17.7.22
Joaquim Domingues àconversa com André Pacheco
9.7.22
António Quadros: 99 anos depois
Tempo tórrido no exterior, calor humano no interior da Biblioteca Municipal de Rio Maior. O espírito agregador e amoroso de Mafalda Ferro deu o sinal de partida à exposição com a qual homenageou ontem o 99º aniversário do nascimento de seu pai, António Quadros.
A exposição recolhe momentos que permitem um primeiro encontro com a tão vasta obra do autor de Portugal, Razão e Mistério, esse compêndio sistematizador do pensamento que arranca de Leonardo Coimbra e segue com Álvaro Ribeiro e ainda hoje prodigaliza os seus frutos. Entre os espécimes escolhidos, ali estava o jornal 57. Quem quiser ler onze números encontra-os aqui, na Hemeroteca Digital.
Na conversa informal que se seguiu, em liberdade amiga de sentir, surgiu o inevitável tema: o que ficará para as gerações futuras e com essas gerações? Daí para se passar ao crucial tema do ensino e da formação cultural foi um passo.
Meteorologicamente estavam 42º na estrada, a antevisão do Inferno. Que importa isso, afinal, quando se procuram as estrelas no Céu?
4.7.21
António Telmo: contos, crónicas e teatro
Tenho de ser honesto e dizer que o livro é desigual, como sucede com todos quantos tentam compendiar a obra integral de quem seja - e este é o volume quinto, como todos publicados pela Zéfiro - e, por isso, os adjectivos de apreço não podem ser generalizados, sendo justos, porém, em relação ao essencial que no volume se publica.
Para além disso, o título, na parte em que refere "contos" não tem correspondência com o que são crónicas e esboços teatrais que nele também se compilam e naquilo em que convoca o vocábulo "secreto" tem fundamento na vertente esotérica e cabalísticas do pensamento filosófico do seu autor mas não confere com alguns dos textos, em que, salvo ignorância minha ou desatenção, a interpretação não tem de ser decifrada.
Trata-se, sim, do tema que dá mote a um dos capítulos do livro, o inicial, onde ficam treze contos, a que se juntam [páginas 151 e seguintes] outros contos e escritos afins.
Posto isto, a sua leitura tem proporcionado bons momentos e, sobretudo, intervalos de reflexão.
Tenho lido de modo errático, um pouco ao sabor do que os títulos prometem e do que é a disposição emocional do momento. Falta-me o teatro, os esboços de peças "A Goga" e "A Venda dos Painéis", este último, como refere Miguel Real na sua apresentação ao livro «texto duplamente iniciado e sempre inconcluso».
António Telmo criou a personagem Tomé Natanael, anagrama do seu próprio nome e deu-lhe tal verosimilhança que se tornou necessário explicar que o antiquário de Estremoz, que ele figurava, não existia salvo na sua escrita.
E foi ele que configurou um dos seus livros, "O Bateleur", o primeiro arcano das cartas do Tarot de Marselha, o representativo da letra Aleph, símbolo da magia.
Para o conhecimento do pensamento de António Telmo, naquilo em que resultou do primeiro impulso de Álvaro Ribeiro - o dilecto discípulo de Leonardo Coimbra - e de José Marinho - o leitor terá de fazer o caminho complexo dos seus livros, como, por exemplo, a "História Secreta de Portugal" ou, pela linguística a "Gramática Secreta da Língua Portuguesa", e não ficar por aí.
O esforço de lhe restituir visibilidade, em que se distingue pelo amoroso empenho, Pedro Martins e quantos animam o projecto tenta vencer o anátema que António Cândido Franco havia constatado em 1999 em artigo publicado no JL: «Hoje com mais de setenta, o autor passa por ser um caprichoso esotérico, quando não um perdulário que desperdiça em charadas e horóscopos a inteligência que Deus generosamente lhe confiou [...]» [para mais, ver aqui].
Tive, em tempo, quando fui editor, a oportunidade de publicar o seu epistolário com António Quadros, amplamente comentado e guia também, por isso, útil para conhecimento da parte em que a Filosofia Portuguesa os irmana.
Vou prosseguir com os contos. Acompanho Pedro Sinde, no que publicou nos "Teoremas de Filosofia", esses doze fascículos que consegui reunir: «O conto é, tantas vezes, a melhor forma de transmitir doutrina, porque aí os conceitos são obrigados a sair do mundo noético do espírito quase puro para incarnarem, como o Verbo exemplar, e ganharem vida terrena».
26.6.21
Leonardo Coimbra: RTP-Arquivos
Datado de 1984, está aqui um programa da RTP [rádio] sobre Leonardo Coimbra, da autoria de Adriana Veríssimo Serrão.
14.8.20
Delfim Santos: encontro em viagem
Como se nota pela datas, este espaço tem estado completamente ao abandono e com isso uma angústia existencial que só não é maior porque o nosso psiquismo defende-nos da culpa inventando razões exculpatórias, uma delas a incapacidade de achar tempo para o que se quer.
Talvez por isso uns dias de brevíssimas férias, e ter achado nelas uma inesperada biblioteca, hajam propiciado o encontro com um pequeno livro e nele uma frase que Jorge Tavares Rodrigues levou a um encontro comemorativo do octagésimo aniversário do nascimento do Professor Delfim Santos, tirada de uma cigarreira de prata que se conservará no seu Museu: «Pode-se aquilo que se quer ... quando se sabe querer aquilo que se pode».
Surgiu aqui nesta tarde de sexta feira a iniciação da sua obra, que a Fundação Gulbenkian editou, e de que guardo os tomos, sem os ter alguma vez aberto, recentemente chegados de viagem, conjuntamente com a biblioteca de filosofia portuguesa que mão amiga guardou durante largos meses por terras de Basto, à espera que eu pudesse voltar a receber.
Tudo isto, trazido pela mão de itinerários, parecerá insólito, mas não é pretexto, antes cruzamento de circunstâncias que, unidas por uma substância compreensiva, ganham sentido e são, por isso, verdades ocultas.
A biblioteca onde me cruzei com o opúsculo de que aqui deixo a capa, esteve em Paris, a da Fundação, e jaz hoje na estância onde tento descansar, ela à espera de leitores, o meu coração angustiado de que não a achem predadores. A biblioteca a que chamo minha apenas pela razão menor de ter sido eu a comprar os livros, essa seguiu o Herodes para Pilatos as vicissitudes de um certo momento da minha vida e regressou há dias a casa, à espera de ser reorganizada e completada nas formidáveis lacunas que seguramente tem.
Enfim, irei visitar o Museu Delfiniano, assim regresse. Foi um filósofo sem cátedra na filosofia, que a Pedagogia acolheu, sem que a Filosofia acolheu.
[este texto esteve escrito e por publicar durante uns meses; ao aperceber-me disso, trouxe-o aqui]
21.3.18
Viva, sempre viva!
20.3.16
Epistolário António Quadros/António Telmo:apresentação em Sesimbra
Epistolário António Quadros/António Telmo: apresentação no Porto
9.1.16
Epistolário António Quadros/António Telmo: apresentação em Lisboa
2.12.15
António Quadros/António Telmo: missão cumprida!
30.5.15
Viajando não tanto mas quanto
14.5.15
Correspondência António Quadros/António Telmo
1.3.15
Álvaro e Régio: filosofia e poesia
1.7.14
A História, do universal ao particular
11.6.14
O ponto abissal e agónico
Mas ela é omnímoda, generalizada. Fala-se na crise da instituição familiar, na crise do sistema educativo, na crise de valores, na crise da justiça, da autoridade, de crise da língua ante o novo Acordo Ortográfico.
Ante um tal panorama é de admitir que estamos a assistir a uma decadência de civilização, mais do que à agonia de um sistema de organização social.
Outros, biblicamente apocalípticos, vaticiam o fim dos tempos, o surgimento da Besta 666, a crise da própria existência.
Um destes dias uma daquelas revistas coloridas que têm muitas páginas de praticamente coisa pouca a propósito de tudo o mais, titulava na capa “2012 o ano do fim do Mundo”. Estamos lá quase, aproveitem para a orgia final com a vida os que ainda não morreram por dentro, ainda que já aparentemente mortos por fora. Mas os media simplificam o verosímil e o leitor toma o plausível não como possível mas como certo.
E a crise ganhou assim contornos necrológicos.
No meio deste despautério verbal, em que a realidade denotativa – o território da substância que os conceitos exprimem e as definições enunciam – é incrementada pela quase ficcional realidade conotativa – esse mundo extenso dos “a propósito” – e em que os mundos periféricos das falsas analogias são chamados a aumentar o mundo nuclear das ontologias conhecidas, assim como os aterros criaram a Holanda, é caso para dizer que em matéria de crise o panorama é, de facto, crítico.
Chegados a este ponto abissal e agónico que poderei eu dizer que ainda valha a pena ser dito?
Convencer-me, em primeiro lugar, problematizando o problema, e ante alguma supresa talvez, que a crise não é uma questão problemática, sim a solução. A desagregação dos sistemas é a forma pela qual a sua entropia gera novas formas adaptativas de organização, a crise é o momento em que a síntese se atingirá pela dialéctica da antítese.
É assim, num exemplo macroscópico, com os sistemas galácticos que explodiram no cosmos, os sóis que se apagaram gerando universos gelados, de que nos chegarão partículas milhões de anos depois. Foi graças a isso tudo que a Terra surgiu e nós com ela.
É assim com o mosaico europeu que trouxe e levou o Império Austro-Húngaro, a Prússia e o Reino de Leão, a cidade de Cartago e o Reich dos Mil Anos, o Império Romano e Terra do Preste João, as Repúblicas, Ducados e Principados do que hoje é a Itália do novo Calígula, um mundo de fantasia e de precariedade.
É assim com as patologias do espírito quando a loucura vem a gerar novos patamares de lucidez incompreensível, cujo solilóquio só o seu falante autor entende, ou as bizarrias equizofrénicas da escrita em implosão verbal, sem pontuação e sem nexo, levando à glória o inenarrável e o irrepetível e gerando assim Literatura e a sua contemporaneidade.
É assim quando a Natureza, num espirro de constipação telúrica, ocupa o espaço a que tem direito, levando pela frente, em lava ou aluvião lamacento, tudo o que de humano se construiu, mundo precário, afinal raquítico, em suma liliputiano.
É sempre “em forma de assim” que a crise de tudo gera o nada, de onde o todo surge.
O futuro é, desta forma, apenas uma forma de encontro da desagregação do passado, o ponto provável do seu novo equilíbrio.
Se Deus existir e tiver sobrevivido a Nietzsche, ele não é o ponto inicial do qual tudo emerge, sim o ponto final para o qual tudo converge, espécie de buraco negro no qual a existência se afunda, em remoinho, para se reorganizar, como em cadinho alquímico, vida morta gerando vida, o ser primordial a ser semente e rosa e fruto da criação.
Mas mais do que aquele optimista convencimento se trata. A haver crise, ela é, antes de qualquer outra, uma crise existencial, antroplógica, inerente mais à pessoa do que ao indíviduo, mais densa do que a do cidadão.
Vejamos, em retrogressão mental, este mundo. Crise de cidadãos, primeiro.
A crise da cidadania revela-se, em primeiro registo, no baixíssimo nível de participação na vida cívica: não é só a escassa millitância em causas públicas, é mesmo a cada vez mais alta, e progressivamente mais esmagadora, taxa de abstenção nos cada vez mais passivos actos eleitorais, em que a Nação é convidada a referendar as escolhas das cúpulas partidárias, a que não tem acesso, e a quem se hipotecou, progressivamente menos confiante.
Há hoje, sob a República, democracia formal mas não há movimento democrático. Os partidos de Governo escolhem os seus deputados. A democracia esgota-se no acto de voto, como o poder do dono no acto de emitir a irrevogável procuração. Ao sufragar, o eleitor aliena vida, suicida-se civilmente. A urna eleitoral é o esquife da sua morte cívica. O dia de eleições é o do cortejo da preguiça. A partir dali o governo da cidade passa a ser coisa dos empregados do poder. A venda do voto é o primeiro acto de corrupção.
Mas não só: a ideia da evasão fiscal como acto de legítima defesa cidadã face a um Estado predador e depreciador é outro sintoma característico do ocaso do civismo, tal como o progressivo divórcio entre o corpo eleitoral e a classe representativa que ele elege. No primeiro caso, sente-se o Governo como uma alteridade, o terceiro pagador e pai de todos os possíveis subsídios, no segundo sente-se o poder político como o fruto de uma escolha libertadora, primeiro, e de um desprezo catártico logo no dia seguinte a ser escolhido.
Não é o Estado supra-colectivo, é o Estado infra-individual aquele que construímos. Desprezamo-lo, ao Estado, como a inimigos, consideramos os que para ele elegemos como gente de segunda, só porque sim. Faz parte da cultura de quem votou pelo poder estar na oposição, como higiene e como caução para o futuro.
Bloqueado o sistema pela sua própria natureza hipócrita, nele a falta de expressão política por participação cívica substitui-se pelas manifestações de rua, como tentativa de indignada pressão colectiva.
Assim como a cólera é a raiva dos fracos, muitos dos que se revoltam fazem-no apenas porque incapazes para a revolução. A agitação simula a mudança.
A patologia da democracia representativa é a a alucinação epilética dos seus actores que faz dos espasmódicos tumultos de rua sintoma de doença através da ilusão da cura.
Limitada a democracia pelo sistema partidário, aprisionado o sistema partidário pela cacicagem que o domina, aquela acaba por ser, não apenas a expressão do indiferenciado maior número mas sobretudo a ratificação, sem alternativa, do sentir da imensa minoria que, em esquema rotativo, forma o bloco central de interesses que domina o Estado e assim governa a Nação, dela se aproveitando.
Trata-se, no que à imediata crise de hoje respeita, de uma crise financeira, derivada da hipertrofia do mercado especulativo de capitais sobre o aparelho de produção dos países.
Crise do capitalismo, diga-mo-la, inerente ao seu modo de produção, tem o seu epicentro nas contas públicas e no sistema bancário – como cerne que são da capitalização – e só tem, na lógica monetarista do sistema que nos governa, uma única solução, a da sobrecarga tributária sobre as forças produtivas mais indefesas, tendo em vista a colecta forçada e expropriadora para o reabastecimento do mercado com os meios de liquidez de que carece para a sua sobrevivência e que se vai buscar ao aforro privado ou quando ele já não há, ao exército de reserva do desemprego forçado.
Crise de cidadania, a presente é também a crise do indivíduo, a qual se gerou com a desagregação das relações sociais.
À imagem de marca do individualismo burguês sucede na contemporaneidade a do individualismo pan-proletário, o generalizado individualismo.
À sociedade de massas sucede a atomização social. A passividade consumista, o amorfismo intelectual, a anomia moral, a atrofia do gregarismo, são hoje as características da pulverização social em que se caíu.
Molecularizada, a sociedade torna-se mero somatório estatístico, em que à personalização segue a numeração. Cada um é o número fiscal, o do BI, o código do cartão bancário, o da password sem o qual o mundo cibernético se torna promíscuo, inseguro e devassado. É pelo simples número que o mundo da informação sabe quem sou, o complexo eu.
Realidade digitalizada, tudo se decide hoje na base do inquérito e da sondagem, à diversidade do ponto de vista corresponde a padronização da resposta-típica.
A opinião tornou-se a resposta a um questionário em quadradinhos.
Certa matemática ocupou o lugar da poética e da música, e na matemática não passamos da aritmética, sociedade de adição, de subtração, de multiplicação, de alguma divisão. Tudo passou a ser mensurável, por isso tudo passou a ser contável, pior, comparável. Num mundo de fracções a ânsia tornou-se encontrar o menor denominador comum. O abaixamento do nível médio é a perversa consequência do desejo da redução do múltiplo ao uno.
As redes sociais, essas aparência de comunidade e de aldeia global revisitadas, são hoje janelas de comunicação de solidões desencontradas.
A imediatividade discursiva que a net permite gerou o nada comunicacional, reiterativo, em cíclico copy paste, em que se amputa a imaginação e se legitima o plágio.
O «gosto» alheio como resposta a um post próprio evita o ter de dizer porquê. A comodidade expressiva internáutica torna o palestrante um símio dactilógrafo de sentimentos singelos padronizados.
+
Surgem aqui os traços psicológicos do nosso tempo: primeiro, a depressão como forma reduzida, mas por isso tolerável, da angústia existencial, depois o triunfo do contável no novo mundo técnico do fungível e do computável.
A angústia, ao perder a dignidade de categoria existencial de manifestação do desespero humano, encontrou na tipologia terapêutica a forma redutora que a torna uma mera patologia asténica, que a química farmacológica se candidata a tratar.
Uma nova família de fármaco-dependentes, adictos a drogas legais, garantem assim o equilíbrio básico que os mantém dentro da convivialidade aceitável e lhes permite serem forças de trabalho aproveitáveis no aparelho produtivo que ainda funciona em estado pré-falimentar, que os normaliza, em suma, garantindo-lhes liberdade de circulação ambulatória no hospício em meio aberto que são as sociedades contemporâneas e onde “esses loucos que nos governam” são arquétipo, modelo, e forma de autorização para o viver respeitado, ainda que inimputavelmente.
E, no entanto, antropologicamente, ela, a angústia, é, enquanto intranquilidade fazedora do génio, ou enquanto prostração anestesiante do comum mortal, sintoma daquele inacabamento, daquela incompletude do homem, que o caracteriza como ser defectivo, inacabado, irrealizado, lançado, porém, ao mundo, ainda em gestação, da borda fora da barca de deuses cruéis que o condenam, pedra bruta, à derelição, ao abandono, à entrega ao jogo das circunstâncias até que em pó final se transforme, Sísifo da sua eterna tentativa de refazer-se.
Só que hoje não há angustiados, sim deprimidos. O Prozac, enquanto Viagra do Espírito, resolveu a questão, tal como o comprimido azul permitiu a toda a luxúria sexo.
Além disso ao extâse místico sucedeu o orgasmo venéreo, as entranhas do corpo passaram a ser flatulência sucedânea dos arroubos da alma.
Ei-la, na sua intemporalidade a crise dos nossos dias.
Falta autenticidade ao humano. A metamorfose do ser passa pela redenção. Tentaram-no os totalitarismos políticos que pretenderam criar não apenas a “Ordem Nova” mas o “Homem Novo”. Em vão. A pequenez dos resultados contrastou com a delirante idealização dos projectos. Ficaram, na arqueologia do terror, os gulags e as câmaras de gás, os campos de reeducação e os reformatórios psiquiátricos, os campos da morte e o patíbulo dos condenados, o genocídio em massa e o suicídio individual.
Tentam-no as sociedades iniciáticas, esotéricas ou sacramentalizadas. Debalde também. A mesquinhez do interesse conspurcou o templo, profanizando o culto e o rito. A espiritualidade passou a ser resíduo monacal de uns quantos segregados, a transcendência uma alucinação dos incompatilizados com a vida.
Termino.
+
A vida é uma petição de princípio. Para nasceres é preciso estares vivo. Surge aí logo, no corte do cordão umbilical, no instante do primeiro grito de espanto e de dor, o estado de necessidade, a luta pela sobrevivência.
O homem é o único ser para quem o mero instinto não permite, porém, essa sobrevivência.
Pode morrer-se sem se ter vivido mas apenas sobrevivido.
Eis, aqui, no seu âmago íntimo, a crise de todas as crises: o mundo vegetativo de corpos que caminham para a mineralização, julgando-se humanos, escassamente humanos.
Comparado com o défice de almas, o défice das contas públicas é assunto para intendentes.
Do Oriente esfíngico e fatal chega-nos o sinal e o símbolo: a nossa paganização é a nossa perdição. Jogando aos dados quanto à sorte do pobre Job, o velho Deus, num momento de dormência, perdeu a favor do Diabo. A danação surgiu aí. O Ocidente tornou-se Poente.
Um dia acabará tudo. A vida, vale, porém, a pena. Não por ser uma inevitabilidade. Sim porque é uma milagrosa probabillidade. No labirinto dos tempos um dia um homem e uma mulher... e tudo assim surgiu e surgirá, nem que tenha de ressurgir porque assim está escrito.
Talvez haja esperança onde faltar a fé.
Na síntese de tudo quanto se contradiz, no menor denominador comum a quanto possa ser decência, o Homem deve ser o que é. A crise nasceu no dia em que alguém tentou que ele fosse o que devia ser.
A norma matou o ser. Com a primeira lei surgiu o primeiro carrasco.



















