua pessoa. Atento, meticuloso, soube valorizar no romance “Mudança”, de Vergílio Ferreira, o corte com o neo-realismo e com os limites que a literatura-planfleto colocava à pujança criativa da forma, como a inteligência de “António Vale”, esse pseudónimo literário de Álvaro Cunhal, já o havia pressentido para as páginas da “Vértice”. Foi em 1959, sob a chancela da “Sociedade de Expansão Cultural”, que nos ofereceu essa percepção da fenomenologia cultural da ficção. Ali estavam todos, Régio, Agustina, tantos…
Dera-se, íntimo, a esse drama humano que é a sua existencialidade, através da qual, como tão bem se exprimiu no livro “O Movimento do Homem”, a criatura se vê e a todos os outros «através de um véu emocional, directo e perturbante, que intranquiliza todo o saber, que desequilibra todo o silogismo, que problematiza todo o valor (…).
Faltava a desocultação da Atlântida, essa forma extraordinária de percepção da longa persistência criacionista que é a Nação Lusíada, relutante à decadência, resistente à adversidade, em fidelidade e infidelidade a uma razão superior, nauta de um projecto áureo, sebástica talvez, ainda por cumprir.
Difícil, nesta agonia do momento, em que o “patriotismo de palha”, de novo fugaz e ingénuo, obnubila a verdadeira servidão a que nos acorrentámos, às galés da usura e às Índias europeias da ilusão atroz, enxergar, entre a regressão e a menoridade, a História do porvir, prolegómeno do futuro necessário.
Mas o que virá já está. É, pois, tempo de esperança.
Com António Quadros aprendi que, para edificar há que encontrar fundações, como na árvore o crescimento é a razão das suas profundas raízes.
Em escavação interior, buscando os fundamentos do eu, como precária pessoa, e do nós, como Nação sobrevivente a mais de oitocentos anos, segui-o, até me esgotar de exaustão, perseguindo a “resistência ao trágico”, nas Conferências do Casino ante o Ultimato, na perpétua bandeira da “Renascença Portuguesa” a desfraldar-se a Norte, e em tudo quanto, da História à Filosofia, onde encontrou, em arqueologia cultural, marcos miliários messiânicos dessa “ideia de Portugal”. Na busca, em saudade, de uma compreensível religiosidade incorpórea, a do divino Espírito Santo que ilumine.
Não terei o impudor de dizer quanto a António Quadros que o sei. Apenas que o tenho comigo. Eis o que vim dizer. Para o livro evocativo dos dezoito anos volvidos sobre a sua morte escrevi: «se há momentos de uma filosofia que marca um destino, o que ele escreveu sobre os males do positivismo marcou-me a rota mental». Não disse então mais, deu-me acanhamento.
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Termino e alonguei-me. A bondade de Pinharanda Gomes, ser de incorruptível carácter, acreditou que «a biografia pública de António Quadros coincide com a sua biografia íntima: uma vida de reflexão, uma vida a escrever, a comunicar». Talvez não. E não apenas porque há o Amor, essa força telúrica, vinda de um qualquer ponto do que existe, a Rosa Mística, razão e mistério. E sonho. Escreveu “Anjo Branco, Anjo Negro”, a homenagem à Mulher Eterna, a «transcendência que invoca uma reintegração».
António Quadros morreu «com discreto pudor». Sabia, pela verdade que se lhe revelara, que apenas se ausentaria o corpo em que em si viajava a alma. É seu o verso escrito em 1949, o ano em que nasceu o meu corpo: «Um grande azul, sem fim e sem distância. Um doce vento, simples, sem motivo. Uma terra fecunda de mistério. O Universo flutuante, sem limites».

29.8.12

Um homem à mercê da História (5)


É o quinto excerto do texto de apresentação que escrevi para a edição da Presença de O Príncipe, de Maquiavel. Séculos volvidos continua a ser necessário defender-lhe a memória às mãos dos detractores. Posto no Index dos livros proibidos pela Inquisição, queimado em efígie, ainda paira sobre ele a maldição da incompreensão.

Quando morreu, a 21 de Junho de 1527, Maquiavel tinha visto publicar menos do que escrevera. Este livro era um dos seus inéditos.
E, no entanto, se o seu nome alcançou a perenidade que leva a que actualmente seja conhecido mesmo pelos de menor cultura, isso deve-se ao modo como foi, sucessiva e contraditoriamente, interpretado um livro, este livro, que só veria a luz do dia cinco anos após o decesso do seu autor.
Há autores que escrevem obras para se libertarem, através delas, da lei da morte que é o esquecimento, Maquiavel ficou prisioneiro de um livro imortal porque ainda hoje lembrado, mas que não publicou enquanto viveu e nem é seguro que tivesse sido escrito com intenção de ser levado aos prelos.
O futuro reconstruiu-lhe o presente, inventando-lhe um passado.
O Maquiavel com que hoje nos cruzamos não é, assim, o mesmo cidadão florentino que os seus patrícios julgavam conhecer, mas um outro que o tempo reformulou.
Ao escrever esta introdução, não consigo resolver a dúvida existencial sobre se é mais real o vivo do que o póstumo, o contemporâneo visível ou o histórico reconstruído sobre os despojos do que foi. Toda a biografia é, por isso, nessa íntima parte, uma auto-biografia.
O enigma de Maquiavel nasce logo com o modo como foi escrita a que passou a ser a sua obra mais conhecida. Sabemos em que estado chegou ao seu albergue rústico: expulso do Palazzo, a extensa família a cargo, a ter de humilhar-se, pedindo, sabendo que poucos se arriscariam por ele, tendo do mundo e dos homens certezas vis e sabendo que os fortes tiram dos fracos, os espertos tiram dos fortes. Tudo isso ficou dito. Mas o que fica por explicar é como é que o produto de um tal momento, de penúria e de dependência, veio a alcançar a glória da imortalidade quase seis séculos depois da sua morte.
Claro que tudo ocorre numa época que trouxe para a História da Cultura momentos, como hoje soe dizer-se incontornáveis. Nessa extensa galeria, Maquiavel não está só, acompanham-no, na Literatura Ariosto e Tasso, na arte Rafael, Michelangelo e, em suma, tantos outros como Leonardo da Vinci, Dante Alighieri, Boccaccio, Petrarca…
Mas o que dita a especificidade da projecção intemporal deste seu pequeno livro são circunstâncias peculiares e, na sua mais rica dimensão, extrínsecas à própria obra.
Encaremo-lo objectivamente: lido a sublinharem-se as máximas de cunho geral que contém e que dele fazem um livro de ciência política ou de doutrina política, ou de filosofia política, O Príncipe é algo que não surpreende pela magnificência, nem pela densidade ou profundidade[1].
Situado na época ele é, não mais um dos muitos livros para príncipes e senhores[2] mas, enquanto livro de observação fria, o fundador da ciência política, libertando-a da subsidiariedade face à Moral e à Teocracia, o que só tardiamente lhe seria reconhecido.
Terá sido o modo como foi sucessivamente encarado a partir da sua divulgação pública, em 1532[3], que ditou a sua fortuna, sobretudo as apaixonadas polémicas que o florentino suscitou.
Primeiro, o texto terá circulado em cópias avulsas, restrito o seu conhecimento a círculos limitados, a cujo destino o Papado se mostrou indiferente. Mas, como vimos, em 1559 estaria no Index como livro herético.
Ao findar o século dezasseis Maquiavel tornou-se persona non grata nos círculos católicos, começou a ser motivo de curiosidade por parte dos intelectuais de toda a espécie, tornou-se espelho da conduta de alguns políticos desejosos de aprender a arte do poder.
Na católica Península Ibérica a obra de Maquiavel só podia ter sido recebida com repúdio, por entrar em rota de colisão com o núcleo essencial do pensamento filosófico-político aqui dominante e, sobretudo, com o pensamento jesuíta.
As hostilidades abrem-se com D. Jerónimo Osório da Fonseca, bispo de Silves, quando publica, em 1542, o Lusitani de Nobilitate Civile, Libri Duo, ejusdem de nobilitate Christianna Libri tres[4].
Trata-se de uma das mais ilustres figuras portuguesas do século dezasseis com maior projecção externa, autor de um De Vera Sapientia, traduzido em português como Tratado da Verdadeira Sabedoria[5]. Terá nascido em 1506 e morreu em 1580. Estudou em Salamanca, em Paris e em Bolonha. A ele se deverá o haver inspirado D. João III na decisão de chamar os jesuítas para Portugal.
Osório enfrenta[6] a acusação que Maquiavel lançara sobre o cristianismo, a de haver sido o fautor do enfraquecimento da Humanidade. Considerando que «os escritos daquele homem fazem tamanho ultraje à nobreza cristã» diz que, apesar de morto aquele com quem antagoniza, «não hesitarei, confiado na protecção de Cristo, em travar peleja com aquele sulerado» [sic].
A sua refutação assenta em três linhas argumentativas: mostrar que os cristãos sempre deram o exemplo de coragem e constância no sacrifício; explicar a verdadeira razão da queda de Roma; e enfim, valorizar as virtudes militares e combativas dos cristãos.
Trata-se de um ataque não puramente teológico. «Contestando o sentido anti-romano da obra do Florentino, o Bispo Osório descobriu, embora o não explicitasse, o traço de união entre Maquiavel e os Reformadores (…)» sublinha, em aguda observação, Martim de Albuquerque.
Em 1595 outro jesuíta, este de ascendência galega, Pedro Ortiz de Cisneros (de Ribadeneyra) [1527-1611], publica o seu Tratado de la religión y virtudes[7]. Dedicado a Felipe, que seria Felipe III, exorta-o a seguir o caminho dos seus antecessores, nomeadamente imitando os Reis Católicos, contra «a falsa razon de Estado».
Escritor prolífico, com escritos ascéticos e biógrafo do fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola, o pensamento legitimador de Ribadaneyra é o extremo crítico do sentir do Secretário. Se o convocamos aqui é, apenas, para ilustrar alguns dos equívocos em que se tem amiúde caído em torno do agregar dos pensadores «portugueses» anti-maquiavelistas. No caso de Ribadeneyra [ou Ribadeneira, como há quem escreva, numa variante aportuguesada da palavra] o problema nasce do facto de ele não ser português e ter sido, aos quarenta e oito anos, apenas responsável assistente na organização da Sociedade de Jesus por Portugal e Espanha, sendo que a sua doutrinação teve aqui eco tardio, salvo o Flos Sanctorum, traduzido por João Franco Barreto e publicado em 1674.
O mesmo se pode dizer de Francisco Suarez [1548-1617], um granadino, também jesuíta, jurista, que depois de ter publicado a obra De Fide se mudou para Portugal, leccionando na Universidade de Coimbra, onde publicou, em 1612, o De Legibus e no ano seguinte o Defensio fidei catholicae.O seu pensamento foi votado a um significativo desinteresse durante os séculos dezoito e dezanove, de um modo tão simbólico quanto o facto de o Marquês de Pombal ter mandado instalar, na Igreja de São Roque, um órgão que praticamente sepultou das vistas o Doctor Eximius que escapara, porque morto, à expulsão decretada por este Carvalho e Melo.
Cito-o como um exemplo típico de alguém cujo anti-maquiavelismo é uma decorrência óbvia de toda uma construção diversa daquela outra em que se funda a lógica de O Príncipe e não porque visasse expressamente a sua refutação, como por vezes é entendido.
É evidente que quem tem a inteligência de escrever que «o poder dos príncipes cristãos, em si mesmo, não é maior nem de distinta natureza do que foi entre os príncipes pagãos; logo, em si próprio, não tem outra matéria nem outro fim» [De Legibus, III, XII, 9] só pode seguramente ter de coexistir com um anti-maquivelismo mais sofisticado do que o redutor abjeccionismo.
É certo que, tendo ensinado em Roma a Summa Theologica de São Tomás de Aquino, entre 1580 e 1585, conheceria a obra que apresentamos e a sua natureza herética. E é patente que é um pensamento com tal perfil que ele refuta quando censura quantos «entendem que o poder secular e o direito civil visam directa e primariamente a estabilidade política e a sua conservação, e que, em ordem a esse fim se dão as leis, quer se encontre nelas uma verdadeira honestidade, ou somente uma estabilidade fingida e apenas aparente, incluindo a dissimulação do que é injusto, se tal se revelar útil ao Estado temporal» [ibidem, 12].
Mas naturalmente, estando O Príncipe entre os livros de leitura proibida, seguramente que mais do que enfrentar haveria que ultrapassar, centrando em outras coordenadas o cerne do discurso sobre a legitimação do poder.
Não foi só no pensamento de origem religiosa que o ideário de Maquiavel encontrou, porém, poderosos oponentes.
Expressão típica do pensamento anti-maquiavelista é a de Duarte Ribeiro Macedo [1618-1680][8], um juiz que se tornou diplomata e que serviu em França e Espanha. Um homem que, no dizer do 1º Marquês de Fronteira, foi um «finíssimo e manhosíssimo servidor de sua Pátria», seguramente se interessaria pelo pensamento do Secretário, seu colega de profissão e como ele estudioso das coisas políticas.
Mas se por um lado Macedo toma as suas distâncias em relação a Maquiavel – e fá-lo citando-o expressamente – a verdade é que a temática que aborda, os termos em que o faz – esse «fenomenismo barroco»[9] - e o próprio modo de articular as questões, demonstram que estamos ante um mundo moderno, bem mais aberto em concepção do que o encontrávamos sob as coordenadas jesuíticas: trata-se agora, nesta análise não confessional, de abordar temas tão maquiavelistas como da «razão de Estado»[10] e os vectores da «fama», da «opinião alheia», da «aparência», da «destreza», da «perspicácia e da prudência», da «ocasião» e da «temporalidade» que para ela contribuem, trata-se, enfim, de «bons costumes, boas leis e boas armas», tudo o que faça um príncipe «penetrar a natureza dos seus vassalos» e «mudar o estilo da natureza universal». Maquiavel havia triunfado ao marcar a agenda tópica dos seus críticos.
Eis a recepção que Maquiavel teve neste tempo e neste país, uma frontal oposição, em alguns casos, uma rude, feroz e homicida oposição.
Em 1626 Pedro Barbosa Homem, licenciado em cânones pela Universidade de Coimbra e juiz de fora da Covilhã, corregedor de Tavira, desembargador da Relação Eclesiástica da Guarda e da Relação do Porto, publica os seus Discursos de la jurídica y verdadera razon de estado[11], escritos em castelhano para que, no dizer do seu autor, a obra tivesse maior divulgação no estrangeiro. Barbosa Homem é, aliás, um defensor da união de Portugal a Castela.
A obra compõe-se de três partes. A primeira trata da razão de Estado, a espiritual e a temporal. A segunda trata da vida e obra de D. João II, o exemplar «Príncipe Perfeito». É na terceira que, abordando a política, estuda os «estados ímpios de Machavelo y Bodino».
A sua repugnância ante o pensamento de Maquiavel é total, a linguagem mostra-o. Veja-se este excerto exemplar: «Y seria yo sempre de voto que en semejantes puntos dexados deltodo las argumentos, el negocio se tomasse luego, com las personas de los argumentantes, prevenindoles tan a tiempo; que si el primer vomito de sus heregias fuesse desde alguna cátedra o libro: el segundo, nunca ya mas pudiera ser sino de en médio de hoguera» [discurso XII].
Para juiz, recomendava-se mais humanidade e serenidade.
Em suma, eis como um homem e sua obra sofreram a inimizade dos seus antagonistas. Mas não fomos só nós a dispensar-lhe a pior recepção.
Em 1576 o francês Innocent Gentilet sugeria, numa virulenta crítica a O Príncipe, que ele haveria inspirado Caterina de ‘ Medici – enfim!, uma de ‘Medici rendida ao Secretário – a perpetrar o nefando crime da sanguinolenta noite de São Batolomeu, de 24 de Agosto de 1572, com o extermínio do Huguenotes. E, como se isso não bastasse, Maquiavel foi apresentado como o protótipo do italiano «malvado, irreligioso e fraudulento». A guerra entre a França e a Itália continuava entre Gentilet e Maquiavel, apesar de este estar já morto…
Francês também, Jean Bodin [1529 ou 1530-1596] prosseguiu o mesmo combate[12] nos seus livros escritos em 1566 e 1576, essencialmente nos seus Six livres de la République, mas com uma diferença: é que o seu espírito jurídico e a ausência de lógica de sistema haveriam de reduzir a lógica do poder ao conceito de soberania [souvraineté], privilégio do dono da força, do que, numa lógica de Administração, «pode obrigar todos os súbditos e não se pode obrigar a si próprio».
Curiosa seria a atitude de Erasmo de Roterdão que, seduzido a princípio pelo pensamento de Maquiavel, acabaria por se incompatibilizar com ele. Este humanista cristão, que travou duro combate contra o fanatismo do clero e a corrupção da religiosidade – como o seu Morías Enkomion, o Elogio da Loucura, escrito em 1511, o demonstra – postulava, sobretudo na obra Institutio princeps christiani [1516] a noção de um príncipe sábio, que saiba que dominium, imperium, regnum, maaiestas, e potentia são tudo vocábulos pagãos, pelo que, animado pelas virtudes cristãs, ele deve exercer a beneficência, a clemência, a custódia, ser em suma um exemplo superior de vida». E, sobretudo, ele que é a viva lex, que edite poucas leis, para que haja poucos juristas, poucos advogados, mais Justiça!
O toque a rebate haveria de propagar os seus efeitos. Um pouco por todo o lado surgiriam os cruzados contra Maquiavel: Frederico II, da Prússia, «O Grande», em texto revisto por Voltaire, publicaria entre 1738-1740 um Anti-Maquiavel[13]; Tomaso Campanella, da Ordem dos Pregadores, o autor da utópica Civitas Solis, que acabaria, ao findar o século dezasseis, por cair nas mãos da Inquisição, enfrentaria também o pensamento do Secretário.
E, no entanto, a obra resiste, mesmo contra aqueles que quiseram para o seu autor a fogueira, para o seu livro o esquecimento. Como escreveu um contemporâneo de Maquiavel, Thomas Moore, na sua Utopia [1516] é a Natureza quem «verdadeiramente te adverte para que não procures o teu conforto com o desconforto dos outros». Malquisto, o livro sobreviveu ao ódio, porque o seu autor deu corpo a um princípio de imitação, segundo o qual o mundo é imutável na sua verdadeiramente essência porque cíclico. Nisso a essência do seu pensamento confundiu-se com o de um dos seus críticos, Francesco Guicciardini, quando escreveu que «as coisas passadas fazem luz às futuras, porque o mundo foi sempre de uma mesmíssima espécie e tudo o que é e será o foi noutro tempo e as mesmíssimas coisas voltam, mas sob outros nomes e cores».

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[1] Carlos Soveral, que prefaciou uma edição portuguesa de 1955 [proémio, página 10], notou-o até pelo estilo, que denota, pela transparência e vulgaridade verbal, um passo muito adiantado do pensamento: «Maquiavel não tirou do fundo de si mesmo o que exprime com a flexibilidade de quem bebeu o leite e respirou continuadamente na atmosfera comum».
[2] Ioannis Iovianus Pontanus [Giovanni Gioavano Pontano, 1429 (ou 1426, conforme as fontes)-1503], contemporâneo de Maquiavel, como ele diplomata e interessado na coisa pública, humanista polivalente e de obra multiforme, escrevera em 1493 um De Principe. Foi membro da Academia Pontaniana, fundada por Antonio Beccaddelli, o Panormita, a qual tem hoje o seu site na Internet recheado de dados históricos interessantes. Em 1993 Guido Cappelli escreveu uma edição crítica deste livro, publicado pelas Edizioni Scientifiche Italiane.
[3] Apesar disso, em 1529, Francesco Guicciardini redigiu um comentário crítico ao pensamento de Maquiavel, em que essencialmente põe em crise as seguintes facetas: a possibilidade de se retomar o modelo político romano clássico; o facto de Maquiavel manifestar uma ostensiva preferência por formas de governo “popular” em detrimento da oligarquia – imaginar como a crítica se inverteu com o tempo – e o carácter demasiado afirmativo do seu estilo conclusivo.
[4] Trata-se, como expressou Pedro Calafate [História do Pensamento Filosófico Português, II, 15], por um lado do «embate entre o catolicismo romano e o desejo luterano de uma profunda reforma da vida religiosa e, por outro, do confronto entre duas concepções filosófico-políticas: entre o príncipe cristão e o príncipe de Maquiavel, entre o fundamento ético da política e o desejo de constituição de uma “arte” política baseada na utilidade e manipulada da distância entre “o que é” e “o que deve ser”».
[5] O livro, traduzido e anotado por A. Guimarães Pinto, que redigiu uma introdução erudita à obra está publicado desde 2002 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
[6] Se é que não terão razão os críticos que sustentam que Osório nunca leu Maquiavel. Martim de Albuquerque aflora a questão [página 55].
[7] O nome do livro é sintomático: Tratado de la religión y virtudes que debe tener el príncipe cristiano para governar y conservar sus Estados. Contra lo que Nicolás Machiavelo y los políticos de este tiempo enseñan (Madrid, 1595).
[8] Sobre o seu pensamento e obra veja-se, apara além da referência que lhe faz Pedro Calafate na História do Pensamento Filosófico Português, II, 695-697, Ana Maria Homem Leal de Faria, Duarte Ribeiro de Macedo. Um Diplomata Moderno (1618-1680), Biblioteca Diplomática do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, 2005. Os seus textos políticos só foram publicados postumamente, em 1729, sob o título Discursos Políticos e Obras Métricas.
[9] Expressão de Calafate.
[10] Coube ao jesuíta Giovanni Botero [1544-1617] a consagração oficial do termo ao ter escrito em 1589 os dez livros sobre Della ragioni di Stati. Trata-se de um ataque às ideias tidas por ímpias e anti-cristãs de Maquiavel, em favor de um príncipe «religiosíssimo e fiel à Igreja Católica», a doutrina da conservação pela prudência, porque, segundo ele, há mais virtude em conservar o poder do que em conquistá-lo.
[11] Há um exemplar na Biblioteca da Universidade de Coimbra [R 34-14]. P. Mesnard escreveu para o livro Christianesismo e Ragione di Stato, Milão, 1953 o artigo Barbosa Homem et la conception baroque de la raison d’État.
[12] Autor de várias obras de natureza filosófica e de teoria política, este docente de Direito da Universidade de Toulouse haveria de escrever também um La démonomanie dês sorciers [1580], obra pensada para o combate à feitiçaria, típica naquela época em que Inquisição prosseguia os seus autos de fé contra a heresia e contra a demonologia.
[13] Editado entre nós pela Guimarães, com tradução do francês por Carlos Soveral. Frederico foi acusado de estar a criticar os métodos que usou. Expressa neste escrito de juventude, um tom de moralismo grandiloquente: «ouso tomar a defesa da humanidade contra um monstro que pretende destruí-la», escreve na Introdução à obra. Na apresentação do livro [que as recentes edições eliminaram] Soveral não o poupa: «Frederico, apesar de sua vocação militar, não aprende sequer as relações estreitas que existem entre a guerra e a cinegética, e que, desde a primeira, conferem à segunda uma enorme importância. Nisto, um junker não ilustrado teria de ver melhor e mais congruentemente, do que o filho do Rei Sargento, abeberado na Enciclopédia».

27.8.12

Mircea Eliade, um documentário

Viveu aqui perto, como o referi já neste blog. Soube-o ao ter lido o seu Diário Lusitano. Daí em diante a sua presença ficou como uma constante, como se ainda hoje os sinais da Igreja de Fátima repicassem para nós ambos. O filme devo-o ao António Quadros Ferro que o citou.

18.7.12

A Pesca à Linha

Não é tecnicamente um filósofo, mas é essencialmente um português. E a filosofia portuguesa é um modo português de pensar. Que nasce pela nostalgia do lugar, prossegue pela intranquilidade viandante e culmina pela dúvida quanto à essência de si. 
Eis aqui a saudade perpétua do rincão natal, ela a Nação argonauta que transpõe o oceano e a toda a enseada chama Pátria, errante pela aurora de uma sacralidade sem religião, devotada fé no entardecer da vida.
António Alçada Baptista é isso. Imperfeitamente católico porque angustiado de Deus, ansioso da perfeição na condição terrena do homem carnal. Leio-o, regressado a casa: «Eu sou da burguesia da província onde nasci em pleno reino do ter. Agora estamos no reino do fazer, mas tenho uma certa esperança de que um dia se alcance o reino do ser.»
E sinto-o, revisitando-me, como se a um familiar ignoto que me fosse dado a conhecer

30.6.12

Trágico sinal e fatal Destino

Aos poucos vou juntando aos que tenho aqueles que encontro nas Bibliotecas. Neste caso veio por empréstimo. Tento depois achá-los nos alfarrabistas. Não pela lubricidade da posse de serem meus, mas sim porque temo que quando os quiser voltar a ler os não encontre. E depois há aqueles desejos inesperados de ir ao encontro daquele excerto que se leu, daquela informação de que se precisa. 
Em rigor apenas careço ter para fruição constante uma biblioteca, por isso acabo por ser em relação aos livros que a integram forçado proprietário.
Desta feita foi uma colectânea de dispersos de Leonardo Coimbra, uma vez mais compilados por  Pinharanda Gomes, que já havia organizado para a editora Verbo, sob o apadrinhamento de João Bigotte Chorão, vários volumes com a mesma natureza e do mesmo autor.
Estes têm uma vertente interessante. Recolhem o dito e o ouvido e que a imprensa reproduziu e seguem a fita do tempo e assim a vida interior do magnífico tribuno. Por ali se alcança a sua evolução espiritual, ele que, nos primórdios do republicanismo afirmou, gerando ondas de incompreensão - e na rebentação das tempestades que gerava vogava sempre mais ousado, o Céu como limite - que se para ser republicano tivesse de ser ateu não seria republicano.
Como se sabe a questão da sua "conversão" à Igreja Católica ainda hoje abre lugar a ser questão, num mundo binário em que se é por Deus ou contra Deus. É que, estando em presença de um ser tumultuoso, aquele encontro sacramental com o Padre Cruz, seu confessor, não é que pudesse ser parte de um caminho cuja trajectória viesse a alterar; é que nunca seria nele a vulgar submissão ao que muitos se vergam, a dogmas tidos por intemporais, a catecismos de discutível vigência, à pobreza da prática ritualista e suas ladainhas sem o exaltado orar da plenitude do coração.
À sua conversão, que segundo as suas palavras «não foi obra de uma ilusão sentimental, nem de leviandade, nem de oportunismo ou coacção de espírito», seguiu-se o «matrimónio eclesial». 
Tudo ocorreu vivendo a tragédia de um filho em congestão pulmonar há meses.
Insólito Destino. Por lapso o assento de casamento, ministrado pelo Pároco de Cedofeita, a 23 de Dezembro de 1935, foi lavrado no Livro de Óbitos da Paróquia de Santo Ildefonso. Símbolo fatal: dias depois, um desastre de automóvel levá-lo-ia ao encontro com a morte. A 1 de Janeiro de 1936 escreveria num apontamento que a Universidade Católica do Porto guarda: «Meu Deus! Com o coração inquieto mas a inteligência serena faço-Te esta súplica: Se a doença do meu filho tivesse de ser fatal, aceitai a minha vida por a dele e só Vo-la peço até o educar e poder deixar o indispensável a minha mulher».
É regra: aquele que quer o que Deus quer, de Deus recebe. Morreria no Hospital de Santo António do Porto. O Conde de Aurora dele escutaria as última palavras: «Ofereço minhas dores a Nossa Senhora, pelas melhoras do meu filho».

16.6.12

A fisionomia do lugar

É um outro mundo aquele que se encontra quando se largam as amparas do positivismo, mundo de profundidades, em que o intelecto se densifica pelas grutas de onde escorre a nascente primordial dos mares discursivos, mundo de planuras em que, alada, a consciência sustém a respiração para que se não perca a milagrosa sensação do que é novo.
Mundo em que não só o cérebro mas a totalidade do ser são convocados para a aventura da descoberta do outro e de si mesmo, em que o silêncio e o recolhimento são formas última de reflexão, lugar místico de interiorização do todo através da redução ao nada.
Pressenti tudo isto ao ler esta manhã algumas páginas do livro Da Urbe do Burgo, colectânea de artigos que entre 1960 e 1970 publicou no jornal O Primeiro de Janeiro. A cidade do Porto dá contexto aos escritos que, no entanto, seguem para além desse acanhado referencial.
Poucos repararão que a esta figura polémica e polemizante se deve, em colaboração com Raúl Proença, seu criador, a conclusão dos tomos Guias de Portugal, editados pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Pois foi aí que o li. Quando saí, restituído à pequena floresta em que se substancia o seu jardim, parámos extasiados, a vê-la, vigilante, uma compenetrada pata, aquele bamboleante andar característico de palmípede, a seguir o irrequieto debicar marchante da sua ninhada. 
«Um terreno, quanto mais duro e ingrato, mais propício é à aparição, aparentemente teratológica, de uma realidade prodigiosa», escrevera ele, porque o milagre tem a fisionomia do lugar, sobre a «fogueira espiritual» que os da Renascença Portuguesa haviam lançado sobre Portugal, a partir do meio «sonolento e húmido» do Porto.

13.6.12

Dionísio & Leonardo

Trouxe três da Biblioteca Pública. São sobre Leonardo Coimbra, escritos por Sant'Anna Dionísio. O primeiro, opúsculo, escrito a 15 de Fevereiro de 1936 e lido em Vila Real, ampliado, na versão que estou a ler, para uma segunda leitura na Casa da Imprensa e do Livro a 31 de Março desse ano. Edição inicialmente de autor, depois sob a chancela da Livraria Chardon de Lello & Irmão, Editores, publicado em 1983. O segundo, mais extenso, em oitavo, tirado nesse mesmo amo, não querendo ser uma homenagem, é antes acto de dedicação espantada ante o pensamento do Mestre. O terceiro, editado pela Imprensa Nacional dois anos depois, é obra de tomo, biográfica e analítica.
No alfarrabista João Soares encontrei na montra dois, comprei um, com a nota de vinte que trazia, trazendo cinco de troco, a amabilidade impagável. É sobre o Porto, onde tudo se passou neste dia, feriado em Lisboa. Chama-se Da Urbe e do Burgo.

P. S. O desenho que o retrata, ao autor de Pensamento Invertebrado, é de Carlos Carneiro.

7.6.12

Os lugares inferiores: o dito e o inventado (4)

É mais um excerto, o quarto, do texto que escrevi para a apresentação de O Príncipe de Maquiavel. Nesta parte um sobrevoo pela obra.
 
Deste livro tem-se amiúde feito tudo menos lê-lo; e muitos dos que o leram tresleram-no.
O primeiro equívoco resulta logo ante o título, pois é enganador, parecendo tratar dos que têm sangue azul, quando se refere, afinal, àqueles que governam pelo mando próprio, sem assembleias que os tolham, ou seja, por uma forma que se chamaria não republicana de governar. É que a nomenclatura mudou muito desde então[1], tal como o próprio nome do livro: na versão inicial Maquiavel chamou-o De principatibus [acerca dos principados] e só depois o nome terá passado a ser aquele pelo qual é conhecido presentemente. Maquiavel trata aqui dos principados como em outro momento tratou das repúblicas; e não ignora, como escreveu num outro texto Sobre a Reforma da Constituição de Florença, minutado a pedido do Papa Leão X, que «as monarquias sólidas são aquelas em que a deliberação é de muitos e a execução de um».
Para um leitor que se proponha lê-lo, vale a pena deixar breve apontamento sobre aquilo de que se trata, não sem antes notar que Maquiavel tinha pensado, como exprimiu na já tão citada carta a Vettori de 10 de Dezembro de 1513, dedicar a obra a Giuliano de ‘Medici [1479-1516], filho de Lorenzo «O Magnífico», duque de Nemours, um «príncipe novo», que havia restaurado o domínio dos Paleschi em Florença; mas, morto aquele, o livro acabaria por surgir com uma extensa dedicatória «ad Magnificum Laurentium Medicem», o jovem Lorenzo (Júnior) [1492-1519], filho de Piero de ‘Medici, neto de «O Magnífico» seu antecessor homónimo, sobrinho do Papa Leão X, que seria duque de Urbino em 1516.
A obra está dividida em vinte e seis capítulos, cada um com o título em latim. A sistemática não é muito coerente, mas nisso não diverge do que era uso na época: a princípio parece que se vai seguir um certo rigor académico, porque nela se aborda, no início, de quantas espécies são os principados e de que modos se adquirem, para se seguir um capítulo II sobre os principados hereditários e outro, o III, que trata dos principados mistos. Sucede que este ordenamento sistemático só é retomado no capítulo IX, onde se fala do principado civil, saltando-se para o capítulo XI referente aos principados eclesiásticos. Pelo meio fica a sombra assistemática de capítulos de título tão descritivo como o IV, chamado extensamente «porque razão o reino de Dario, conquistado por Alexandre, não se rebelou contra os sucessores deste», ou o capítulo V, intitulado «de que modo haverá de governar as cidades e os principados que, antes de serem ocupados, viviam com leis próprias». Mas descontemos este desalinho que foge aos cânones do silogismo aristotélico, em que as metáforas naturalistas surgem como forma de expressão de verdades que o livro pretende sugerir e a que o carácter aberto de alguns dos conceitos operativos utilizados retira rigor e objectividade. O estilo é, sobretudo no capítulo final, como alguém já referiu, a tradução literária do «pathos ardente» do seu pensamento, a argumentação persuasiva de uma causa, mais do que uma expressão fria e cerebral.
Do ponto de vista da lógica discursiva do respectivo enunciado, O Príncipe procede por um caminho mais ou menos uniforme: formula leis gerais, à guisa de conselhos, e apoia a sua demonstração em exemplos históricos que legitimam a sua verdade, numa lógica de prova pragmática.
Em termos contemporâneos, a leitura ressente-se: um leitor menos ilustrado tende a passar adiante a exemplificação erudita, até por não ter elementos de cultura histórica suficientes para infirmar as teses que nesses exemplos se apoiam, e prossegue como se caminhasse por sobre pedras em profundo rio, saltando de proposição em proposição, anotando das frases as mais sugestivas, nem sempre as mais inteligentes. Está aqui um risco que tem perseguido esta obra, como aliás este estilo: é que o refinamento literário ocorre no subtil modo de dizer, por vezes o denso pensamento escondido numa frase discretíssima, como a de Cipião quando disse haver no Senado romano «muitos homens que sabiam melhor não errar do que corrigir os erros».
Vejamos pois, brevemente, do que se trata em cada um desses momentos do livro.
A lógica da exposição é que a vida política pressupõe que, quem nela quiser agir, saiba que a inteligência e a perícia de um homem de Estado passa por, sendo activo, deixar pouco ou nada ao acaso; que fundamente o seu agir futuro no conhecimento do que foi o passado; que saiba, em suma, «intelligere» antes de «agire». 
Mas que tipo de agir é este? Um agir que consiga a adequação da inteligência à força, à própria violência, que saiba que o próprio Moisés foi, para o sucesso do seu empreendimento, constrangido a cometer os massacres que a Bíblia refere[2], em suma, uma política cujo fundamento de legitimação não seja uma qualquer teologia, ou outra abstracção moral que a situe entre o bem e o mal, mas sim uma acção em perpétuo movimento cuja verdade seja, eis o critério legitimador, a avaliação dos efeitos que consegue alcançar, a verità effetuale.
Na conformação desta sua visão entram em inter-jogo dois dos pilares de sustentação da vida que estão omnipresentes no seu modo realista e, por isso, irónico de pensar: a «fortuna» e a «virtude». Se uma é o acaso e a sua sorte, a outra é o reino da vontade humana e seus méritos.
Claro que no esforço de exemplificação demonstrativa, Maquiavel encontra dificuldades tremendas, que no seu tempo deviam ser ainda mais ingentes, como no capítulo VII – dos principados que se conquistam com armas e fortuna alheias – onde apresenta Cesare Borgia, nas facetas positivas da sua biografia, quando ainda pairava na memória dos seus contemporâneos, uma outra recordação, a ensombrar-lhe a efígie. «Principe sceleratto e nefario» não são atributos com que sejam marcados, como se com ferrete de ignomínia, a sua vida e obra, pois que tais adjectivos ficam reservados, no capítulo VIII, para qualificar a obra dos príncipes Agatocle [360-289 AC], o tirano de Siracusa, e Oliverotto Eufreducci, mandado matar pelo Bórgia. É o capítulo VIII que deve ter ficado, até pelo seu título, mais no ouvido dos leitores, ao tratar «daqueles que, pela perfídia, alcançam o principado». Enuncia-se aí uma regra, a de justa proporção entre a distribuição do mal e do bem, pela qual o «usurpador» - e eis aí o destinatário da sua fala – deve fazer o mal de uma vez e o bem aos bocadinhos.
Mas que o livro não se destina a consumo de um só tipo de principesco leitor demonstra-o a circunstância de o capítulo IX ser dedicado ao principado civil, ou seja, àqueles casos em que um simples cidadão – note-se que nem sequer por linhagem aristocrática – se torna príncipe da sua pátria «não por perfídia ou outras formas de intolerável violência, mas com o apoio dos outros cidadãos», não por «excepcional virtude ou rara fortuna, mas mais por uma espécie de afortunada astúcia».
Esta forma de principado é gerada ou pelo povo ou pelos poderosos, pelo que nesta parte do livro o que se compendiam são as regras pelas quais uns e outros se conseguirão compatibilizar. Trata-se de «um príncipe dispor de um povo amigo», para que este o não abandone, sendo então os príncipes «honrados e amados» e sobretudo de ter em mente que as crises surgem quando tais principados passam «da ordem civil para o poder absoluto». É o capítulo IX, nesta parte, triplamente exemplar: primeiro, porque demonstra com clareza a natureza do conceito de «príncipe» de que se trata aqui – realidade plural tanta vezes desconsiderada como tal – depois, porque foca o modo de obter e de conservar o poder, tudo nos antípodas do odioso e do celerado a que Maquiavel surge amiúde associado; enfim, porque pensado para que os de ‘Medici o lessem, o livro contém nisto um aviso quanto aos perigos que decorrem de um poder absoluto, sobretudo quando exercido «através de ministros»: teórico da «commune libertà», eis o Maquiavel que nos surge aqui, longe daquele teórico da força e da perfídia a que muitos o reduzem. Só assim, pelo concitar do apreço e não por impor o odioso, se entende a conclusão do capítulo, referente ao modo como se devem medir as forças de todos os principados: «um príncipe que tenha uma cidade fortificada e se não faça odiar não pode ser derrubado pela força».
Chegados aqui, pensamos que continuar ultrapassaria os propósitos de uma apresentação.
O leitor, se tiver ficado convencido e sobretudo se tiver alargado a visão com que lerá o livro, prosseguirá capítulo após capítulo, uns atípicos e aparentemente fora do tempo, descarrilando do fio condutor da exposição, outros de leitura absorvente, até pela sua actualidade. Como não reconhecer o presente quando se lê no capítulo XXII, acerca dos ministros que rodeiam os príncipes: «o primeiro juízo que se faz acerca da inteligência de um gentil-homem resulta daquilo que transparece das pessoas que tem em torno de si»; ou, quando no capítulo seguinte enuncia a «regra que nunca falha», aquela segundo a qual «um príncipe que não seja sábio por si próprio não pode ser bem aconselhado»; ou, quando, no capítulo XXV, proclama que «um príncipe que se apoia exclusivamente na fortuna está sujeito à ruína, conforme ela varie»? Eis O Príncipe. Tentámos animar o leitor a descobrir o concretamente dito por quem o escreveu e a prevenir-se quanto ao inventado pelos que não gostaram do que foi escrito, livrando-se desses locais inferiores que são os da interpretação falsificadora porque militante. Niccolò Macchiavelli, que o escreveu, deixou nele o que poderia ser o seu epitáfio: «é perfeitamente possível ser-se temido e não odiado». No seu caso, os que o odeiam, ainda hoje, quase cinco séculos depois, é porque o temem. Se calhar teria razão Villari quando, sentido o homem e compreendida a totalidade da obra, concluiu[3]: «jamais houve homem menos maquiavélico do que Maquiavel».



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[1] Um espírito britânico como o de Lucille Margaret Kekewoch [na edição inglesa deste livro publicada pela Wordsworth] estranha, por isso, que em vez de tratar de três espécies de Estado – monarquias, aristocracias e democracias – e das suas perversões – tiranias, oligarquias e anarquia – Maquiavel trate de principados e repúblicas. Moncini entendeu bem que no pensamento do Secretário a distinção entre as repúblicas e os principados é menos essencial do que a que leva a distinguir Roma, Esparta, Veneza, Florença e outras cidades-estado.

[2] A menção ao argumento consta dos Discorsi, III, 30,2.

[3] Pasquale Villari compendiou em três volumes, editados pela Le Monnier, entre 1887-1882, um estudo sobre Maquiavel: Niccolò Machiavelli e i suoi tempi. Uns anos depois [1883-1911] Oreste Tommasini editaria o seu La vita e gli scriti di Niccolò Machiavelli nella sua relazione col machiavellismo, saído em Roma, pela Loescher.