8.4.12

Lembrei-me hoje dele e de como é dos muitos absolutamente esquecidos. Um dos mais inteligentes e brilhantes da sua geração. Civicamente corajoso. Expulso do Liceu aos catorze anos, por apoiar a independência do então Estado Português da Índia.
Militante comunista e como tal quadro intelectual com funções directivas na Seara Nova e redactoriais em O Tempo e o Modo, seria o continuador de António Sérgio no que ao racionalismo deste respeita. 
Exemplo ímpar de uma visão ética da política - conheci-o através de outra referência da mesma natureza, Francisco Salgado Zenha - havia sob sua aparência fragilidade física um espírito combativo e tenaz, capaz de enfrentar as maiores adversidades. 
A sua ruptura com o marxismo não o trouxe apenas no campo político para a teorização do socialismo democrático como uma vertente avançada da social-democracia. Criou-lhe a ânsia de um pensamento que o libertasse dos dogmas ideológicos do leninismo.
Não foi fácil. Se coexistiu com a radicalização política do seu tempo e combateu a ortodoxia ideológica do Partido que lhe dera o ser na política, foi sempre pela estreita vereda da rectificação auto-crítica do seu próprio pensamento. Havia nele - no que a fisionomia ajudava - algo que lembrava Gramsci. Até a angústia existencial latente na expressão que o sorriso trocista mal disfarçava, descobriando-a.
Ligado à vida universitária progrediu, inovador, por territórios de formalismo lógico que decorriam da Escola de Viena. A consciência do tempo histórico acabaria, porém, por ocupar, tal como se no horror ao vazio, o núcleo final do seu pensamento.
Se lhe coube o papel contestado de, na política, desmarxizar o socialismos português, entre incompreensões a rondar o ódio, talvez tenha sido a justa medida do relativo da verdade e da consequente abertura à tolerância, contra o dogmatismo, que marcam a sua pedagogia. Quis traduzi-la para o País em obra, como ministro da Educação. Sem futuro, porém.
Doutorado em Ética, de uma ética «neo-utilitarista», como dela diria António Braz Teixeira, ensaiaria, na docência e na incerta escrita, uma coerência do turbilhão mental a que o seu espírito superior o conduzira.
Falo de Mário Sottomayor Cardia. 
Lembrei-me dele hoje e com ele dos tempos em que a inteligência e a moral dos dirigentes eram dois dos pilares da política, o terceiro a sua dedicação sacrificial à causa pública. 
Sim, sei, dá hoje nome a uma biblioteca na Universidade Nova de Lisboa. Talvez a uma rua. Não a um exemplo que se tenha enraizado.

24.3.12

A noite cega

Haverá uma filosofia portuguesa, no sentido próprio do termo, em que a etimologia, que nasceu de sermos tema e do nosso modo, resista à incaracterística contemporaneidade e seu sem sentido? Não estarão perdidos, no desorientado cruzamento, os marcos miliários da caminhada histórica desta Nação em interregno? Encontrar-se-ão, na penumbra da indiferença, os arcanos da Pátria, de entre os humilhantes sobejos, desbotados, de memórias desusadas? 
Que Quinto Império terá restado quando estamos aquém do espírito de que floresceu o Condado Portucalense? Que viagens de argonautas, se regressou deserta a Nau da Índia e em festim se foram as especiarias e cabotamos hoje na jangada do naufrágio, remando em noite cega?
Hipotecados até à raiz do pensamento, só no exílio mental se encontrará o alvorecer do que é nosso, sendo a essência do nosso ser.
Haverá um Portugal que filosofe para que resista a sua antiguidade?

P. S. O quadro é de Margarida Cepêda.

2.3.12

Incorpórea, a Alma viajou

Não tenho no lugar onde me encontro nenhum dos seus livros mas apenas a memória desses livros. Não consigo, diminuído pelo cansaço, reconstituir o sentir anímico que essa escrita em mim causa, aquele ligeiro roçar de asas que é uma carícia pela alma e um desabar do precário castelo de cartas da ilusória Razão. Sim o abatimento do corpo e com ele o silêncio e o florir da Criação que nela foi poética e mística e sagrado. 
Dalila Lelo da Costa anulou todas as diferenças entre os mundos em todos eles surpreendendo uma só realidade que pelo desamparo do pensamento não conseguia alcançar-se. Biografou-se pelos êxtases, situou-se num mundo cuja corografia eram os marcos miliários dos passos peregrinos. Foi a voz profética, a alma lusíada. Escreveu indistintamente sobre o invulgar e o comum.
 Não admira que uma tal excepecionalidade tenha sido esquecida porque é a forma de muitos irracionais cultores de alegado racionalismo condenarem à morte os que escapam ao paradigma das suas certezas catedráticas.
Ímpar mulher, não teve escola, foi escola, sem aulas, sem programa, puro exemplo. A religiosidade, mais do que vivência, nela foi ser. O seu Deus é um Deus familiar, o seu culto é Mariano, a sua teologia a do Espírito Santo, incorpórea, indizível.
Nasceu no Porto em 1918 e no Porto morreu. Li há pouco a notícia, o coração pesaroso.

19.2.12

O desprezo e o silêncio

No ano de 2008 a Presença pediu-me que escrevesse um texto de apresentação ao "Príncipe" de Maquiavel. Aceitei o desafio. Saiu um livro, este aqui
O que se me pediu foi apresentar o que seria uma tradução directamente feita sobre o italiano pois que as vulgares eram de segunda mão, oriundas do francês. 
Para cumprir o pedido estudei a obra e outras obras do mesmo autor e a sua biografia, a poesia, o teatro, a correspondência, o que escreveu sobre a República romana, a actuação enquanto cortesão, Secretário, escritor. 
Levei o mais longe que pude o meu trabalho, surpreendendo o apaixonado Homem onde outros haviam figurado apenas o cínico pensador. Encontrei-me na verdadeira natureza de o "Príncipe".
Descobri, ao seguir o rasto histórico da obra, que liberdade foi dada durante séculos aos seus detractores - que a partir do seu nome deram azo ao termo "maquiavelismo" como símbolo da quinta essência do mal - enquanto a Maquiavel o silenciavam, colocando-lhe os livros no Index dos livros proibidos pela Inquisição. 
Constatei a campanha dos que, citando-o sem contexto, truncadamente e falsificando-o, o usaram como pau para toda a obra. A primeira edição surgiu como se ele fosse um prócere do fascismo, a segunda como se fosse um democrata e um republicano.
Escrevi, enfim, um texto singular. Pode ser péssimo, merecer o reparo dos doutos, será tudo o que quiserem, mas tem individualidade pois nada de semelhante tinha sido escrito até então. É um texto que abriu espaço para a polémica pública porque foi uma denúncia cultural e um acto cívico de reposição da verdade. Trouxe a lume o que não lera revelado em Portugal. Citei quantos no nosso País o haviam estudado, mesmo aqueles de quem profundamente discordei. Fui às fontes originais. 
Na Casa Veva de Lima convidaram-me para falar sobre ele. Ao terminar a sessão estávamos em comunhão de ideias e de afectos. Entusiasmou-me essa noite. Mas o sinal estava dado. Tempo depois, na Faculdade de Direito, a minha Faculdade de Direito, onde estudei e tentei ensinar, organizaram um colóquio sobre Maquiavel e convidaram-me para "assistir". Não fui. Agora vejo um livro, editado pelo Almedina, intitulado Maquiavel e o Maquiavelismo onde ostensivamente me ignoram. Organiza a obra António Bento, escrevem o próprio, Diogo Pires Aurélio, João de Almeida Santos, Luís Salgado Matos, Manuel Anxo Fortes Torres, Miguel Morgado, Rui Bertrannd Romão. É um livro resulta de um projecto de investigação «financiado para a Fundação para Ciência e TecnologiaI com sede na Universidade da Beira Interior». 
É assim que se faz "ciência" em Portugal: através do desprezo e da omissão. Aquilo de que não se fala não existe. Incorrigível, não aprendo nem me calo. Porque haveria eu de acanhar-me ante o que escrevi se outros têm a ousadia de se atreverem?

6.2.12

O romantismo aventureiro

Procurava-se procurando Deus através da Igreja Católica. E escreveu sobre essa sua peregrinação interior andorinhando pela sua biografia. É um livro sincero porque mostra despojamento. E dúvida. E mostra-se nele tal como se sentia, escrevendo-o angustiado pelo tempo decorrido. E citou um verso, de um magnífico poeta. «Triste é saber no Outono que era o Verão a única estação. É isso, Ruy Belo. Triste é ter quarenta e três anos e só agora pressentir o que são opções que vão efectivamente ao fundo das coisas e que, até aqui, andámos na contra-corrente do mundo, autodidactas da própria personalidade. Agora, prisioneiros de coisas importantes, fiquei indisponível para coisas importantes».
Assim António Alçada Baptista, o «paternalista diálectico», como o apodou o João Cutileiro ou o «Pascal Petit», como lhe chamava o José Cutileiro, encontrou-se em convergência com as suas raízes. O personalismo cristão que se lhe resolveu na idade madura floresce sobre esta terra húmida e grata. E vê: «a crise da vida portuguesa iniciou-se, a meu ver, quando a civilização a pouco e pouco deixou de ser conduzida pelas linhas da intuição, do lirismo espontâneo, do romantismo aventureiro, e passou para a via da reflexão, da razão e do conhecimento».
Acabei ontem o primeiro volume. Andorinhando.

17.1.12

Os Instantes do Eterno

Os passos encaminharam-me, inexoráveis, para o livro, obra de uma biografia interior, densa, como o traçado de uma via de caminhada espiritual, assinalados os marcos miliários do seu encontro com a transcendência. 
Obra oriunda da clausura dos silêncios, na apercepção do contemplativo, fruto de «leituras de mestres da vida, mais do que mestres de pensamento».
Dalila Lello Pereira da Costa é a expressão da invulgaridade, iluminada pelo arder místico do Mistério, submissa aos dogmas como «fixações necessárias dum conhecimento revelado», esforçando-se pela constante racionalização da noética e sua simbólica.
Nos labirintos do seu modo de expressar o Verbo e com ele a Graça, fiel no seu apagamento do "eu", inoportuno e invasor, não tem paralelismo, anulando o que diferencia. 
O livro é a narrativa da trina visitação, os estados extáticos que haviam sido tema de um dos seus primeiros livros, editado pela personalista Esprit, o aprofundamento do esotérico, porta aberta pela qual penetrara, nas primícias, na personalidade ímpar e una de Fernando Pessoa; e um amor à Pátria, permanente na viagem de argonauta lusíada, Pátria que tendo-se dado inteira à Humanidade vive agora «um sentido sagrado de oblação a sua final agonia».
Foi publicado em 1999. Como quase todas as suas obras - e creio que poucas me faltam - quase impossível de se encontrar.
Profética, poética, absolutamente fora dos cânones. Exauriu-se para ser a voz. Não ousa revelar, dizendo-o.

30.12.11

Manuel Antunes, S. J.

Padre Jesuíta a ensinar numa Universidade laica e republicana, a de Letras de Lisboa, soube-se impor pela sua personalidade generosa, humilde e tolerante, pela sabedoria que oferecia como pedagogia, pela contenção da expressão. Amigo íntimo de Lindley Cintra, de Jorge de Sena, de Vitorino Nemésio, tão diferentes e tão idênticos na sua intrínseca humanidade.
Tenho dele a obra completa, editada pela Fundação Gulbenkian, que adquiri com a ânsia de a ler na íntegra um dia, e o número comemorativo da Brotéria de que foi director. Tivesse tempo começava hoje.
Faltava-me conhecê-lo. Sucedeu hoje, através do livro que José Eduardo Franco coordenou reunindo testemunhos de quantos o conheceram.
Talvez o título Um Pedagogo da Democracia seja redutor, porque a vastidão da sua pessoa sobeja amplamente a essa vertente para a qual a política é convocada.
Tenho vindo a ler os depoimentos que consubstanciam a obra sem continuidade, como faço frequentemente, ao sabor do acaso. Terminei agora o de Manuel Ferreira Patrício, que foi Reitor da Universidade de Évora. Doutorou-se com uma tese sobre Leonardo Coimbra. Manuel Antunes orientou-o até mais não poder. 
Amigo e vizinho de António Telmo, pela mão deste conheceu Álvaro Ribeiro. Iniciou-se assim nas filosofias nacionais. O tema de investigação surgiu-lhe como experiência de vida. Num dos encontros para a preparação do trabalho, Manuel Antunes sugeriu-lhe que «a dimensão do Amor era fundamental na obra e no pensamento de Leonardo», o autor de A Alegria, A Dor e a Graça. Porque o mistério do ser só se entende com o coração, em intimidade com o existente, abarcando-o como coisa nossa. Torna-se o amador na coisa amada, a unidade do sinto logo existe, existo enquanto sinto.

19.12.11

A vigília permanente

Confessa-a no terceiro volume da segunda série da sua Conta Corrente, quando, enfim, a França o galardoou e o pesar da idade o torna prisioneiro da ânsia de prémios, recebido o da Europália, frustrado o Nobel, a ascendência que a França teve no seu pensamento.
Pressente-se isso no pendor que a sua obra de ficção teve para a tragédia absurda da condição humana, e por essa via, a absorção do que se convencionou designar de existencialismo, mais sartreano no seu caso do que camusiano. 
Só que não consegue desligar-se do húmus pátrio e com isso o cosmopolitismo dói-lhe, enquanto blague e pose, como uma superficialidade de salão e alerta-o como arquitectura concentracionária e enquanto segregação racionalista rasgando tudo aquilo de que o seu ser está embebido, a sensação nostálgica colhida na neblina das serranias da sua Guarda, a indiferença contemplativa ante a aridez sufocante de Évora cidade, a rotina liceal conformada do seu Camões, a vigília permanente, sísifica da sua escrita.
Nisso, e cito tudo isto de cor por preguiça de ir buscar livros que cite, Vergílio Ferreira é um filósofo da portugalidade, porque tem da Pátria a terra no pó da sua existência discreta, e a ausência de abstracções como personagens ou de generalizações como ideias. Tudo nele é o que é e assim é que é, numa helicoidal de angústia e assim sucessivamente.

17.12.11

O destino rasga e cose

O meu envolvimento com a chamada «filosofia portuguesa» [essa corrente do pensamento que muito do academismo ainda hoje desconsidera e apouca] deu-se através do António Quadros, primeiro pela síntese que ele fez dos vários afluentes desse grande delta do sentir filosoficamente a essência saudosa do ser, depois pela cruzada própria que travou até ao fim pelo espírito de 57]. Simultaneamente chegou-me o Jesué Pinharanda Gomes, a sua obra própria e a intensa e humilde actividade divulgadora e formativa. A partir daqui fui-me espraiando, como quem dá braçadas contra a corrente do "racionalismo" contemporâneo e seus demónios materialistas. 
Olhando para o que reuni como biblioteca e para o que li, o défice é imenso e profunda a minha vergonha ante a indesmentível iliteracia. Faltam-me números da Nova Águia, já não consegui reunir todos os que Leonardo Coimbra escreveu - nem acabei de ler o seu A Rússia de Hoje, o Homem de Sempre - do Sampaio Bruno está quase tudo por ler, do Pascoaes, sim, li e reli A Arte de Ser Português, mas ainda hoje sinto o incompleto da alma imperfeita ao tomar nas mãos tudo quanto escreveu a Dalila Lello Pereira da Costa. Vadiei com o Agostinho da Silva, tertuliei com os escritos do Orlando Vitorino, mas nunca li uma linha que fosse do Afonso Botelho, fui relapso aluno dos Estudos Gerais do Álvaro Ribeiro e da sua obra.
Tantos houve e há, os ligados ao Direito como o António Braz Teixeira, meu colega docente nos idos anos pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica [ele a perder-se pelo Direito Fiscal, imaginem, eu pelo Processo Penal, acreditem!], o António Telmo, e os que não refiro por aquele sem-razão de não haver queixa nem amor mas esquecimento de escrita improvisada, que simplesmente folheei.
Esta manhã acordei com ganas de retomar caminho. Vim a este blog olhar para a lateral onde está o arquivo e ver quanto abandonei, para rever o que foi, afinal, a reconstrução da minha essência. Em tempos voltei à silva florescente de blogs que surgiram sobre o esse Graal que é a ideia íntima de Portugal, para sentir o pudor pelo meu mundo por fazer.
Há muito que deixei de acreditar nas organizações humanas como forma de se alcançar a essência do oculto. Foi mundo que tanto se profanizou. Os joelhos descarnados no gélido chão que vi numa Igreja Ortodoxa russa, as lágrimas a escorrerem por uma face engelhada, foram mais símbolo do que rituais mecânicos de profissões de fé já sem esperança de gente sem caridade com que diariamente nos debatemos, nomeadamente das vezes em que os corpos de amigos são encomendados à ladainda do «e que descansem em paz Amen», os circunstantes enfastiados fumando até que passe o tempo anedótico de estarem ali; para não falar nos esoterismos vários ao alcance dos super-mercados livreiros, mescla de magias e sortilégio ao desbarato e de terapia alternativa para almas desemparelhadas.
Não me guiando pelo relógio do Sol há muito que me norteio pelas fases da Lua. No dia vinte e quatro de Dezembro próximo comemoraremos o Milagre da Criação. Não o bíblico, mas o íntimo, o fogo do lar aceso, aquecendo-nos o coração, iluminando-nos o caminho, o território do Amor.

15.11.11

Pinharanda Gomes

Fui há anos à sua casa em Santo António dos Cavaleiros entrevistá-lo. Modesto, discreto, quase hesitava em produzir uma que fosse afirmação definitiva. Tratei-o por «doutor». Disse-me que o não era. Como nos acompanhava uma estante de livros sobre teologia tentei corrigir, afirmando que seguramente teria estudos no Seminário (como tantos do seu tempo). Disse-me que também não. Era um auto-didacta. As tertúlias de Lisboa tinham sido, nos cafés, a sua sala de aulas. A Filosofia Portuguesa o seu amor.
Trabalhava na Massey Fergunson na venda de tractores. Estudara nas horas livres, pela noite fora. Lera na Biblioteca Nacional no tempo em que ela abria à noite. Tirava à boca para comprar livros. Instruía-se sempre. Escreveu nem sei quantos livros. Tentei encontrá-los todos. Teve a gentileza de me oferecer alguns. 
A entrevista era sobre tudo e sobre nada. A minha ignorância impedia-me de formular as perguntas certas, a sua sabedoria vedava-lhe respostas simples.
À saída mostrou-me uma pequena gaiola, extasiado ante uns passarinhos e os ovos que chocavam. A vida cumpria-se. Uma vez cruzei-me com ele na Lapa. Ia consolar o Orlando Vitorino, fazendo-lhe companhia.
Nasceu em Quadrazais, mas renasce como exemplo no coração de cada um. Um dia um jornal, creio que o Diário de Notícias, perguntou-me qual foi a pessoa que mais me impressionou. Disse: Jesué Pinharanda Gomes.
Hoje, em viagem, leio esta notícia: O Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) atribuirá, no próximo dia 19 de Novembro, a "Medalha de Mérito Cultural" a Jesué Pinharanda Gomes, um dos mais importantes nomes vivos da Filosofia Portuguesa. A cerimónia de homenagem realiza-se pelas 19:00 na Sociedade da Língua Portuguesa (SLP), em Lisboa. A entrada é livre.

17.10.11

A metamorfose do ser

Talvez porque o mundo das obrigações hoje pese, ou as preocupações tenham, porque aliviaram nalguma das suas frentes, gerado o vazio e com ele o cansaço, ou porque um homem não é só o que tem de ser mas é mais, quanto mais, aquilo que gostaria de estar a ser, e há tanto mundo que não se vive, lembrei-me dela: Dalila Lello Pereira da Costa. 
Tão poucos a conhecem. Sim, sabem-na os da Filosofia Portuguesa. E juntei-a, eu, à sua obra, tomo a tomo e vivo agora o receio de me faltar qualquer escrito menos conhecido ou que a minha ignorância desconheça.
E fui buscá-lo, ao livro A Força do Mundo, que editou em 1972 e creio já citei aqui, porque trata do êxtase da alma, o decapar a personalidade até à transpessoalidade. São «iluminações, sonhos, visões, intuições poéticas», a metamorfose, enfim, a possessão.
Vejo que nem esse livro acabei e queria lê-lo todo. Felizmente «o tempo não passa, não é linear, mas esférico, como o espaço». Por isso esta noite continuo até o mais tarde que puder e amanhã começo o mais cedo que conseguir, circular a vida.

27.8.11

Retomando estrada

Nenhum homem é homem sem a alma a animar-lhe o corpo, como fogo que seja a causa do fumo. Nenhuma alma sobrevive sem alimento, nenhum outro alimento nutre e fortalece salvo o da filosofia. Nenhum homem é vivo sem ser da Natureza uma parte, nenhum ser existe fora da sua Pátria, nenhuma alma filosófica me preexiste que não possa ser a da filosofia da terra portuguesa. Foi por ela que cheguei aqui, folheando em arroubos Leonardo Coimbra, tacteando, pedagógico, Álvaro Ribeiro, dispersando-me por Pinharanda Gomes e sistematizando-me em António Quadros. Depois foram todos os outros, coleccionando angústias com o Fidelino Figueiredo, passeando, incerto, com o Agostinho da Silva e tantos e tantos mais: Orlando Vitorino, José Marinho, Fernando Pessoa... Não quero mencionar mais nomes porque não quero esquecer-me de nenhum nome, nem quero que se note que me falta conhecer tantos nomes. 
Esta manhã reencontrei a Nova Águia e dei conta que há vários números que a perdi. E a partir dela fui a esta obra de amorosa dedicação, uma bibliografia para quem quiser iniciar-se e complementar-se. E senti, como um pulsar cardíaco, vontade de seguir em frente pela longa caminhada, retomando estrada.
Acordei, pois, de uma longa sonolência, a força da luz a iluminar-me a existência.

9.8.11

O mundo e os seus intérpretes

A ideia recolhia-a numa entrevista que a Maria Filomena Molder deu à revista Ler. A conversa não saiu fluente e a própria pergunta-se quanto a terem sido, entrevistadora e entrevistada, demasiado abstractas. Há, porém, um momento em que um princípio é ilustrado por um exemplo. E embora a exemplificação não seja a mais digna forma de enunciar uma ideia ou de a demonstrar no caso a sua força ilustrativa ganha corpo.
Trata-se das declarações que são, logo que proferidas, comentadas imediatamente pelo entrevistador, o que é o caso das afirmações oriundas do território da política. O efeito do fenómeno é a anulação da distância e a geração da instantaneidade do efeito. O destinatário do dito nunca a chega a ter intervalo para meditar no ouvido e para formar uma opinião sobre o escutado pois logo o comentador surge a apontar como um sinaleiro o sentido único da interpretação e o desvalor de interpretações em contrário.
Claro que como há, e a tanto alude também a entrevistada, "comentadores de comentadores" o mundo resolve-se entre os seus intérpretes.

12.7.11

Folclore ideológico

As circunstâncias adversas, a mobilidade reduzida. O livro imenso, pesado, 1029 páginas, letra miúda, espaço apertado entre as linhas, como objecto de difícil manuseio. Mas há muito que cortejava.
Doeram-me as gralhas, e dei logo com umas quantas, inadmissíveis num livro da Imprensa Nacional. É o Pensamento Português Contemporâneo, 1820-2010 de "Miguel Real", o pseudónimo literário de Luís Martins. Tiraram-se oitocentos exemplares, o que mostra que há tão pouca gente interessada no pensamento português, ainda que contemporâneo.
Comecei por capítulos quase finais, o dedicado a António Quadros e a Dalila Lello Pereira da Costa, esta «autêntico mito vivo da filosofia portuguesa», quase desconhecida salvo por um pequeníssimo círculo, aquele com obra «envolvida por artigos de panegirismo de companheiros e amigos das lides filosóficas», «remetida para o limbo do "folclore ideológico"».
Miguel Real organiza a sua obra - que compila um seminário que leccionou na Faculdade de Letras de Lisboa - antecedendo-a de uma apresentação. Categoriza o mundo do pensamento entre o «providencialismo messiânico da Igreja e do Estado» e «o racionalismo e empirismo europeus» e quanto às modernidades que deram ao todo a dinâmica da singularidade separa os vanguardismos - todos os movimentos culturais, políticos e sociais do século XX de alto valor prosélito, providos de instituições e órgãos, cujo objectivo máximo seja, não a "reforma de mentalidades" (...) mas a tomada política do aparelho de Estado - dos modernismos - - afinal «todos os movimentos culturais portugueses, de baixo valor prosélito, de índice grupal, não raro sobrevivendo isolados, despercebidos ou repugnados pela mentalidade dominante, apenas providos de órgão informativo, cujo objectivo máximo consiste na expressão individual estética e/ou na "reforma das mentalidades" por via da difusão de novos conhecimentos e novas atitudes culturais».
Livro interessante, compêndio, há, porém, a desdentá-lo o feio das generalizações. Falando da Universidade refere-a como «casa do saber transformado pelos positivistas da I República e os professores acéfalos do Estado Novo em casa de elite decepada de inteligência». Ora houve, mesmo com o Estado Novo e no Estado Novo, gente com inteligência, saber e cultura de excelência, pelo que esta indecência qualificativa é cientificamente errada e culturalmente vulgar. Tem apenas a vantagem de ser "popularucha" e como tal levar o autor à glória fácil. Não havia necessidade. Já nem cito o que diz da Igreja e do Estado, porque se intui do excerto. Mas entristeceu-me ler o que li.
As circunstâncias eram adversas, eu sei, trazerem-me o livro foi um carinho, começar a lê-lo foi um esforço. Mas confesso que o tomei nas mãos com respeito e apreço. Nada no que nele é magnífico fica em causa. E sobretudo tudo o que nele há de útil fica salvo. Vou tentar lê-lo todo apesar de imenso. Mas é um repto.

4.7.11

Os mundos por haver

Não é historiador mas interroga a História porque, tendo aprendido com os orientais a sabedoria como forma de saber, está consciente de que o passado é incerto.
Ao ouvi-lo no domingo, em Constância, lugar de enigma e território de dúvida, retive aquilo de que faz método. a existência de uma "verdade intuitiva".
Para quantos viraram as costas à arrogância do cartesianismo e seu racionalismo ilusório, que faz da coerência critério e do pensar preâmbulo de ontologia, está ali o caminho e o destino. É a terra mágica da adivinhação e do pressentimento, lugar de poetas e de astrónomos, os que têm os olhos no céu e nos ouvidos a música das estrelas.
Talvez seja a certeza íntima do caminho certo que conduziu Bartolomeu Dias e a ponderação dos ventos que o fizeram arquear o rumo em viagem, largando o funesto bordejar da costa africana Sem isso não tinha havido Índia nem o sonho de embarcar, nem gesta de Portugueses ou os mundos por haver.

1.5.11

Filosofia Extravagante

Reencontro-me hoje com os Cadernos de Filosofia Extravagante e neles com a asserção «Não há filosofia portuguesa porque aquilo que há não é uma disciplina». Discutível porque problemática, é a reedição da questão que tem mais do que cinquenta anos. Haverá uma filosofia que seja a dos portugueses, ou uma filosofia para questões que sejam as de Portugal? E se sim a qualquer delas porque teria de ser uma «disciplina» com o que tal significa de regra e cânone e ordem e sistema? E se não porque será não só por não ser disciplina.
Reencontro-me hoje com os Cadernos de Filosofia Extravagante e neles com um estudo de Cynthia Guimarães Taveira que é um reflectir sussurrante e tranquilo sobre o amor à sabedoria, entre a afirmação do ser e do não ser, do que é do que não está.

15.12.10

Rumando ao mar

Talvez uma mística, encontrada nos labirintos do ser, como um gorgolejar espumoso de lava que explodisse, incontida, a irradiante luz, estrelar, a reflectir-se em meteoritos alucinantes, ou decifrada no murmúrio de uma prece, como símbolo a símbolo, na lápida de uma recolhida capela, que a corografia sagrada explicasse, se encontrasse a chave da Tradição e a carta de marear rumo ao Futuro seguindo para Nascente.
Talvez num espinhoso refúgio, no matagal esconso onde nenhuma patrulha da Ordem chegue e o fogo do Império não arda nem nenhuma febre de domínio ou desejo de território.
Talvez na individualidade dos poucos portugueses sem sonhos de Índia ou pesadelos de Europa, aventureiros naquela e nesta mendigos e na sua própria casa hóspedes dos seus.
Talvez nem aí ou em lugar algum e apenas no momento topográfico impossível por ser o da não intersecção do tempo e do espaço, surja o Vazio e com ele o Absoluto e assim a possibilidade de reinício, esperança do tudo o que há e fé no que poderia ter havido.
No final principias, tornado outro. Moribundo o Estado, agonizante a Nação, a alma de Pátria renova-se com o nascer da primeira caravela. Rumando ao mar aumentámos o Mundo. Na praia da memória, fiam-se as redes da História, viúvas dos que não voltaram, saudosas dos que poderiam tê-las levado, mães prováveis de ventres irrealizados.

12.12.10

Um Deus risonho

Hoje o Senhor Deus veio ao meu encontro na forma de «A rosa é sem porquê». Porque esgotada a cega confiança no determinismo e sua causal consequência, em nome do qual nascem todos os deveres para que resultem, certos e seguros, todos os benefícios, perdida, errática, a crença ante o probabilismo e sua possível decorrência, por causa do qual se joga em todas as roletas para se obterem todas possíveis as fortunas e mesmo as quase inatingíveis, ficou-me, como resíduo de esperança e território de fé a terra de ninguém das convicções que a Terra oferece e o Céu promete.
Li-o, então, ignorante que não tinha reparado nele. José Tolentino Mendonça trouxe-me pelo riso, a oportunidade do divino. No mundo dos deuses, o Seu, brinca, o pulo para o infinito afinal um saltar à corda, como a eterna criança que jamais fosse Aquele que os homens pregariam na cruz, do Pai esquecido e sem Mãe que o consolasse.
O livro chama-se «O Hipopótamo de Deus», o diálogo com Job, a teologia no fio da navalha, o Todo Poderoso nivelado ao Diabo, iguais no divertimento, como jogando ambos, perversos, aos dados, sobre a espoliada criatura e sua alma que à danação fora condenada e à sua estrumeira.

21.11.10

A crise

Li isto ontem, tarde de sábado, na Sociedade Harmonia Eborense. O tema, a crise. Juntos, Ricardo Paes Mamede e Manuel Branco e uma assistência interessada e amigável. Uma tarde memorável. Obrigado a todos. O texto corresponde ao meu sentir mais profundo


A ideia de crise está presente no vocabulário do quotidiano, nas notícias, no subconsciente de cada pessoa. Chegou mais evidente às economias individuais e aos orçamentos domésticos por efeito do péssimo momento do sistema financeiro, em ameaça de “crash” com todo o cortejo de lembranças por loucos anos vinte.
Mas ela é omnímoda, generalizada. Fala-se na crise da instituição familiar, na crise do sistema educativo, na crise de valores, na crise da justiça, da autoridade, de crise da língua ante o novo Acordo Ortográfico.
Ante um tal panorama é de admitir que estamos a assistir a uma decadência de civilização, mais do que à agonia de um sistema de organização social.
Outros, biblicamente apocalípticos, vaticiam o fim dos tempos, o surgimento da Besta 666, a crise da própria existência.
Um destes dias uma daquelas revistas coloridas que têm muitas páginas de praticamente coisa pouca a propósito de tudo o mais, titulava na capa “2012 o ano do fim do Mundo”. Estamos lá quase, aproveitem para a orgia final com a vida os que ainda não morreram por dentro, ainda que já aparentemente mortos por fora. Mas os media simplificam o verosímil e o leitor toma o plausível não como possível mas como certo.
E a crise ganhou assim contornos necrológicos.
No meio deste despautério verbal, em que a realidade denotativa – o território da substância que os conceitos exprimem e as definições enunciam – é incrementada pela quase ficcional realidade conotativa – esse mundo extenso dos “a propósito” – e em que os mundos periféricos das falsas analogias são chamados a aumentar o mundo nuclear das ontologias conhecidas, assim como os aterros criaram a Holanda, é caso para dizer que em matéria de crise o panorama é, de facto, crítico.
Chegados a este ponto abissal e agónico que poderei eu dizer que ainda valha a pena ser dito?
Convencer-me, em primeiro lugar, problematizando o problema, e ante alguma supresa talvez, que a crise não é uma questão problemática, sim a solução. A desagregação dos sistemas é a forma pela qual a sua entropia gera novas formas adaptativas de organização, a crise é o momento em que a síntese se atingirá pela dialética da antítese.
É assim, num exemplo macroscópico, com os sistema galácticos que explodiram no cosmos, os sóis que se apagaram gerando universos gelados, de que nos chegarão partículas milhões de anos depois. Foi graças a isso tudo que a Terra surgiu e nós com ela.
É assim com o mosaico europeu que trouxe e levou o Império Austro-Húngaro, a Prússia e o Reino de Leão, a cidade de Cartago e o Reich dos Mil Anos, o Império Romano e Terra do Preste João, as Repúblicas, Ducados e Principados do que hoje é a Itália do novo Calígula, um mundo de fantasia e de precariedade.
É assim com as patologias do espírito quando a loucura vem a gerar novos patamares de lucidez incompreensível, cujo solilóquio só o seu falante autor entende, ou as bizarrias equizofrénicas da escrita em implosão verbal, sem pontuação e sem nexo, levando à glória o inenarrável e o irrepetível e gerando assim Literatura e a sua contemporaneidade.
É assim quando a Natureza, num espirro de constipação telúrica, ocupa o espaço a que tem direito, levando pela frente, em lava ou aluvião lamacento, tudo o que de humano se construiu, mundo precário, afinal raquítico, em suma liliputiano.
É sempre “em forma de assim” que a crise de tudo gera o nada, de onde o todo surge. O futuro é, desta forma, apenas uma forma de encontro da desagregação do passado, o ponto provável do seu novo equilíbrio.
Se Deus existir e tiver sobrevivido a Nietzsche, ele não é o ponto inicial do qual tudo emerge, sim o ponto final para o qual tudo converge, espécie de buraco negro no qual a existência se afunda, em remoinho, para se reorganizar, como em cadinho alquímico, vida morta gerando vida, o ser primordial a ser semente e rosa e fruto da criação.
Mas mais do que aquele optimista convencimento se trata. A haver crise, ela é, antes de qualquer outra, uma crise existencial, antroplógica, inerente mais à pessoa do que ao indíviduo, mais densa do que a do cidadão.
Vejamos, em retrogressão mental, este mundo. Crise de cidadãos, primeiro.
A crise da cidadania revela-se, em primeiro registo, no baixíssimo nível de participação na vida cívica: não é só a escassa millitância em causas públicas, é mesmo a cada vez mais alta, e progressivamente mais esmagadora, taxa de abstenção nos cada vez mais passivos actos eleitorais, em que a Nação é convidada a referendar as escolhas das cúpulas partidárias, a que não tem acesso, e a quem se hipotecou, progressivamente menos confiante.
Há hoje, sob a República, democracia formal mas não há movimento democrático. Os partidos de Governo escolhem os seus deputados. A democracia esgota-se no acto de voto, como o poder do dono no acto de emitir a irrevogável procuração. Ao sufragar, o eleitor aliena vida, suicida-se civilmente. A urna eleitoral é o esquife da sua morte cívica. O dia de eleições é o do cortejo da preguiça. A partir dali o governo da cidade passa a ser coisa dos empregados do poder. A venda do voto é o primeiro acto de corrupção.
Mas não só: a ideia da evasão fiscal como acto de legítima defesa cidadã face a um Estado predador e depreciador é outro sintoma característico do ocaso do civismo, tal como o progressivo divórcio entre o corpo eleitoral e a classe representativa que ele elege. No primeiro caso, sente-se o Governo como uma alteridade, o terceiro pagador e pai de todos os possíveis subsídios, no segundo sente-se o poder político como o fruto de uma escolha libertadora, primeiro, e de um desprezo catártico logo no dia seguinte a ser escolhido.
Não é o Estado supra-colectivo, é o Estado infra-individual aquele que construímos. Desprezamo-lo, ao Estado, como a inimigos, consideramos os que para ele elegemos como gente de segunda, só porque sim. Faz parte da cultura de quem votou pelo poder estar na oposição, como higiene e como caução para o futuro.
Bloqueado o sistema pela sua própria natureza hipócrita, nele a falta de expressão política por participação cívica substitui-se pelas manifestações de rua, como tentativa de indignada pressão colectiva.
Assim como a cólera é a raiva dos fracos, muitos dos que se revoltam fazem-no apenas porque incapazes para a revolução. A agitação simula a mudança.
A patologia da democracia representativa é a a alucinação epilética dos seus actores que faz dos espasmódicos tumultos de rua sintoma de doença através da ilusão da cura.
Limitada a democracia pelo sistema partidário, aprisionado o sistema partidário pela cacicagem que o domina, aquela acaba por ser, não apenas a expressão do indiferenciado maior número mas sobretudo a ratificação, sem alternativa, do sentir da imensa minoria que, em esquema rotativo, forma o bloco central de interesses que domina o Estado e assim governa a Nação, dela se aproveitando.
Trata-se, no que à imediata crise de hoje respeita, de uma crise financeira, derivada da hipertrofia do mercado especulativo de capitais sobre o aparelho de produção dos países.
Crise do capitalismo, diga-mo-la, inerente ao seu modo de produção, tem o seu epicentro nas contas públicas e no sistema bancário – como cerne que são da capitalização – e só tem, na lógica monetarista do sistema que nos governa, uma única solução, a da sobrecarga tributária sobre as forças produtivas mais indefesas, tendo em vista a colecta forçada e expropriadora para o reabastecimento do mercado com os meios de liquidez de que carece para a sua sobrevivência e que se vai buscar ao aforro privado ou quando ele já não há, ao exército de reserva do desemprego forçado.
Crise de cidadania, a presente é também a crise do indivíduo, a qual se gerou com a desagregação das relações sociais.
À imagem de marca do individualismo burguês sucede na contemporaneidade a do individualismo pan-proletário, o generalizado individualismo.
À sociedade de massas sucede a atomização social. A passividade consumista, o amorfismo intelectual, a anomia moral, a atrofia do gregarismo, são hoje as características da pulverização social em que se caíu.
Molecularizada, a sociedade torna-se mero somatório estatístico, em que à personalização segue a numeração. Cada um é o número fiscal, o do BI, o código do cartão bancário, o da password sem o qual o mundo cibernético se torna promíscuo, inseguro e devassado. É pelo simples número que o mundo da informação sabe quem sou o complexo eu.
Realidade digitalizada, tudo se decide hoje na base do inquérito e da sondagem, à diversidade do ponto de vista corresponde a padronização da resposta-típica.
A opinião tornou-se a resposta a um questionário em quadradinhos.
Certa matemática ocupou o lugar da poética e da música, e na matemática não passamos da aritmética, sociedade de adição, de subtração, de multiplicação, de alguma divisão. Tudo passou a ser mensurável, por isso tudo passou a ser contável, pior, comparável. Num mundo de fracções a ânsia tornou-se encontrar o menor denominador comum. O abaixamento do nível médio é a perversa consequência do desejo da redução do múltiplo ao uno.
As redes sociais, essas aparência de comunidade e de aldeia global revisitadas, são hoje janelas de comunicação de solidões desencontradas.
A imediatividade discursiva que a net permite gerou o nada comunicacional, reiterativo, em cíclico copy paste, em que se amputa a imaginação e se legitima o plágio.
O «gosto» alheio como resposta a um post próprio evita o ter de dizer porquê. A comodidade expressiva internáutica torna o palestrante um símio dactilógrafo de sentimentos singelos padronizados.
Surgem aqui os traços psicológicos do nosso tempo: primeiro, a depressão como forma reduzida, mas por isso tolerável, da angústia existencial, depois o triunfo do contável no novo mundo técnico do fungível e do computável.
A angústia, ao perder a dignidade de categoria existencial de manifestação do desespero humano, encontrou na tipologia terapêutica a forma redutora que a torna uma mera patologia asténica, que a química farmacológica se candidata a tratar.
Uma nova família de fármaco-dependentes, aditos a drogas legais, garantem assim o equilíbrio básico que os mantém dentro da convivialidade aceitável e lhes permite serem forças de trabalho aproveitáveis no aparelho produtivo que ainda funciona em estado pré-falimentar, que os normaliza, em suma, garantindo-lhes liberdade de circulação ambulatória no hospício em meio aberto que são as sociedades contemporâneas e onde “esses loucos que nos governam” são arquétipo, modelo, e forma de autorização para o viver respeitado, ainda que inimputavelmente.
E, no entanto, antropologicamente, ela, a angústia, é, enquanto intranquilidade fazedora do génio, ou enquanto prostração anestesiante do comum mortal, sintoma daquele inacabamento, daquela incompletude do homem, que o caracteriza como ser defectivo, inacabado, irrealizado, lançado, porém, ao mundo, ainda em gestação, da borda fora da barca de deuses cruéis que o condena, pedra bruta, à derelição, ao abandono, à entrega ao jogo das circunstâncias até que em pó final se transforme, Sísifo da sua eterna tentativa de refazer-se.
Só que hoje não há angustiados, sim deprimidos. O Prozac, enquanto Viagra do Espírito, resolveu a questão, tal como o comprimido azul permitiu a toda a luxúria sexo.
Além disso ao extâse místico sucedeu o orgasmo venéreo, as entranhas do corpo passaram a ser flatulência sucedânea dos arroubos da alma.
Ei-la, na sua intemporalidade a crise dos nossos dias.
Falta autenticidade ao humano. A metamorfose do ser passa pela redenção. Tentaram-no os totalitarismos políticos que pretenderam criar não apenas a “Ordem Nova” mas o “Homem Novo”. Em vão. A pequenez dos resultados contrastou com a delirante idealização dos projectos. Ficaram, na arqueologia do terror, os gulags e as câmaras de gás, os campos de reeducação e os reformatórios psiquiátricos, os campos da morte e o patíbulo dos condenados, o genocídio em massa e o suicídio individual.
Tentam-no as sociedades iniciáticas, esotéricas ou sacramentalizadas. Debalde também. A mesquinhez do interesse conspurcou o templo, profanizando o culto e o rito. A espiritualidade passou a ser resíduo monacal de uns quantos segregados, a transcendência uma alucinação dos incompatilizados com a vida.

Termino.
A vida é uma petição de princípio. Para nasceres é preciso estares vivo. Surge aí logo, no corte do cordão umbilical, no isntante do primeiro grito de espanto e de dor, o estado de necessidade, a luta pela sobrevivência.
O homem é o único ser para quem o mero instinto não permite a sobrevivência.
Pode morrer-se, porém, sem se ter vivido mas apenas sobrevivido.
Eis, aqui, no seu âmago íntimo, a crise de todas as crises: o mundo vegetativo de corpos que caminham para a mineralização, julgando-se humanos, escassamente humanos.
Comparado com o défice de almas, o défice das contas públicas é assunto para intendentes.
Do Oriente esfíngico e fatal chega-nos o sinal e o símbolo: a nossa paganização é a nossa perdição. Jogando aos dados quanto à sorte do pobre Job, o velho Deus, num momento de dormência, perdeu a favor do Diabo. A danação surgiu aí. O Ocidente tornou-se Poente.
Um dia acabará tudo. A vida, vale, porém, a pena. Não por ser uma inevitabilidade. Sim porque é uma milagrosa probabillidade. No labirinto dos tempos um dia um homem e uma mulher... e tudo assim surgiu e surgirá, nem que tenha de ressurgir porque assim está escrito.
Talvez haja esperança onde faltar a fé.
Na síntese de tudo quanto se contradiz, no menor denominador comum a quanto possa ser decência, o Homem deve ser o que é. A crise nasceu no dia em que alguém tentou que ele fosse o que devia ser.
A norma matou o ser. Com a primeira lei surgiu o primeiro carrasco.


4.10.10

Para já, para já

A história não é minha. Eram dois amigos, vindos da pobreza com o sonho de ver o mar. Um deles conseguiu-o. Arranjou trabalho na orla marítima. O outro ficou na longínqua santa terrinha. Ao apelo do primeiro, moveu o céu e a terra, juntou migalhas e comprou a viagem. Viu-o então, o mar aquela imensidão de água que se adivinha para lá do próprio horizonte. Silencioso, absorto num pesado pensamento, perguntou: «com tanta água de tanta chuva, de tanto rio, com esta água toda deste mar, como é que não somos engolidos?».
Suspenso, hesitante, remoendo quanto ao que dizer, o amigo retorquiu-lhe, enfim, a resposta que resume o modo como, afinal, na vida se enfrenta o complexo através do simples: «bom, para já, para já, há as esponjas, não é?...»