18.12.08

O corpo espiritualizado

Quem ler o estudo que Dalila Lello Pereira da Costa publicou em 1970 sobre o êxtase antecipa o que condensou em 1981 no livro Os Jardins da Alvorada. Está lá tudo, essa indiferenciação do arroubo anímico e do espasmo carnal, o fremente de luz e de silêncio, a possessão, o instante imóvel e depois a infinita paz da reconciliação com o outro através de si, o encontro místico com Deus, o amor de conhecimento entre os humanos.
Eis o que em Julho de 1973 está escrito neste magnífico texto a que chamou A União em Corpo de Glória (ou a comunhão dos santos): «(...) de súbito, sem te fazeres anunciar ou ver, depuseste teu beijo no lóbulo da minha fronte direita, prolongado, inifinito. Depois, na palma da tua mão direita erguida ao alto, pousei e uni a minha. Para segundo contacto, passagem. E ao alto da tua cabeça pousei a outra mão. Em três pontos, em círculo fechado de vibração amor que se sentia e corria sem fim, sobre si, para sempre e sempre gozado. Mudo e sereníssimo. Que outro corpo então conhecido? Em que vida então colhida? Em que animação dela, nele, nunca conhecida? Estreme. Línguas de fogo mil, nele vertidas e circulantes. Pentecostes, céu vertido na terra, esta nossa de agora».
De livro em livro, de memória fui consultar uma lembrança. A Subida do Monte Carmelo de São João da Cruz, de que tenho um exemplar impresso pelo Carmelo de São José em 1947, vê o seu inflamado texto antecedido de um verso que fica como um acto majestoso de esplendorosa ambição da luz pela sacrificial renúncia às trevas: «para vir a gostar tudo, não queiras ter gosto em nada». Inicia-se assim, em ascensão e ascese, a purificação activa dos sentidos e do espírito, o fim da noite escura.

4.12.08

O espírito transformador

Narcísico, falando do Alter para assim falar do Ego, Alfredo Pimenta proferiu, no dia seis de Maio de mil novecentos e trinta e cinco, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, uma lição notável. Chamou-lhe «Auto-biografia filosófica». Referiu-a como sendo a do seu amigo Francisco de Lucena. Mas era, afinal, sob este artifício literário a narrativa, em prosa esmerada, do seu próprio pensamento.
Espírito inquieto, este «enamorado da Beleza» e «esfomeado da Verdade», como o surpreendeu Henrique Barrilaro Ruas, vogou tempestuoso pelas «Sete Partidas do Mundo do Pensamento», para arribar ao porto tranquilo da Abstenção Filosófica, vindo do mar do cepticismo.
A separata em que o li, magra de trinta e quatro páginas, encontrei-a no espólio que doou à Fundação Calouste Gulbenkian.
Falando para jovens, deixou num momento luminoso dessas «considerações superficialmente amenas», a mostra da sua vincada lucidez. Citando Séneca, recusou grandeza ao efémero, ao precário, ao imperceptível passageiro tempo presente.
Basta a infinitude do futuro e pensar quanto o tempo circular corre perseguindo o seu próprio passado, para se saber, e por isso acreditar, que o flagrante instantâneo do tal tempo presente é apenas a ilusão do encurtamento da distância, Eis o que torna a nossos olhos o menor em maior, o que já foi no que ainda parece ser.
Só por esta centelha de verdade valeu a pena interromper a tarde chuvosa de um quotidiano no mais enganado.

22.11.08

Uma tragédia subjectiva

A minha geração vive a recta final da sua existência. Fomos nós aqueles para quem a vida foi matéria, o pensamento razão, o sentimento sensação, o real o cognoscível, o tempo um intervalo certo na dimensão do espaço. Fomos nós quem, por causa do naturalismo empurrámos tanto saber para a sociologia, por causa do positivismo tanto do anímico para a psicanálise, fomos nós quem sacámos do pragamtismo a amoralidade, do sensualismo fabricámos a forma hedonista de viver e inventámos a sociologia e a psicologia e todas as formas de nivelamento e catalogação do diferente e do surpreendente, reconduzindo o original ao curro da taxonomia, plantando a árvores dos conceitos onde estava o jardim dos enunciados.
A minha geração herdou os monstros da razão, filhos incestuosos da dialética perversa e seu relativismo ontológico e do aviltamento concentracionário do humanismo e fez deles formas mansas de governo e de domínio: fomos nós quem idolatrou o Estado que devora os seus filhos, cidadãos seus contribuintes, quem do egoísmo e do individualismo fez o dissolvente veneno do consumismo, que inutiliza a produção e abastarda o valor, gerando o lixo e o excesso, hipotecando o ser à usura do ter.
Foi no nosso tempo que o homem chegou à lua perdendo o mito lunar e se exilou nas estrelas alucinogénicas por ter tornado dejecta a terra que o viu nascer, transmutando o ouro do amor salvífico no ferro da guerra assassina.
Um outro mundo, porém, uma Atlântida florida, foi cultivada em discreto silêncio pelos poucos excelsos que souberam resistir ao nivelamento vil de tantos outros ninguém. Revelada pelos símbolos, astrolábios do saber esconso, encontra-se no labirinto da Criação pela fé gnóstica na necessidade de navegar. Nela o tempo gira em sentido retrógrado, a areia do seu relógio mal oculta as inscrições arquetípicas na lápida da Tradição.
Terra de mitos, de lendas e de cantares, em que o saber se alcança pela adivinhação, povoada de habitantes cuja inteligência sente e em que o coração pensa, nela morre a matemática do contável, por surgir, radiante, a poética do cantável.
Pensei hoje em tudo isso, porque o pensamento é real pluralidade do fragmentário e não a aparente unidade do sistemático.
Pensei nisso, nas doze estações da inteligência, porque, rendido ao sono, senti a proximidade daquele mundo «em que tudo é símbolo e analogia», em que «uma coisa nem parecida com a existência (vem) ocupar não o espaço, mas o modo como eu pensava o visível».
Viajei, com o Fausto, Uma tragédia subjectiva, do Fernando Pessoa. Quem descobrir a Verdade não pode sequer dizê-la nem tão pouco pensá-la. Ela é o indizível, o infinito para além do que ainda não começou. Regressei agora para vir escrever este silêncio.

26.9.08

O querer bem

Foi a aritmética quem liquidou a poesia, silenciando a música. Ao aprender a contar, o homem viciou-se no pecado de medir, perdeu a suprema graça da sua encantadora unidade. Em vez da indivisibilidade do ser, passámos à multiplicação das individualidades. Cada criatura é o que se adiciona, a vida feita de subtracções ao tempo que falta.
Depois ficou tudo imóvel, parou a música das esferas que é o contínuo em movimento. Descobriu-se o zero e com ele a posição relativa de cada um no corpo do número e com isso a ordem da sua grandeza. No infinito do firmamento contém-se a totalidade do firmamento e o sonho das estrelas que o vão gerando.
Inferiorizados, os portugueses tiram-se reciprocamente as medidas do seu exterior, anotando o total do que é visível. Ao avantajamento de bens sucede a soberba do intelecto. Há um dia em que a arrogância da maldade demonstra a exuberância de se querer bem. Reduzido à sua insignificância, o objecto do desejo cai afogado no mundo de todos os outros.

22.9.08

O pensamento inquieto

O que interessa num livro? Às vezes o que nele se escreve, outras as notas à margem com que alguém o glosou, quantas vezes a beleza da própria capa, o cuidado de tipografia, até a riqueza da encadernação.
Ora no caso desta tarde, feita da necessidade urgente de trabalhar na profissão e do cansaço mental a evitá-lo, parei por uns momentos, devolvido à liberdade tranquila, para uma visita à estante. Ali estava, impresso a mando da Editorial Império, sita na Rua do Salitre, em 1945, o Leonardo Coimbra, apontamentos de biografia e de bibliografia, escrito pelo Álvaro Ribeiro.
Tinha-o o lido e talvez o releia ainda hoje, quarenta e oito páginas em estilo límpido.
Mas o a propósito vem de uma nota, escrita na folha de guarda, ao lado do nome Leonardo Coimbra: «Leonardo Coimbra: um dos maiores pensadores de todos os tempos. Fundador do sistema filosófico intitulado creacionismo. Converteu-se à Religião Católica depois de longos anos de estudos filosóficos e científicos. Foi professor do Liceu de Gil Vicente na época de 1918-1919».
Mais: diz a nota que o livro é uma recordação do curso de Religião e Moral do ano lectivo de 1952-1953. O aluno, do 5º ano, turma B, chamava-se António José Nery de Oliveira.
Terminou tudo num alfarrabista. Recuperei-o, guardei-o, li-o, visitei-o esta tarde de inércia.
«Nunca o pensamento inquieto poderá desenhar uma figura rectilínea», escreve Álvaro Ribeiro sobre o autor de A Alegria, a Dor e a Graça. Talvez por isso os tropeções do espírito, as pernas do afecto a ensarilharem-se no intelecto.

A coincidência assombrosa

Reflexão nocturna! Quantas vezes o oculto se esconde no coincidente, assim se desconsidere o acaso e se tente ir à razão da máxima probabilidade. Pensado isto ontem, li esta manhã a resposta vinda do Aquém: «Pedro Martins parte de uma coincidência assombrosa: D. Dinis nasceu em 9 de Outubro de 1261; Álvaro Ribeiro, o filósofo desconhecido que se propõe desocultar, morre no mesmo dia, 9 de Outubro, mas 720 anos depois, em 1981. 720 anos exactos!». É um novo livro da editora Serra d'Ossa: O Céu e o Quadrante, Desocultação de Álvaro Ribeiro. É a legitimação do que aos dezanove anos intuí, abandonado pelo último dos Além's.

20.9.08

A dual negativa

É possível um filosofar de portugueses, que seja diferente só por ser oriundo dos nascidos em Portugal? Talvez não, apesar de terem uma língua comum, a fazer supor uma matriz unitária de pensamento, e já não se pode dizer que haja, a unir-nos, a Raça.
É possível um filosofar que seja sobre assuntos portugueses, que sejam diversos só por serem os que respeitam a Portugal? Talvez não, mau grado termos como Nação questões nossas e como Estado problemas que são próprios, e ainda haver quem acredite na Pátria que é una e indivisível.
Ora a questão reside precisamente no território definido por esse duplo talvez não, a dual negativa dubitativa.
É por causa da força mental da incerteza que se tem animado a razão a que se chamou de filosofia portuguesa. Escavam no modo de ser português, nessa antropologia do homem lusitano de que o espanhol é o além-fronteira, uma psicologia social que seja una e indistinta; escavam na tradição e seus arcanos os sinais de uma única antiga História da portugalidade.
É possível pois uma filosofia portuguesa. Ou melhor dito, existe, mesmo quando os portugueses não reconhecem Portugal.

15.9.08

Deus e o Diabo

O pricípio do terceiro excluído, o tertium non datur da filosofia aristotélica, tem seguramente que adaptar-se, como excepção, ao pensamento português. Escreveu Teixeira de Pascoaes «Deus e o Demónio são incompatíveis em toda a parte, excepto em Portugal». Está entendido? Não vale a pena insistir na tentativa de superar a exclusão. A filosofia portuguesa toda está contra, mesmo um anjo com asas.

14.9.08

O mirone do ajuntamento

Sabem todos os que com a filosofia portuguesa se ocupam e mais ainda os que com ela se preocupam, o que se passa.
Criei este blog para ir deixando por aqui apontamentos, leituras, notas soltas, provindas desse meu amor ao que Álvaro Ribeiro viu, e tantos outros sentiram: a possibilidade de uma filosofia portuguesa, reflexo anímico do modo de ser português. Saltito entre os nomes, os de Leonardo Coimbra, Orlando Vitorino, António Quadros, Pascoaes, José Marinho, Braz Teixeira, António Telo, muitos outros. Dalila Lello Pereira da Costa.
Apesar desta minha devoção tenho tentado ignorar o que se passa.
Tenho lido pouco, coleccionado livros para a estante, pensado quase nada, sentido sobretudo em silêncio. O blog ficou parado, asteróide morto na estratosfera, uma ideia sem substância, uma energia não corporizada.
O cansaço pressagia por vezes tempestade, tal como na Natureza quando uma súbita calmaria anuncia a chegada de uma trovoada.
Esta manhã enfrentei o que já sabia tinha acontecido. Fui à Leonardo ler e na carta aberta ao Jesué Pinharanda Gomes estava tudo. Choveu na minha alma.
Ser solitário, cada vez mais refugiado no ensimesmamento, sempre teria dificuldade em conviver com a multidão que se reuniu em torno da Nova Águia. Talvez nem queira ser mirone do ajuntamento.
Criatura a quem as lógicas de mando e domínio nada dizem, é impossível imaginar-me a filosofar a obediência ao Céu no areópago dos que querem o mando na Terra. Mesmo a ideia de dizer que filosofo é um dito que tem de vencer o pudor para me sair da boca.
Avesso à vozearia, incapaz de não me perder na algazarra da praça, lembro sim, com saudade,´a reconfortante ideia da tertúlia, o calor amigo da roda solta do café e das conversas desgarradas, não tê-las conhecido, sim por ter sido capaz de as viver, precisamente ao ler um texto do Pinharanda Gomes.
Talvez por isso, faça dó o que vejo. Ou talvez se deva olhar para tudo isto como uma das convulsões pelas quais a vida gera vida. No final, cada um ficará onde tem de ficar. Tudo menos as ilusões.
Ante isto, que fazer? Ruminar, talvez, fastios, regurgitar, sim, imprecações. Desejar um bom domingo ao Moraes Sarmento e quando chegar a casa ir lêr. Pausada e solitariamente, por nada, para que possa, enfim, ser por alguma razão.

20.8.08

O segredo

Ana de Castro Osório, que recusou casar com Camilo Pessanha, editar-lhe-ia, em 1920 a Clepsydra. Amor irrealizado, tinham-se unido pela fraternidade do sentimento, iniciados que já estavam na fraternidade universal da filiação maçónica, antiga e aceite, em que haviam encontrado a via oculta, a palavra sagrada, a cadeia da união.
Opiómano, emigrado para uma terra de exílio, Pessanha sofreria da mesma doença que Wenceslau de Moraes, o viver como um sonâmbulo num sonho alheio, numa pátria estrangeira.
Danilo Barreiros descrevê-lo-ia como «o morto-vivo», os chineses de Macau chamavam-lhe «o homem da meia vida».
No seu mais simbólico verso, o Branco e Vermelho, fez a viagem final, alucinatória, pelo território da luz. O poema inaugura-se com: «A dor, forte e imprevista/ Ferindo-me, imprevista/ De branca e de imprevista/ Foi um deslumbramento/Que me endoidou a vista/Fez-me perder a vista/ Fez-me fugir a vista/ Num doce esvaimento».
É a fenomenologia de um êxtase, a linguagem dos místicos, o dizer indizível, o segredo. Disse-o António Quadros, na Páscoa de 1988.

2.6.08

Os quadrilheiros

Talvez seja mesmo o ensimesmamento a saída única para um espírito angustiado, pesaroso pelo definhamento mental da maioria, e pelo espírito de milícia dos que se julgam os eleitos.
Numa qualquer cave de sinistras ideias, fabriqueta de petardos que arrombem as frontarias do ruminar oficial, o inferno por baixo, ou em qualquer mansarda, onde se embriague o espírito no alheamento do real, o céu como horizonte, a poética como companhia.
Portugal são hoje quadrilhas mentais que contam espingardas de erudição e se fuzilam com balas de retórica.
O pensamento pátrio começa a reduzir-se a isto: exumação e panegírico fúnebre. Não são discípulos são necrófilos; não são continuadores, são coveiros.
Não pertencer a nada, não ter grupo, nem seita, café certo ou família que nos reconheça é o que resta aos poucos que se queiram salvar dos salvadores de Portugal.
A filosofia portuguesa está nisto: os mestres pensadores deviam estar na a vala comum, onde nenhuns salteadores de sepulcros os encontrem. Vileza, ao que isto tudo chegou!

8.2.08

Leitor desconhecido

Fidelino de Figueiredo escreveu um livro estranho e assimétrico, chamado «Um coleccionador de angústias», que preâmbulo confessa dever-se-ia chamar «Agonia do Individualismo». Nesse livro apela, lembrando-o o «leitor desconhecido». Tenho-o comigo e hei-de lê-lo um dia. Seguramente um dia, tal como ele «de cor, por quartos de hotéis, de país em país».

6.1.08

Dalila, a sensibilidade pensante

Soube pela revista «on line» Leonardo que a Dalila Lello Pereira da Costa tinha publicado mais um livro, intitulado, «As Margens Sacralisados do Douro Através do Vários Cultos».
Veio pelo correio, e ei-lo, enfim, a ser lido. Comecei pelo fim, como faço por vezes com os jornais, como quem progride do já sabido para o como se soube.
A segunda parte da obra de «pristina nostalgia» é dedicada «à irmã Galiza, com saudades».
E é sobre a saudade «essa disciplina espiritual suprema» que assina um texto, tal como escreveu, em 1975 - ano impróprio para tanto - um livro, com Pinharanda Gomes.
«A saudade vence a irreversibilidade do tempo e a distância do espaço, efectua a sintese, ou mais a união do espaço e do tempo, anulando sua aparente diferença e desunião: e anulando-os finalmente como forças terrenas».
É pela força libertadora da saudade que o homem português descobriu o céu e a terra, em busca do «mito do ser e estar paradisíaco», argonauta do mundo por haver.
Lerei tudo, este livro e todos os outros.
Ama-se esta mulher pelo que é, pelo que sabe sentir e sabe fazer-nos sentir. Obrigado por ter sido como é, essa magnífica «sensibilidade pensante». Nasceu em 1918.

7.10.07

Adolescência regressiva

«Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem com os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, como portugueses». António Quadros o escreveu, no seu livro Portugal, Razão e Mistério.
Encontrei esta citação, não em um dos dois volumes dessa obra, mas aqui, neste blog que é dedicado ao seu pensamento. Actual o dito, como todos os suas semelhantes, neste ciclo em baixa do ser português. Não é uma questão de política, é um problema de sociedade em geral. Num país que se não reconhece como Nação e tem vergonha se ser Pátria, em que deixou de haver cidadãos, os poucos eleitores, os muitos contribuintes e todos os indiferentes, vivem aqui, como se turistas fossem, na terra multi-secular dos seus avós.

24.8.07

Setembro, em Sesimbra, a 4

Segundo li no blog Telegrapho de Hermes, citando como fonte a Revista Leonardo: «57 livros para a história da Filosofia Portuguesa é tema de uma exposição que vai estar patente, entre 4 e 22 de Setembro, na Biblioteca Municipal de Sesimbra. No último dia, realiza-se, pelas 15 horas, um colóquio sobre Rafael Monteiro e a filosofia portuguesa com participação de António Reis Marques, João Aldeia, Roque Braz de Oliveira, António Telmo, Pedro Martins e Luís Paixão. A iniciativa insere-se nas comemorações dos 150 anos de Filosofia Portuguesa». Um acontecimento a não perder.

11.8.07

As normas corporativas (2)

[continuação] «As normas corporativas não podem contrariar as disposições legais de carácter imperativo», diz o Código Civil. Mas, como dissemos, são fontes imediatas de Direito, como vem no mesmo Código, que ao acrescentar que «os usos que não forem contrários aos princípios da boa fé são juridicamente atendíveis quando a lei o determine», não se esquece de anotar que «as normas corporativas prevalecem sobre os usos».
Faz espécie que, tendo a Revolução de 25 de Abril de 1974 extinto o regime corporativo que a Constituição antes vigente, a de 1933, proclamava ser o nosso regime político, continue teimosamente no Código Civil, ostensiva e provocante, uma norma a considerar que é fonte de Direito o conjunto das «normas corporativas», que, como recordamos no último texto, são «as regras ditadas pelos organismos representativos das diferentes categorias morais, culturais, económicas ou profissionais, no domínio das suas atribuições, bem como os respectivos estatutos e regulamentos internos».
Como solver este mistério de sobrevivência jurídica e de aparente incongruência política?
Os mais práticos, aqueles que querem fazer passar por refinada teoria o que é afinal uma mera ideologia, dirão que se trata de um esquecimento do legislador, há trinta e três anos perdida a norma no olvido de quantos modificaram o sistema jurídico nacional ao sabor das conveniências mais diversas, pois que seria incongruente um Direito que, sendo do corporativismo, seria afinal o de um «fascismo», pois não é com mimos menos ásperos que o nosso corporativismo de base doutrinária eclesial tem sido tratado, apesar de os mais lúcidos analistas, como Manuel de Lucena logo à cabeça, terem mostrado quanta diferença há, entre tanta semelhança que parece existir.
Mas, e se não se tratasse de um lapso legisferante, mas de uma significativa manifestação filosófica e mais profunda, a evidenciar um lastro aglutinador típico do modo de ser português do nosso Direito? Se fosse essa uma fenda na muralha positivista do nosso sistema jurídico escrito, a abrir caminho a uma filosofia jurídica portuguesa, nossa?
É que, a ser assim, o que o Código Civil diria, enquanto carta de alforria da Pessoa face ao Estado, seria que, precisamente ao lado das leis estaduais, que se dirigem aos cidadãos e suas organizações, existiram as normas da comunidade organizada de pessoas, as corporativas, inderrogáveis como conceito, perenes como instituições. Não poderiam, isso é certo, ser anti-leis, mas seriam reduto privativo de normatividade, área inexpugnável de um mundo jurídico próprio, pelo Direito reconhecido e por ele legitimado.
E porquê? Porque dirigindo-se às categorias «económicas ou profissionais», e nisso abrangendo as empresas, os sindicatos e as associações de classe, não deixariam de fora as categorias morais e as culturais, nas quais não está o cidadão, nem o indivíduo mas sim a Pessoa, armada da sua dignidade, da sua espiritualidade, da sua alma, que não há Direito que usurpe na sua intangibilidade.
Inviolável que o é, a Pessoa, gozando dessa majestade ética típicamente da sobernia do ser, não poderia estar contra o Direito, mas sempre estaria antes do Direito: ela seria o fundamento, a razão, a única forma de legitimação de todo o Estado, de todas as leis, de todos os que vivem para as acatar e para as fazer cumprir.
Eis pois, fruto desta escavação arqueológica pelo Código Civil, um dos alicerces de uma filosofia jurídica portuguesa, a perenidade civil das «normas corporativas». Desmintam-me, que não quero estar convencido se estiver em erro!

As normas corporativas (1)

Julgam tantos que é possível ter sobre o Direito um pensamento que seja universal para todas as Nações, mau grado o Estado que as tribute, apesar do que for a Geografia, que de cada espécie humana faz um indivíduo diferenciado, da Tradição territorial que de cada cidadão faz um patriota constitucional, da Opressão que torna cada contribuinte num resistente activo.
E, no entanto, um instante de reflexão logo mostra o irrazoável de tal possibilidade, anulando-lhe a existência.
Não havendo Direito igual não pode haver sobre ele um pensamento uniforme, por vezes nem a convergência é sequer possível: assista-se a um italiano a falar num colóquio jurídico em face de uma audiência de escandinavos e conclua-se ao rir!
O discurso sobre haver ou não uma «filosofia portuguesa», estende-se ao saber se há ou não uma filosofia jurídica para Portugal. A resposta só pode ser: há, porque é.
Enquanto formos uma identidade psicológica distinguível, e ainda o somos, teremos como Nação um nome, a dos portugueses; enquanto tivermos uma sociedade civil que o Estado, vampirizando-lhe o sangue, lhe não corrompa o coração, seremos Portugal. Enquanto tivermos uma ordem, a que reconheçamos obediência legítima, que nos vença a liberdade por nos convencer da sua Justiça, teremos um Direito Português.
É sobre tudo isso que passarei a escrever.
Num país em que ainda há um Código Civil que reconhece como estando em vigor, como fontes imediatas de Direito «as normas corporativas», que seriam as de um regime corporativo deposto em 1974, mas que afinal são, diz a lei, «as regras ditadas pelos organismos representativos das diferentes categorias morais, culturais, económicas ou profissionais, no domínio das suas atribuições, bem como os respectivos estatutos e regulamentos internos», há por força este modo de ser português no campo da Justiça.
Estamos num país em que manda o Estado com suas leis, mandam as as corporações com os seus regulamentos. Só isso, que é nosso, dá para pensar. Pensemos pois!

10.8.07

António Quadros

Como antes ler do que escrever sem saber, descobri um blog dedicado a António Quadros. E nele encontrei esta magnífica frase: «O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental». Valeu a pena ter ido lá, encontrar a mordedura do ofídeo psicológico que me mordeu e que nem as férias conseguem curar.

22.7.07

O relativismo, essa água contaminada

O primeiro encontro entre o português Manuel Laranjeira e o espanhol Miguel de Unamuno ocorreu em Espinho. O triste médico encontrou no expansivo filósofo um «paradoxeur», prisioneiro do seu próprio relativismo e armadilhado pelas aporias da sua forma de dizer. Depois estreitou-se uma amizade que daria em espístolas, editadas pela Portugália e de que eu ainda anseio encontrar o livro para as ler.
Ao saber-se pela biografia de Don Miguel como, tendo sido deputado republicano e socialista em 1931, apoiou, entusiástico, o franquismo e a Falange, em 1936, para disso se arrepender em discurso violento no próprio ano, perguntei-me se, naquele momento do diálogo entre os dois em que ao ouvir dizer «qualquer água me serve desde que me mate a sede», Laranjeira responde que «assim um dia matará sim a sede e morrerá envenenado» já não estará contido, no ovo, o princípio de toda uma vida, toda uma trágica diferença que levará Laranjeira ao suicídio e ao olvido e Unamuno ao panteão da glória e às tubas da fama. Corria o ano de 1908. É sua a frase: «El modo de dar una vez en el clavo es dar cien veces en la herradura».

15.7.07

A perda de tempo

Vindo do Porto, aterrei em Lisboa e, esgotado de cansaço, dormi, pela segunda vez em dois dias, nove horas seguidas. Acordei com o turvo pensamento de pecado, a estranha sensação de incomum. Ainda em torpor, acudiu-me, entre o sono e sonho, ter visto, em Santa Maria da Feira um busto do Leonardo Coimbra, algumas das letras que lhe assinalam o nome caídas ou roubadas, enfim sumidas.
Não sei porque penso isto, nem sei porque estou ainda aqui, o banho por tomar, o dia por viver. Perto de minha casa um sino chama pelos que têem aquela fé. Hoje, além disso, é dia de votar, para os que têem essa esperança.
Lembrei-me foi de haver, entre a molhada desarrumada de livros que me cercam, um que o Alfredo Ribeiro dos Santos escreveu, biografando o Leonardo Coimbra. Esse opúsculo, que a Fundação Lusíada editou está prefaciado pelo Jesué Pinharanda Gomes. Fui lê-lo, por nele se conter uma frase provocatória acerca do Porto e de Lisboa e eu ter chegado a Lisboa, vindo do Porto: «No Porto, que trabalha, nem nunca nem ninguém, perde tempo. A perda de tempo é propriedade de Lisboa, que é, em si mesma, uma perda de tempo». Ora, pois, e eu a dormir, primeiro no Porto, e agora em Lisboa, perdendo tempo em todo o lado e em toda a parte!