8.7.06

Partículas em suspensão

A escrita neste blog encontra-se suspensa. Obrigado a todos os que o visitaram e têm procurado saber.

25.6.06

Existir e viver

Não há pior do que um cartesianao para perder o tino da razão. Basta dar conta de que não existe, apesar de pensar. Um sentimento assim e entra-se na loucura do viver.

10.6.06

Possuído de si

Voltei ao artigo de Pedro Sinde sobre o Álvaro Ribeiro na revista «Teoremas de Filosofia», por me lembrar ter visto lá escrito que o indivíduo aprenderá a separar o «eu» de «o meu». Sim, mas quando fala do «seu» corpo e da «sua alma» dá-se então o equívoco entre o que é a sua personalidade e a «propriedade sua». Possuído de si, o homem, mata-se às suas próprias mãos.

5.6.06

A semântica senil

Este blog deveria ser dedicado à filosofia portuguesa, se eu estudasse, mas eu sou um mau aluno, daqueles do curso nocturno que acham que chegarem esgotados às aulas justifica adormecerem nelas. Compro livros que não leio e calculo que por osmose a coisa funcione. Hoje encontrei um desses muitos livros em que um dos capítulos se intitula «perguntas interessantes e respostas conhecidas». Não era um manual de filosofia, era um caderninho de introdução à linguística, organizado pela Maria Helena Mira Mateus e pela Alina Villalva. Quando eu andava pela Faculdade de Direito, errante entre os compêndios e refugiado das sebentas, soube que ela dirigia um Centro de Linguística Teórica. Fiquei com a ideia de que era junto à Feira Popular. Ou estou certo ou já baralho tudo, tartamudo de todo, linguisticamente incapaz.

25.5.06

O ter-te como filosofia da existência

A tragédia do homem nasce com as gramáticas para quem o verbo ser equivale ao verbo existir e tudo ao verbo estar. Aí, nada do que não é há. E no entanto, caminham a nosso lado os que foram e já não estão, fazem-nos companhia as ilusões do que ainda virá a estar, podendo existir mas ainda não é. Um dia, numa madrugada de agonia por este confinamento da existência ao que está, um homem, armado de ser até aos dentes, atacará à bomba toda a lógica, a tiro tudo quanto é gramática. Nesse dia profundamente libertador, as forças da ordem, as que garantem que mais não haja do que o que está, sairão para a rua. Uma carnificina feroz mutilará de vez o homem revoltado. Quando o sol raiar, já nada há para quem foi. Morto o mundo do ser, surgirá então, pegajoso e regulador, o mundo do ter e as suas servidões. Um homem, dos muito poucos que sobreviverão, encanter-se-à por uma mulher. Dir-lhe-à és minha, terão um filho e a isso chamarão amor.

22.5.06

Os números racionais

A propósito de Álvaro Ribeiro, a que a revista «Teoremas de Filosofia» dedica o seu número 12, Pedro Sinde escreve que «o português é, no seu melhor, de um realismo idealista ou de um idealismo realista, que o torna felizmente incapaz da abstracção, naquele sentido ede uma reflexão separada da vida, de construção de castelos no ar». Anoto o advérbio «felizmente». Um povo que vive o que vê, e com o concreto se basta, é seguramente um povo feliz. Rural, os pés assentes na terra, sabe contar pelos dedos, basta-lhe a aritmética, dispensa a álgebra e a infelicidade que com ela chega sob a forma de números racionais.

12.5.06

Obras portuguesas on line

A Biblioteca Nacional informa: «a língua portuguesa está actualmente entre as 9 principais línguas do Projecto Gutenberg, uma vez que tem de mais de 50 obras disponíveis de forma livre. Entre as actuais 51 obras encontramos nomes de autores clássicos como Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Cesário Verde, Júlio Dinis, Ramalho Ortigão, entre muitos outros. No âmbito do projecto Distributed Proofreaders (DP), voluntários revêem obras online página a página, comparando imagens digitalizadas com o resultado em OCR. Após várias rondas de revisão, os livros digitais resultantes podem ser descarregados gratuitamente no sítio do Projecto Gutenberg (PG). A Biblioteca Nacional Digital contribui para este projecto com imagens de obras portuguesas, sendo responsável por 33 das referidas 51 obras. Para mais informações, consulte a página http://pagina-a-pagina.blogspot.com ou envie um mail para rfarinha@bn.pt.». Nós, os portugueses leitores, agradecemos. Obrigado Biblioteca.

1.5.06

Para pensar depois

«Ser português é ser europeu sem a má-criação da nacionalidade», escreveu um dos vários que eram o Fernando Pessoa. Não sei o que pense, hoje que não quero pensar. Rabisco aqui, como se num pedaço de papel, antes que esqueça e depois me não lembre o que tinha deixado para pensar depois.

24.4.06

Uma certeza aguda

Há muito tempo que eu não vinha aqui. Comecei este «blog» por achar que na geometria encontraria uma forma não geométrica de me exprimir. Depois dediquei-o à filosofia portuguesa. Com o avolumar daquilo a que me obriga o meu emprego, que eu sou mal empregado, patrão de mim mesmo e ao serviço dos outros, passam-se dias em que nem um pensamento sequer, quanto mais uma filosofia. Esta manhã um sentimento de não poder definhar mais a pontos de estar como estou, acordou comigo, no mesmo sofá. Vim aqui deixar esta nota. Escreveu-a o Reinaldo Ferreira, esse mesmo, o repóter. Li-a como se minha fosse ou de mim falasse: «Tome-se um homem, feito de nada, como nós, e em tamanho natural. Embeba-se a carne, lentamente, duma certeza aguda, irracional, intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, agite-se um pendão e toque-se um clarim. Serve-se morto». Di-lo, comovidamente, o Mário Viegas. Ouço-o, raivosamente, eu, que aqui o cito.

16.4.06

A sagesse caprina

Permita-me o incomunidades a citação: «Não se sabe o que fazem, porém mexem-se. Alinham os bodes sem formatura no mais castanho-vivaz dos carreiros entre-verdes. A sagesse caprina domina as presenças ignorantes, sua quietude altaneira oprime os compassados, os que inverteram o grito e são agora profissionais, batem, por exemplo, no burro sempre que o social os aliena». Notável frase, notável blog.

12.4.06

O hino à claridade

Por bem fazer, mal haver. Trata-se de Rosa Araújo, recordado aqui, pela voz da Villaret, tal como o lembrei, revoltado, também aqui. Leia-se mais, por exemplo aqui. É um dos muitos portugueses de que Portugal se esqueceu.

7.4.06

A esquisita revelação

Escrevi no dia 7 de Junho do ano passado, num blog que morreu chamado «O Mundo em Gavetas»: «Talvez eu consiga encontrar apenas de noite, escondido do resto e albergado dos outros um espaço e um momento, um instante singelo na complexidade do mundo plural que me aflige: poderia ser esta casa na duna, ou talvez seja uma criatura. Oculto como é esse mundo, o revelá-lo destruir-lhe-ia o encanto, quero dizer, o encantamento». Um destes dias comemoro esta frase, reparando que me esqueci dela, completamente.

2.4.06

Portugal uno e plural

O controverso Orlando Vitorino arquivou num livro a que chamou «Exaltação da Filosofia Derrotada» o que chamou «Uma Constituição para Portugal». Não vem agora ao caso falar disso, só lembrar, pelo muito que nele se diz, o que é o segundo princípio dessa sua proposta de Lei Fundamental: «Portugal é uma Nação, uma Pátria, uma República e um Estado». Digo isto e disto me lembro pois que, olhando para o que se passa, Portugal é às vezes, apenas algumas, outras vezes, uma só, destas muitas coisas de que deveria todas afinal, numa só e única coisa.

1.4.06

Não separe o homem

Istambul é a única cidade do mundo que se situa em dois continentes. Isso que mostra que a terra separa aquilo que o céu uniu: um só mundo, um só espírito com muitos deuses.

30.3.06

O culto do silêncio

Barricavam-se nas tertúlias, a filosofia surgia-lhes entre chávenas de café, pensamento pigarreante, as ideias em intervalos, o pensar como exasperação de empregos rotineiros e de ocasião. Funcionários modestos, professores de liceu, tradutores do que calhava, muitos sem escola, deixaram uma escola. As Academias desprezavam-nos, as Faculdades nem os queriam ver. Alguns são o que se chama a filosofia portuguesa, nómada e errática. A sua fé é na Pátria dos Portugueses o seus Deus uma divindade incorpórea, o divino Espírito Santo, que todos veneram, mesmo os que rezam em silêncio por uma Nação que não morreu.

29.3.06

O dom sugestivo e vagabundo

Augusto de Castro Sampaio Corte Real, que foi jornalista, director do «Diário de Notícias» e diplomata, publicou em 1928 um livro chamado «As mulheres e as cidades», em cujo prólogo escreve, a propósito do amar e do viajar o seguinte: «viajar e amar não é para todos a mesma coisa. Nós nunca amamos uma criatura humana: amamos a ilusão que em nós próprios formamos dessa criatura. Da mesma forma, para aqueles espíritos que possuem o dom sugestivo e vagabundo de evocar, viajar é passear pelo mundo real um mundo imaginário». O mais interessante é ter encontrado um blog que o cita, com carinho, pelo livro em si e pelo modo como o encontrou, de alguém que descobriu, vendido ao quilo, «este livro que alguém amou muito».

27.3.06

Acreditar em Portugal

Filho primogénito de António Ferro e de Fernanda de Castro, António Quadros, de seu nome completo Antóno Gabriel Quadros Ferro morreu no dia 21 de Março de 1993. Antónia de Sousa entrevistou-o para o Diário de Notícias que foi publicado dez dias antes do seu desparecimento. A terminar essa conversa, que seria a última, perguntou-lhe que mensagem gostaria de dirigir aos portugueses. Quadros, que sempre viveu com a intranquilidade estimulante de ter ficado aquém dos seus desejos, respondeu: «Acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de vós e sem Portugal sois menos do que sois».Lembrei-me esta noite desse grande homem e de ter escrito em 1922 um livro actual que se chamou «Memórias das Origens, Saudades do Futuro». Talvez amanhã, chapinhando no charco em que caímos, consigamos manter a crença e viva a esperança. Hoje fica apenas este momento de lembrança.

24.3.06

Porque

«Portugal existe, porque foi construído pelos portugueses«. A frase. com tudo o que tem de notável, pertence a Agostinho da Silva, numa entrevista dada a Miguel Esteves Cardoso, um estrangeirado que fala português.

23.3.06

A prova real

Desejos multiplicados, receios diminuídos, face à adversidade, dividir, nos bons momentos, adicionar, esta é a aritmética simples dos afectos. Depois, há as operações mais complexas, as do cálculo frio dos interesses, a geometria dos equilíbrios. No mais, há quem viva estatísticamente, no risco da maior probabilidade, quem sobreviva em conjuntos, no conforto dos mundos concêntricos. Há quem conte pelos dedos, quem não saiba a prova dos nove. Noves fora nada!

21.3.06

Um exercício de estilo

Num livro ingénuo, que encontrei em luxuosa encadernação contrastante com a sua tipográfica modéstia, tirado em 1964, e dedicado «a quem morreu como viveu», Pinharanda Gomes, que em Quadrazais nasceu em 1939, põe na boca de Teófilo, em diálogo socrático com Crisóstomo a pergunta para a qual a minha vida ainda me não ofereceu sequer o favor de uma resposta: «o que é o modo e viver senão o exercício da morte?». «Nascer, é aparecer para morrer», dissera Crisóstomo, umas folhas antes, como se a propósito.