15.11.11

Pinharanda Gomes

Fui há anos à sua casa em Santo António dos Cavaleiros entrevistá-lo. Modesto, discreto, quase hesitava em produzir uma que fosse afirmação definitiva. Tratei-o por «doutor». Disse-me que o não era. Como nos acompanhava uma estante de livros sobre teologia tentei corrigir, afirmando que seguramente teria estudos no Seminário (como tantos do seu tempo). Disse-me que também não. Era um auto-didacta. As tertúlias de Lisboa tinham sido, nos cafés, a sua sala de aulas. A Filosofia Portuguesa o seu amor.
Trabalhava na Massey Fergunson na venda de tractores. Estudara nas horas livres, pela noite fora. Lera na Biblioteca Nacional no tempo em que ela abria à noite. Tirava à boca para comprar livros. Instruía-se sempre. Escreveu nem sei quantos livros. Tentei encontrá-los todos. Teve a gentileza de me oferecer alguns. 
A entrevista era sobre tudo e sobre nada. A minha ignorância impedia-me de formular as perguntas certas, a sua sabedoria vedava-lhe respostas simples.
À saída mostrou-me uma pequena gaiola, extasiado ante uns passarinhos e os ovos que chocavam. A vida cumpria-se. Uma vez cruzei-me com ele na Lapa. Ia consolar o Orlando Vitorino, fazendo-lhe companhia.
Nasceu em Quadrazais, mas renasce como exemplo no coração de cada um. Um dia um jornal, creio que o Diário de Notícias, perguntou-me qual foi a pessoa que mais me impressionou. Disse: Jesué Pinharanda Gomes.
Hoje, em viagem, leio esta notícia: O Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL) atribuirá, no próximo dia 19 de Novembro, a "Medalha de Mérito Cultural" a Jesué Pinharanda Gomes, um dos mais importantes nomes vivos da Filosofia Portuguesa. A cerimónia de homenagem realiza-se pelas 19:00 na Sociedade da Língua Portuguesa (SLP), em Lisboa. A entrada é livre.

17.10.11

A metamorfose do ser

Talvez porque o mundo das obrigações hoje pese, ou as preocupações tenham, porque aliviaram nalguma das suas frentes, gerado o vazio e com ele o cansaço, ou porque um homem não é só o que tem de ser mas é mais, quanto mais, aquilo que gostaria de estar a ser, e há tanto mundo que não se vive, lembrei-me dela: Dalila Lello Pereira da Costa. 
Tão poucos a conhecem. Sim, sabem-na os da Filosofia Portuguesa. E juntei-a, eu, à sua obra, tomo a tomo e vivo agora o receio de me faltar qualquer escrito menos conhecido ou que a minha ignorância desconheça.
E fui buscá-lo, ao livro A Força do Mundo, que editou em 1972 e creio já citei aqui, porque trata do êxtase da alma, o decapar a personalidade até à transpessoalidade. São «iluminações, sonhos, visões, intuições poéticas», a metamorfose, enfim, a possessão.
Vejo que nem esse livro acabei e queria lê-lo todo. Felizmente «o tempo não passa, não é linear, mas esférico, como o espaço». Por isso esta noite continuo até o mais tarde que puder e amanhã começo o mais cedo que conseguir, circular a vida.

27.8.11

Retomando estrada

Nenhum homem é homem sem a alma a animar-lhe o corpo, como fogo que seja a causa do fumo. Nenhuma alma sobrevive sem alimento, nenhum outro alimento nutre e fortalece salvo o da filosofia. Nenhum homem é vivo sem ser da Natureza uma parte, nenhum ser existe fora da sua Pátria, nenhuma alma filosófica me preexiste que não possa ser a da filosofia da terra portuguesa. Foi por ela que cheguei aqui, folheando em arroubos Leonardo Coimbra, tacteando, pedagógico, Álvaro Ribeiro, dispersando-me por Pinharanda Gomes e sistematizando-me em António Quadros. Depois foram todos os outros, coleccionando angústias com o Fidelino Figueiredo, passeando, incerto, com o Agostinho da Silva e tantos e tantos mais: Orlando Vitorino, José Marinho, Fernando Pessoa... Não quero mencionar mais nomes porque não quero esquecer-me de nenhum nome, nem quero que se note que me falta conhecer tantos nomes. 
Esta manhã reencontrei a Nova Águia e dei conta que há vários números que a perdi. E a partir dela fui a esta obra de amorosa dedicação, uma bibliografia para quem quiser iniciar-se e complementar-se. E senti, como um pulsar cardíaco, vontade de seguir em frente pela longa caminhada, retomando estrada.
Acordei, pois, de uma longa sonolência, a força da luz a iluminar-me a existência.

9.8.11

O mundo e os seus intérpretes

A ideia recolhia-a numa entrevista que a Maria Filomena Molder deu à revista Ler. A conversa não saiu fluente e a própria pergunta-se quanto a terem sido, entrevistadora e entrevistada, demasiado abstractas. Há, porém, um momento em que um princípio é ilustrado por um exemplo. E embora a exemplificação não seja a mais digna forma de enunciar uma ideia ou de a demonstrar no caso a sua força ilustrativa ganha corpo.
Trata-se das declarações que são, logo que proferidas, comentadas imediatamente pelo entrevistador, o que é o caso das afirmações oriundas do território da política. O efeito do fenómeno é a anulação da distância e a geração da instantaneidade do efeito. O destinatário do dito nunca a chega a ter intervalo para meditar no ouvido e para formar uma opinião sobre o escutado pois logo o comentador surge a apontar como um sinaleiro o sentido único da interpretação e o desvalor de interpretações em contrário.
Claro que como há, e a tanto alude também a entrevistada, "comentadores de comentadores" o mundo resolve-se entre os seus intérpretes.

12.7.11

Folclore ideológico

As circunstâncias adversas, a mobilidade reduzida. O livro imenso, pesado, 1029 páginas, letra miúda, espaço apertado entre as linhas, como objecto de difícil manuseio. Mas há muito que cortejava.
Doeram-me as gralhas, e dei logo com umas quantas, inadmissíveis num livro da Imprensa Nacional. É o Pensamento Português Contemporâneo, 1820-2010 de "Miguel Real", o pseudónimo literário de Luís Martins. Tiraram-se oitocentos exemplares, o que mostra que há tão pouca gente interessada no pensamento português, ainda que contemporâneo.
Comecei por capítulos quase finais, o dedicado a António Quadros e a Dalila Lello Pereira da Costa, esta «autêntico mito vivo da filosofia portuguesa», quase desconhecida salvo por um pequeníssimo círculo, aquele com obra «envolvida por artigos de panegirismo de companheiros e amigos das lides filosóficas», «remetida para o limbo do "folclore ideológico"».
Miguel Real organiza a sua obra - que compila um seminário que leccionou na Faculdade de Letras de Lisboa - antecedendo-a de uma apresentação. Categoriza o mundo do pensamento entre o «providencialismo messiânico da Igreja e do Estado» e «o racionalismo e empirismo europeus» e quanto às modernidades que deram ao todo a dinâmica da singularidade separa os vanguardismos - todos os movimentos culturais, políticos e sociais do século XX de alto valor prosélito, providos de instituições e órgãos, cujo objectivo máximo seja, não a "reforma de mentalidades" (...) mas a tomada política do aparelho de Estado - dos modernismos - - afinal «todos os movimentos culturais portugueses, de baixo valor prosélito, de índice grupal, não raro sobrevivendo isolados, despercebidos ou repugnados pela mentalidade dominante, apenas providos de órgão informativo, cujo objectivo máximo consiste na expressão individual estética e/ou na "reforma das mentalidades" por via da difusão de novos conhecimentos e novas atitudes culturais».
Livro interessante, compêndio, há, porém, a desdentá-lo o feio das generalizações. Falando da Universidade refere-a como «casa do saber transformado pelos positivistas da I República e os professores acéfalos do Estado Novo em casa de elite decepada de inteligência». Ora houve, mesmo com o Estado Novo e no Estado Novo, gente com inteligência, saber e cultura de excelência, pelo que esta indecência qualificativa é cientificamente errada e culturalmente vulgar. Tem apenas a vantagem de ser "popularucha" e como tal levar o autor à glória fácil. Não havia necessidade. Já nem cito o que diz da Igreja e do Estado, porque se intui do excerto. Mas entristeceu-me ler o que li.
As circunstâncias eram adversas, eu sei, trazerem-me o livro foi um carinho, começar a lê-lo foi um esforço. Mas confesso que o tomei nas mãos com respeito e apreço. Nada no que nele é magnífico fica em causa. E sobretudo tudo o que nele há de útil fica salvo. Vou tentar lê-lo todo apesar de imenso. Mas é um repto.

4.7.11

Os mundos por haver

Não é historiador mas interroga a História porque, tendo aprendido com os orientais a sabedoria como forma de saber, está consciente de que o passado é incerto.
Ao ouvi-lo no domingo, em Constância, lugar de enigma e território de dúvida, retive aquilo de que faz método. a existência de uma "verdade intuitiva".
Para quantos viraram as costas à arrogância do cartesianismo e seu racionalismo ilusório, que faz da coerência critério e do pensar preâmbulo de ontologia, está ali o caminho e o destino. É a terra mágica da adivinhação e do pressentimento, lugar de poetas e de astrónomos, os que têm os olhos no céu e nos ouvidos a música das estrelas.
Talvez seja a certeza íntima do caminho certo que conduziu Bartolomeu Dias e a ponderação dos ventos que o fizeram arquear o rumo em viagem, largando o funesto bordejar da costa africana Sem isso não tinha havido Índia nem o sonho de embarcar, nem gesta de Portugueses ou os mundos por haver.

1.5.11

Filosofia Extravagante

Reencontro-me hoje com os Cadernos de Filosofia Extravagante e neles com a asserção «Não há filosofia portuguesa porque aquilo que há não é uma disciplina». Discutível porque problemática, é a reedição da questão que tem mais do que cinquenta anos. Haverá uma filosofia que seja a dos portugueses, ou uma filosofia para questões que sejam as de Portugal? E se sim a qualquer delas porque teria de ser uma «disciplina» com o que tal significa de regra e cânone e ordem e sistema? E se não porque será não só por não ser disciplina.
Reencontro-me hoje com os Cadernos de Filosofia Extravagante e neles com um estudo de Cynthia Guimarães Taveira que é um reflectir sussurrante e tranquilo sobre o amor à sabedoria, entre a afirmação do ser e do não ser, do que é do que não está.

15.12.10

Rumando ao mar

Talvez uma mística, encontrada nos labirintos do ser, como um gorgolejar espumoso de lava que explodisse, incontida, a irradiante luz, estrelar, a reflectir-se em meteoritos alucinantes, ou decifrada no murmúrio de uma prece, como símbolo a símbolo, na lápida de uma recolhida capela, que a corografia sagrada explicasse, se encontrasse a chave da Tradição e a carta de marear rumo ao Futuro seguindo para Nascente.
Talvez num espinhoso refúgio, no matagal esconso onde nenhuma patrulha da Ordem chegue e o fogo do Império não arda nem nenhuma febre de domínio ou desejo de território.
Talvez na individualidade dos poucos portugueses sem sonhos de Índia ou pesadelos de Europa, aventureiros naquela e nesta mendigos e na sua própria casa hóspedes dos seus.
Talvez nem aí ou em lugar algum e apenas no momento topográfico impossível por ser o da não intersecção do tempo e do espaço, surja o Vazio e com ele o Absoluto e assim a possibilidade de reinício, esperança do tudo o que há e fé no que poderia ter havido.
No final principias, tornado outro. Moribundo o Estado, agonizante a Nação, a alma de Pátria renova-se com o nascer da primeira caravela. Rumando ao mar aumentámos o Mundo. Na praia da memória, fiam-se as redes da História, viúvas dos que não voltaram, saudosas dos que poderiam tê-las levado, mães prováveis de ventres irrealizados.

12.12.10

Um Deus risonho

Hoje o Senhor Deus veio ao meu encontro na forma de «A rosa é sem porquê». Porque esgotada a cega confiança no determinismo e sua causal consequência, em nome do qual nascem todos os deveres para que resultem, certos e seguros, todos os benefícios, perdida, errática, a crença ante o probabilismo e sua possível decorrência, por causa do qual se joga em todas as roletas para se obterem todas possíveis as fortunas e mesmo as quase inatingíveis, ficou-me, como resíduo de esperança e território de fé a terra de ninguém das convicções que a Terra oferece e o Céu promete.
Li-o, então, ignorante que não tinha reparado nele. José Tolentino Mendonça trouxe-me pelo riso, a oportunidade do divino. No mundo dos deuses, o Seu, brinca, o pulo para o infinito afinal um saltar à corda, como a eterna criança que jamais fosse Aquele que os homens pregariam na cruz, do Pai esquecido e sem Mãe que o consolasse.
O livro chama-se «O Hipopótamo de Deus», o diálogo com Job, a teologia no fio da navalha, o Todo Poderoso nivelado ao Diabo, iguais no divertimento, como jogando ambos, perversos, aos dados, sobre a espoliada criatura e sua alma que à danação fora condenada e à sua estrumeira.

21.11.10

A crise

Li isto ontem, tarde de sábado, na Sociedade Harmonia Eborense. O tema, a crise. Juntos, Ricardo Paes Mamede e Manuel Branco e uma assistência interessada e amigável. Uma tarde memorável. Obrigado a todos. O texto corresponde ao meu sentir mais profundo


A ideia de crise está presente no vocabulário do quotidiano, nas notícias, no subconsciente de cada pessoa. Chegou mais evidente às economias individuais e aos orçamentos domésticos por efeito do péssimo momento do sistema financeiro, em ameaça de “crash” com todo o cortejo de lembranças por loucos anos vinte.
Mas ela é omnímoda, generalizada. Fala-se na crise da instituição familiar, na crise do sistema educativo, na crise de valores, na crise da justiça, da autoridade, de crise da língua ante o novo Acordo Ortográfico.
Ante um tal panorama é de admitir que estamos a assistir a uma decadência de civilização, mais do que à agonia de um sistema de organização social.
Outros, biblicamente apocalípticos, vaticiam o fim dos tempos, o surgimento da Besta 666, a crise da própria existência.
Um destes dias uma daquelas revistas coloridas que têm muitas páginas de praticamente coisa pouca a propósito de tudo o mais, titulava na capa “2012 o ano do fim do Mundo”. Estamos lá quase, aproveitem para a orgia final com a vida os que ainda não morreram por dentro, ainda que já aparentemente mortos por fora. Mas os media simplificam o verosímil e o leitor toma o plausível não como possível mas como certo.
E a crise ganhou assim contornos necrológicos.
No meio deste despautério verbal, em que a realidade denotativa – o território da substância que os conceitos exprimem e as definições enunciam – é incrementada pela quase ficcional realidade conotativa – esse mundo extenso dos “a propósito” – e em que os mundos periféricos das falsas analogias são chamados a aumentar o mundo nuclear das ontologias conhecidas, assim como os aterros criaram a Holanda, é caso para dizer que em matéria de crise o panorama é, de facto, crítico.
Chegados a este ponto abissal e agónico que poderei eu dizer que ainda valha a pena ser dito?
Convencer-me, em primeiro lugar, problematizando o problema, e ante alguma supresa talvez, que a crise não é uma questão problemática, sim a solução. A desagregação dos sistemas é a forma pela qual a sua entropia gera novas formas adaptativas de organização, a crise é o momento em que a síntese se atingirá pela dialética da antítese.
É assim, num exemplo macroscópico, com os sistema galácticos que explodiram no cosmos, os sóis que se apagaram gerando universos gelados, de que nos chegarão partículas milhões de anos depois. Foi graças a isso tudo que a Terra surgiu e nós com ela.
É assim com o mosaico europeu que trouxe e levou o Império Austro-Húngaro, a Prússia e o Reino de Leão, a cidade de Cartago e o Reich dos Mil Anos, o Império Romano e Terra do Preste João, as Repúblicas, Ducados e Principados do que hoje é a Itália do novo Calígula, um mundo de fantasia e de precariedade.
É assim com as patologias do espírito quando a loucura vem a gerar novos patamares de lucidez incompreensível, cujo solilóquio só o seu falante autor entende, ou as bizarrias equizofrénicas da escrita em implosão verbal, sem pontuação e sem nexo, levando à glória o inenarrável e o irrepetível e gerando assim Literatura e a sua contemporaneidade.
É assim quando a Natureza, num espirro de constipação telúrica, ocupa o espaço a que tem direito, levando pela frente, em lava ou aluvião lamacento, tudo o que de humano se construiu, mundo precário, afinal raquítico, em suma liliputiano.
É sempre “em forma de assim” que a crise de tudo gera o nada, de onde o todo surge. O futuro é, desta forma, apenas uma forma de encontro da desagregação do passado, o ponto provável do seu novo equilíbrio.
Se Deus existir e tiver sobrevivido a Nietzsche, ele não é o ponto inicial do qual tudo emerge, sim o ponto final para o qual tudo converge, espécie de buraco negro no qual a existência se afunda, em remoinho, para se reorganizar, como em cadinho alquímico, vida morta gerando vida, o ser primordial a ser semente e rosa e fruto da criação.
Mas mais do que aquele optimista convencimento se trata. A haver crise, ela é, antes de qualquer outra, uma crise existencial, antroplógica, inerente mais à pessoa do que ao indíviduo, mais densa do que a do cidadão.
Vejamos, em retrogressão mental, este mundo. Crise de cidadãos, primeiro.
A crise da cidadania revela-se, em primeiro registo, no baixíssimo nível de participação na vida cívica: não é só a escassa millitância em causas públicas, é mesmo a cada vez mais alta, e progressivamente mais esmagadora, taxa de abstenção nos cada vez mais passivos actos eleitorais, em que a Nação é convidada a referendar as escolhas das cúpulas partidárias, a que não tem acesso, e a quem se hipotecou, progressivamente menos confiante.
Há hoje, sob a República, democracia formal mas não há movimento democrático. Os partidos de Governo escolhem os seus deputados. A democracia esgota-se no acto de voto, como o poder do dono no acto de emitir a irrevogável procuração. Ao sufragar, o eleitor aliena vida, suicida-se civilmente. A urna eleitoral é o esquife da sua morte cívica. O dia de eleições é o do cortejo da preguiça. A partir dali o governo da cidade passa a ser coisa dos empregados do poder. A venda do voto é o primeiro acto de corrupção.
Mas não só: a ideia da evasão fiscal como acto de legítima defesa cidadã face a um Estado predador e depreciador é outro sintoma característico do ocaso do civismo, tal como o progressivo divórcio entre o corpo eleitoral e a classe representativa que ele elege. No primeiro caso, sente-se o Governo como uma alteridade, o terceiro pagador e pai de todos os possíveis subsídios, no segundo sente-se o poder político como o fruto de uma escolha libertadora, primeiro, e de um desprezo catártico logo no dia seguinte a ser escolhido.
Não é o Estado supra-colectivo, é o Estado infra-individual aquele que construímos. Desprezamo-lo, ao Estado, como a inimigos, consideramos os que para ele elegemos como gente de segunda, só porque sim. Faz parte da cultura de quem votou pelo poder estar na oposição, como higiene e como caução para o futuro.
Bloqueado o sistema pela sua própria natureza hipócrita, nele a falta de expressão política por participação cívica substitui-se pelas manifestações de rua, como tentativa de indignada pressão colectiva.
Assim como a cólera é a raiva dos fracos, muitos dos que se revoltam fazem-no apenas porque incapazes para a revolução. A agitação simula a mudança.
A patologia da democracia representativa é a a alucinação epilética dos seus actores que faz dos espasmódicos tumultos de rua sintoma de doença através da ilusão da cura.
Limitada a democracia pelo sistema partidário, aprisionado o sistema partidário pela cacicagem que o domina, aquela acaba por ser, não apenas a expressão do indiferenciado maior número mas sobretudo a ratificação, sem alternativa, do sentir da imensa minoria que, em esquema rotativo, forma o bloco central de interesses que domina o Estado e assim governa a Nação, dela se aproveitando.
Trata-se, no que à imediata crise de hoje respeita, de uma crise financeira, derivada da hipertrofia do mercado especulativo de capitais sobre o aparelho de produção dos países.
Crise do capitalismo, diga-mo-la, inerente ao seu modo de produção, tem o seu epicentro nas contas públicas e no sistema bancário – como cerne que são da capitalização – e só tem, na lógica monetarista do sistema que nos governa, uma única solução, a da sobrecarga tributária sobre as forças produtivas mais indefesas, tendo em vista a colecta forçada e expropriadora para o reabastecimento do mercado com os meios de liquidez de que carece para a sua sobrevivência e que se vai buscar ao aforro privado ou quando ele já não há, ao exército de reserva do desemprego forçado.
Crise de cidadania, a presente é também a crise do indivíduo, a qual se gerou com a desagregação das relações sociais.
À imagem de marca do individualismo burguês sucede na contemporaneidade a do individualismo pan-proletário, o generalizado individualismo.
À sociedade de massas sucede a atomização social. A passividade consumista, o amorfismo intelectual, a anomia moral, a atrofia do gregarismo, são hoje as características da pulverização social em que se caíu.
Molecularizada, a sociedade torna-se mero somatório estatístico, em que à personalização segue a numeração. Cada um é o número fiscal, o do BI, o código do cartão bancário, o da password sem o qual o mundo cibernético se torna promíscuo, inseguro e devassado. É pelo simples número que o mundo da informação sabe quem sou o complexo eu.
Realidade digitalizada, tudo se decide hoje na base do inquérito e da sondagem, à diversidade do ponto de vista corresponde a padronização da resposta-típica.
A opinião tornou-se a resposta a um questionário em quadradinhos.
Certa matemática ocupou o lugar da poética e da música, e na matemática não passamos da aritmética, sociedade de adição, de subtração, de multiplicação, de alguma divisão. Tudo passou a ser mensurável, por isso tudo passou a ser contável, pior, comparável. Num mundo de fracções a ânsia tornou-se encontrar o menor denominador comum. O abaixamento do nível médio é a perversa consequência do desejo da redução do múltiplo ao uno.
As redes sociais, essas aparência de comunidade e de aldeia global revisitadas, são hoje janelas de comunicação de solidões desencontradas.
A imediatividade discursiva que a net permite gerou o nada comunicacional, reiterativo, em cíclico copy paste, em que se amputa a imaginação e se legitima o plágio.
O «gosto» alheio como resposta a um post próprio evita o ter de dizer porquê. A comodidade expressiva internáutica torna o palestrante um símio dactilógrafo de sentimentos singelos padronizados.
Surgem aqui os traços psicológicos do nosso tempo: primeiro, a depressão como forma reduzida, mas por isso tolerável, da angústia existencial, depois o triunfo do contável no novo mundo técnico do fungível e do computável.
A angústia, ao perder a dignidade de categoria existencial de manifestação do desespero humano, encontrou na tipologia terapêutica a forma redutora que a torna uma mera patologia asténica, que a química farmacológica se candidata a tratar.
Uma nova família de fármaco-dependentes, aditos a drogas legais, garantem assim o equilíbrio básico que os mantém dentro da convivialidade aceitável e lhes permite serem forças de trabalho aproveitáveis no aparelho produtivo que ainda funciona em estado pré-falimentar, que os normaliza, em suma, garantindo-lhes liberdade de circulação ambulatória no hospício em meio aberto que são as sociedades contemporâneas e onde “esses loucos que nos governam” são arquétipo, modelo, e forma de autorização para o viver respeitado, ainda que inimputavelmente.
E, no entanto, antropologicamente, ela, a angústia, é, enquanto intranquilidade fazedora do génio, ou enquanto prostração anestesiante do comum mortal, sintoma daquele inacabamento, daquela incompletude do homem, que o caracteriza como ser defectivo, inacabado, irrealizado, lançado, porém, ao mundo, ainda em gestação, da borda fora da barca de deuses cruéis que o condena, pedra bruta, à derelição, ao abandono, à entrega ao jogo das circunstâncias até que em pó final se transforme, Sísifo da sua eterna tentativa de refazer-se.
Só que hoje não há angustiados, sim deprimidos. O Prozac, enquanto Viagra do Espírito, resolveu a questão, tal como o comprimido azul permitiu a toda a luxúria sexo.
Além disso ao extâse místico sucedeu o orgasmo venéreo, as entranhas do corpo passaram a ser flatulência sucedânea dos arroubos da alma.
Ei-la, na sua intemporalidade a crise dos nossos dias.
Falta autenticidade ao humano. A metamorfose do ser passa pela redenção. Tentaram-no os totalitarismos políticos que pretenderam criar não apenas a “Ordem Nova” mas o “Homem Novo”. Em vão. A pequenez dos resultados contrastou com a delirante idealização dos projectos. Ficaram, na arqueologia do terror, os gulags e as câmaras de gás, os campos de reeducação e os reformatórios psiquiátricos, os campos da morte e o patíbulo dos condenados, o genocídio em massa e o suicídio individual.
Tentam-no as sociedades iniciáticas, esotéricas ou sacramentalizadas. Debalde também. A mesquinhez do interesse conspurcou o templo, profanizando o culto e o rito. A espiritualidade passou a ser resíduo monacal de uns quantos segregados, a transcendência uma alucinação dos incompatilizados com a vida.

Termino.
A vida é uma petição de princípio. Para nasceres é preciso estares vivo. Surge aí logo, no corte do cordão umbilical, no isntante do primeiro grito de espanto e de dor, o estado de necessidade, a luta pela sobrevivência.
O homem é o único ser para quem o mero instinto não permite a sobrevivência.
Pode morrer-se, porém, sem se ter vivido mas apenas sobrevivido.
Eis, aqui, no seu âmago íntimo, a crise de todas as crises: o mundo vegetativo de corpos que caminham para a mineralização, julgando-se humanos, escassamente humanos.
Comparado com o défice de almas, o défice das contas públicas é assunto para intendentes.
Do Oriente esfíngico e fatal chega-nos o sinal e o símbolo: a nossa paganização é a nossa perdição. Jogando aos dados quanto à sorte do pobre Job, o velho Deus, num momento de dormência, perdeu a favor do Diabo. A danação surgiu aí. O Ocidente tornou-se Poente.
Um dia acabará tudo. A vida, vale, porém, a pena. Não por ser uma inevitabilidade. Sim porque é uma milagrosa probabillidade. No labirinto dos tempos um dia um homem e uma mulher... e tudo assim surgiu e surgirá, nem que tenha de ressurgir porque assim está escrito.
Talvez haja esperança onde faltar a fé.
Na síntese de tudo quanto se contradiz, no menor denominador comum a quanto possa ser decência, o Homem deve ser o que é. A crise nasceu no dia em que alguém tentou que ele fosse o que devia ser.
A norma matou o ser. Com a primeira lei surgiu o primeiro carrasco.


4.10.10

Para já, para já

A história não é minha. Eram dois amigos, vindos da pobreza com o sonho de ver o mar. Um deles conseguiu-o. Arranjou trabalho na orla marítima. O outro ficou na longínqua santa terrinha. Ao apelo do primeiro, moveu o céu e a terra, juntou migalhas e comprou a viagem. Viu-o então, o mar aquela imensidão de água que se adivinha para lá do próprio horizonte. Silencioso, absorto num pesado pensamento, perguntou: «com tanta água de tanta chuva, de tanto rio, com esta água toda deste mar, como é que não somos engolidos?».
Suspenso, hesitante, remoendo quanto ao que dizer, o amigo retorquiu-lhe, enfim, a resposta que resume o modo como, afinal, na vida se enfrenta o complexo através do simples: «bom, para já, para já, há as esponjas, não é?...»

7.9.10

Uma janela para o mar

Podia ser em dia certo, como fazem os que prometem mudar no dia um de Janeiro de cada ano, ou quando comemoram o dia do aniversário. Podia ser porque reabrisse qualquer coisa como por exemplo os tribunais e a época dos saldos, ou por ser dia da Feira do Relógio ou Temporada na Gulbenkian.
A lógica comemorativa pressupõe uma dupla crença: primeiro na cronologia que é, afinal, uma forma de se quantificar a vida; depois na mudança que é um meio de desconfiar da retrogressão.
Desde que se inventaram os números o Homem passou a ser um infeliz. Mesmo quando os árabes trouxeram o zero que os romanos desconheciam. Aí adicionando nada tudo se torna maior, expressão surreal do paradoxo da nulidade avantajada. Com a Álgebra veio a fantasia de que a partir de incógnitas se aplicam as regras universais a casos particulares em que cada um se sente semelhante a todos os demais. Enfim tudo termina na lógica da equação. Crente nas virtudes do equilíbrio, o homem, poeira no cosmos, nem pensa que cada ponto é equidistante ao seu começo e ao seu fim, porque o tempo é circular.
Quase às duas da madrugada do dia 7 de Setembro, dia ocasional num calendário incerto, decidi voltar aqui. Como um viajante nocturno a quem lhe apetecesse ver o mar.

10.8.10

A viagem pela noite

A ideia do livro é ser uma reportagem, porque os autores foram admitidos no seio da Ordem da Cartuxa, franqueando portões até aí quase inexpugnáveis e vendo quebrar em seu benefíco a regra do silêncio e da clausura. Está escrito como quem escrevesse uma novela policial, em busca de um segredo que vai sendo desvendado ao longo das páginas do álbum. Há algo de O Nome da Rosa, talvez porque o tema o propicia.
Há momentos em que o o leitor supreende-se: quando descobre que nos primitivos tempos os frades que são contemplativos eram servidos por escravos hoje por irmãos que fazem, pela glória de Deus, o trabalho braçal; quando, sem ver citar origem, lhe dizem os autores que por ali se defende a pena de morte e que a Igreja não poíbe a pena de morte antes a aconselha.
Talvez para quem sinta um apelo à transcendência, o livro, escrito por Nacho Doce e por Paulo Moura, vocacione, para quem exija rigor à alma o livro facilite um pouco.
São humanos, claro, os retratados, na segunda recta da vida, e por isso a imperfeição pagã se projecte ainda e suas tentações meridianas e o livro tenta retratá-las mais ao mistério litúrgico daquela comunidade de votos de obediência.
Li-o parte desta tarde e disseram-me há momentos que poderia guardá-lo como meu. Isso permitir-me-á relê-lo, sublinhá-lo estudá-lo. Implantada em Portugal em 1587, a Cartuxa está em Évora. Renasceu ali.
Os monges falam a Deus sobre os homens, em oração, não falam aos homens sobre Deus. Fosse assim eram pregadores, convictos que a palavra traria a fé. Fé que é uma questão de vontade não de sentimento. A mística nasce da contenção que interioriza não do êxtase que implode do ser a alma.

31.7.10

O salmo e a redenção

Talvez porque fomos educados no cinismo da dialética, não a grandiosa e monumental hegeliana, catedral escorada que é a celebração da sua própria legitimidade, edificação vaidosa de verdades que o são por si mesmas e pela sua aparência de coerência intrínseca, mas pela outra, a cínica, utilitária, a do relativismo histórico e da luta dos contrários, que se não anulam mas da mentira fazem verosimilhança, e dão fundamento à carnificina e da pessoa fazem indivíduo e deste cidadão, por isso dizia caímos nesta anemia mental em que qualquer rasca propaganda nos seduz, quaisquer causas precárias nos mobilizam e demos nisto amibas tele-espectadoras e de tablóides folheantes, no mais zapantes internautas de um cosmos mental vazio, clicantes ratos entre vivas e olás e gosto disto e cito que citaste o que foi citado.
Mas sucedeu que o meu incerto ser em reconstrução encontrou e eu li e sublinho e agora mastigo-o com dentes e o regurgito, um extraordinário livro que Maria Almira Soares escreveu sobre um menino que assinava Vergílio António de Oliveira Ferreira. E que foi depois um «moinho de ensinar», e como o Mário do Cântico Final serviu casas «de saber manufacturado, burocrático», e sofreu «ferozes meninos do liceu» e a «tocante suficiente dos colegas, sérios, correctos, cronometrados» e tudo e tudo por instantes de glória e hossana porque há o milagre da excepção. E escreveu admiravelmente.
E nesse livro, que me tem feito companhia desde ontem, eu li o salmo que é o da redenção de uma vida e uma profissão de fé na ressurreição diária pelo amanhecer: «Descobrir a contradição do que não é contraditório que é afinal a vida com a sua exactidão, é ter realizado o maior esforço de compreender. Mas realizá-lo é não ser homem é morrer. Por isso eu morro vivendo». 

19.7.10

O coleccionador de angústias

Regresso hoje aqui com o sentimento de surpresa. Li a esmo o que escrevi. Perguntei-me porque teria saído deste lugar, horto de reflexões. O título deste post fui buscá-lo a um livro de Fidelino Figueiredo. O livro começa e termina com Dom Quixote, o quixotismo forma de angústia mansa, de ilusão risonha em que a idiotice é ingénua sabedoria.
Este blog começou por fazer jus literal ao nome e tratou nos seus primórdios de geometria, problematizando o pensamento a partir daí, como a Ethica Ordine Geometrico Demonstrata do judeu português Baruch Spinoza. Depois caminhou para o território em que a geometria o é naquele sentido em que a palavra vem abismalmente mencionada no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Trata da filosofia portuguesa e de um modo filosófico de pensar Portugal.
Regressei hoje, o pensamento martirizado de reflexão. Talvez haja alguma sombra em que possa haver  inteligência sem racionalidade nesta silva de enganos em que há quem julgue que só há saber na epistemologia, verdade na ontologia.

10.5.09

O Futurismo e o futuro

Multiplicam-se aparentes coincidências. Tinha estado com o livro sobre ele há uns dias, folheando sem saber sobre o que escrever. Inspirou-me então e este post foi o resultado. Hoje levei para ler o número três da Nova Águia, que é dedicado a Agostinho da Silva. Comecei pelo fim e a gostar do que lia, talvez por ter sabido encontrar o meu canto de recolhimento numa catedral pingue de fiéis, como é este projecto. Foi então que o vi, coincidente, o breve artigo sobre um pintor que pouco pintou. Escreveu-o Cristina Pratas Cruzeiro, sobre Guilherme Santa-Rita. Lembra ela ali o «Futurismo, ideologicamente assente na teoria da selecção natural de Darwin» e há aqui em frente uma exposição sobre Darwin que esta noite foi revista na minha memória de a não ter visto. Os manifestos futuristas fizeram cem anos em 20 de Fevereiro. «Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo», escreveu Filippo Tommaso Marinetti.
Regressei agora a casa, para conferir a citação a seu respeito: «dispensava força nêurica a mais, em projectos maravilhosos,em concepções imprevistas, em imaginações faulhantes, para poder materializar o que projectava, o que concebia, o que imaginava (...)». Escreveu Carlos Parreira, em 1918 sobre aquele que «terá deixado muito mais acções futuristas que obras». Monocromático, cubista, bi-dimensional, A Cabeça, o seu momento de geometria abstraccionista.

20.4.09

O Dr. Pomadinha

Consegui um recanto de tempo para ler uma palestra que Pinharanda Gomes proferiu em 20 de Março de 2006 na Sociedade Histórica para a Independência de Portugal sobre o pensamento de Agostinho da Silva. Texto curto, juntam-se-lhe os de duas outras intervenções do ilustre natural de Quadrazais proferidas nesse mesmo ano sobre o filósofo «caminheiro, mendicante ou itinerante», como ele lhe chama com afectuoso humor. Editado pela Zéfiro.
«Em contra do signo sebastianista, Agostinho escolhia o signo henriquino, o espírito de acção contra a resignada paixão: da arca fez barca».
Aprende-se muito em pouco tempo. Às vezes são pormenores que fazem sorrir, suma lição num mundo tão façanhudo. Agostinho - qual Agostinho?, pergunta-se o palestrante - publicou um estudo chamado Elogio da Academia. Documentos Literários. Assinou-o «com três pseudónimos: Doutor Botocudo Júnior, João Cabrinha e Dr. José Pomadinha». Fantástico gozo, magnífico intervalo.

19.4.09

O acaso

Li isto: «Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências. Elas nunca são procuradas e, no entanto, aparecem-nos sem que estejamos à sua espera. São uma espécie de Pã, no meio do caminho, sobressaltando-nos o passo, agitando-nos a alma». É um texto de Cynthia Guimarães Taveira, publicado nos Cadernos de Filosofia Extravagante, aqui.
Esta manhã sucedeu isto: escrevi esta manhã um post sobre a Clarice Lispector. Minutos depois chega um alerta Google, de que alguém tinha escrito num blog que começara há bem pouco tempo um texto sobre a Clarice Lispector: aqui.
Há qualquer coisa de absolutamente selvagem nas coincidências! Efectivamente.

7.4.09

Quadros, Bruno, a identidade do eu

Não sei quando li António Quadros pela primeira vez, nem quando me atrevi a escrever sobre ele. Foi muito antes de a vida me ter marcado agora encontro consigo. Sei é que acabei de ler o que só há pouco tempo me ensinaram ser, afinal, o seu único romance: Uma Frescura de Asas, editado em 1990.
O livro, coitadinho dele, vem maltratado com gralhas, pois deve ter sido composto por um tipógrafo calino como eu e revisto por um catador pior ainda do que eu quando me armo em revisor.
É um «livro insólito», diz-se na contra-capa. É um livro simbólico diria eu.
Na aparência é uma biografia de José Pereira de Sampaio, que passou para a História como Sampaio Bruno, mas eu creio que é, em muito, uma biografia espiritual do próprio António Quadros.
Li-o em quatro fôlegos. A narrativa é a de um homem, João Pereira, que está no leito de um hospital onde acabará por morrer. Qual é o seu nome alcança-se em dois momentos. Que se chama João na página 20, que é João Pereira na página 89.
De que trata? De muitas coisas, todas as que têm valência nas entranhas de um homem em crise ante si próprio: de Deus e dos Anjos, dos homens e do demais.
A narrativa assume a forma de um diário, que vai entre 6 e 11 de Novembro de 1915. Foi na verdade nesse primeiro dia que o autor de O Brasil Mental foi operado pelos cirurgiões Júlio Frankini e Severiano José da Silva. Sofria, desde os poucos meses de idade de uma rotura na virilha direita, estado que se agravou, por descuido seu, quando sofreu de uma hidrocele, que o impedia de caminhar. Morreu pelas 19:00 do dia de São Martinho.
Descontado o muito que é semelhante na história, importaria descortinar o que marca a pouca diferença. Uma biografia de Quadros está por fazer. Penso que ele a iniciou biografando-se através desta biografia romanceada. «Eu não podia escrever a eu, porque o eu é o mesmo e não tem outro. Onde há unidade de substância não pode haver dupla consciência», deixou ele, como uma chave para o mistério desta sua estranha criação.
Um seu dedicado e tão esquecido nessa dedicação, Jesué Pinharanda Gomes, disse na Colóquio que ele escreveu sobre «todas as escalas do humano e do divino saberes»
Hoje nem Quadros nem Bruno existem. É pena que criaturas destas se vão. Sei que o fazem de um modo singular: «Fechei os olhos para não ver que me estavam a ver», escreveu o biógrafo romancista. É neste acto de timidez que se lhes resolve a agonia de morrerem.

30.3.09

Optimismo levitante

A dedicatória era singela, amiga: «quando folheares este livro lembra-te dos dois dias de grande camaradagem que passámos no Redondo, 14/8/56». Encontrei-a, mal arrumada, na estante de literatura de ficção portuguesa, a edição tirada em 1956 pela Livraria Tavares Martins do livro A Alegria, a Dor e a Graça de Leonardo Coimbra, a que o editor juntou o diálogo Do Amor e da Morte. Estava num alfarrabista em Coimbra, um primeiro andar de preciosidades. Obra revista e prefaciada por Sant'Anna Dionísio, comemorativa de vinte anos do desaparecimento do filósofo. De ambos aqui falei, ainda ontem precisamente, tudo a evidenciar que o acaso é uma preguiça do espírito para não se confrontar com o embaraço dos acontecimentos destinados. «Podeis dizer que os indivíduos permanecem, porque, se acendeis a luz, eles surgirão», escreve o magnífico autor de A Rússia de Hoje e o Homem de Sempre. Uma escrita de um «optimismo levitante» lhe chamou o prefaciador. Necessária escrita, indispensável optimismo, chegado a Lisboa, ferroviariamente.