30.3.06

O culto do silêncio

Barricavam-se nas tertúlias, a filosofia surgia-lhes entre chávenas de café, pensamento pigarreante, as ideias em intervalos, o pensar como exasperação de empregos rotineiros e de ocasião. Funcionários modestos, professores de liceu, tradutores do que calhava, muitos sem escola, deixaram uma escola. As Academias desprezavam-nos, as Faculdades nem os queriam ver. Alguns são o que se chama a filosofia portuguesa, nómada e errática. A sua fé é na Pátria dos Portugueses o seus Deus uma divindade incorpórea, o divino Espírito Santo, que todos veneram, mesmo os que rezam em silêncio por uma Nação que não morreu.

29.3.06

O dom sugestivo e vagabundo

Augusto de Castro Sampaio Corte Real, que foi jornalista, director do «Diário de Notícias» e diplomata, publicou em 1928 um livro chamado «As mulheres e as cidades», em cujo prólogo escreve, a propósito do amar e do viajar o seguinte: «viajar e amar não é para todos a mesma coisa. Nós nunca amamos uma criatura humana: amamos a ilusão que em nós próprios formamos dessa criatura. Da mesma forma, para aqueles espíritos que possuem o dom sugestivo e vagabundo de evocar, viajar é passear pelo mundo real um mundo imaginário». O mais interessante é ter encontrado um blog que o cita, com carinho, pelo livro em si e pelo modo como o encontrou, de alguém que descobriu, vendido ao quilo, «este livro que alguém amou muito».

27.3.06

Acreditar em Portugal

Filho primogénito de António Ferro e de Fernanda de Castro, António Quadros, de seu nome completo Antóno Gabriel Quadros Ferro morreu no dia 21 de Março de 1993. Antónia de Sousa entrevistou-o para o Diário de Notícias que foi publicado dez dias antes do seu desparecimento. A terminar essa conversa, que seria a última, perguntou-lhe que mensagem gostaria de dirigir aos portugueses. Quadros, que sempre viveu com a intranquilidade estimulante de ter ficado aquém dos seus desejos, respondeu: «Acreditem em Portugal, porque Portugal está no mais fundo de cada um de vós e sem Portugal sois menos do que sois».Lembrei-me esta noite desse grande homem e de ter escrito em 1922 um livro actual que se chamou «Memórias das Origens, Saudades do Futuro». Talvez amanhã, chapinhando no charco em que caímos, consigamos manter a crença e viva a esperança. Hoje fica apenas este momento de lembrança.

24.3.06

Porque

«Portugal existe, porque foi construído pelos portugueses«. A frase. com tudo o que tem de notável, pertence a Agostinho da Silva, numa entrevista dada a Miguel Esteves Cardoso, um estrangeirado que fala português.

23.3.06

A prova real

Desejos multiplicados, receios diminuídos, face à adversidade, dividir, nos bons momentos, adicionar, esta é a aritmética simples dos afectos. Depois, há as operações mais complexas, as do cálculo frio dos interesses, a geometria dos equilíbrios. No mais, há quem viva estatísticamente, no risco da maior probabilidade, quem sobreviva em conjuntos, no conforto dos mundos concêntricos. Há quem conte pelos dedos, quem não saiba a prova dos nove. Noves fora nada!

21.3.06

Um exercício de estilo

Num livro ingénuo, que encontrei em luxuosa encadernação contrastante com a sua tipográfica modéstia, tirado em 1964, e dedicado «a quem morreu como viveu», Pinharanda Gomes, que em Quadrazais nasceu em 1939, põe na boca de Teófilo, em diálogo socrático com Crisóstomo a pergunta para a qual a minha vida ainda me não ofereceu sequer o favor de uma resposta: «o que é o modo e viver senão o exercício da morte?». «Nascer, é aparecer para morrer», dissera Crisóstomo, umas folhas antes, como se a propósito.

17.3.06

Espectador da vida

Deve-se à genialidade do pintor Almada Negreiros a fórmula que resolve numa equação enigmática a individualidade humana e o mistério do amor unitivo. No seu 1+1=1, resume-se o princípio que na química se manifesta quando o dióxido de carbono, inoculado num líquido, perde as suas propriedades próprias e assume as do próprio meio onde se espraia. É assim a união carnal, liquefazendo-se ambos, num extâse criador. «Tu és tu, porque é assim que és», disse ele, complacente no vértice de uma vulgar tragédia. Eu sei, pensei eu, espectador da vida, mineralizado em conceitos, és apenas um número, a tua angústia o não saberes se, ao sê-lo, és o máximo divisor, se o menor denominador comum. Um número, apenas isso. O número perfeito, irracional, o número de ouro, a extrema razão.

14.3.06

O som maravilhoso

O último livro que o António Alçada Baptista escreveu, publicado em 2003 e que oxalá não seja o último livo que o António Alçada Baptista escreva, chama-se «A Cor dos Dias» e são pequenas notas bem-humoradas, longe do estilo íntimo e espiritualizado da sua «Peregrinação Interior». Naquele fala alto e bom som com cada um de nós, neste falava num mumúrio com o próprio Deus. E, talvez por isso, perguntado que foi sobre «o que faz o senhor quando está só», revela-nos ter respondido: «escuto-me a viver e é um som maravilhoso».

11.3.06

Pascal: o geómetra dos sentimentos

Quando tinha dezasseis anos, Pascal descobriu que «se partirmos de um hexágono inscrito numa cónica, então os três pontos nos quais os pares de lados opostos se encontram ficam alinhados». Este teorema tem o seu nome. Quando eu tinha dezasseis anos, descobri o Pascal à força de ter de aprender filosofia no Liceu, com um professor que se chamava Pelicano. Mas o Pascal que eu encontrei, ensinou-me esta regra para toda a vida: o amor é cego, a amizade fecha os olhos. Vem nas folhinhas de um livro que ele nunca conseguiu acabar, o livro que nem precisava de escrever.

8.3.06

Apóstrofe

«O português gosta de fazer projectos vagos, castelos no ar que não pensa realizar. Mas no seu íntimo alberga uma secreta esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente». Esta frase foi escrita há cinquenta anos, por Jorge Dias, o antropólogo que estudou em adulto, morreu cedo e nos deixou o levantamento etnográfico sobre o comunitarismo de uma aldeia hoje submersa, Rio de Onor e uma colecção vasta de estudos. O livro chama-se «O Essencial sobre os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa», foi publicado pela Imprensa Nacional de 1985. Encontrei-o referido no «site» do Centro Nacional de Cultura, num artigo de Guilherme de Oliveira Martins, que agora, é pena, mas assina «d'Oliveira Martins».

5.3.06

Aritmética e geometria, essas palavras femininas

Olhares oblíquos, pensamentos transversos sobre volumétricas formas de improváveis mulheres, o piramidal acicate da carne, o ortorrômbico da crustácea desilusão. A cardinalidade dos números inteiros mostra a sua natureza finita. Contando-as pelos dedos, as que passam por esta rua, saídas do colégio, parecem não mais acabar.

4.3.06

Trier

Ter uma filha que esteve em Trier, ter eu já estado em Trier, ter o Karl Marx estado em Trier e terem estado, antes de todos nós, os romanos em Trier, faz-me lembrar que nada há hoje que não tenha sido, o que foi, será. Eu sei que é uma esperança de vida e uma ânsia de camaradagem, entre nós, antropologicamente semelhantes e por isso diferentes.

2.3.06

Teologia de táxi

Foi no táxi, porque foi no táxi que tive dez minutos de tempo, o livro era pequeno, cabia num cantinho da pasta e o capítulo menor ainda, legível na duração da corrida. Era o Borges, o Jorge Luís, com quem fiz as pazes e que leio agora, descobrindo-o - eu analfabeto confesso, arrependido da incultura, agora na meia-idade, que é a idade do saber - filósofo profundo, escritor sensível, irónico observador. Numa breve reflexão sobre o tempo circular, lança a ideia delirante de um conto, que talvez nem tenha chegado sequer a escrever, de um teólogo que persegue o herético, denuncia-o e fá-lo queimar nas fogueiras inquisitoriais para descobrir, num espanto tardio e já inútil, que para Deus omnisciente, Nosso Senhor, o herege e ele eram, afinal, uma única e só pessoa. É assim que se compreende o sublime da vida: cada coisa precede-se a si própria, mas só no infinito do eterno o múltiplo se funde no um, para se expandir no vário, renascendo no exacto momento de morrer.

1.3.06

A lesma, esse caracol sem casca

O «cá se vai» tão tipicamente português é a forma adequada de exprimir o nosso modo de ser: vista do ponto de vista verbal, sugere movimento, a sua verdadeira significação é o simbolizar o imobilismo. Normalmente, acrescenta-se um «tudo na mesma», para não haver enganos e alguém imaginar que estamos de partida. O melhor remoque ainda é o «tudo na mesma, como a lesma»: assim percebe-se tudo e ainda se pode responder, querendo ser amável: «é a vida, não é?», não vá alguém supor que estamos mortos, cá se indo!

27.2.06

O nítido nulo

Através da História conhecemos todo o tempo que os outros nossos antecedentes já viveram, através da Geografia, conhecemos mais mundo do que eles conheceram. A única dúvida é não sabermos quando começou o tempo nem onde acaba o mundo. Dividindo infinito por infinito o resultado é zero. Ou seja, comparando-nos com os nossos antecedentes, estamos pior, ao nível do nulo, nitidamente.

26.2.06

A tautologia e o cardíaco

Bertrand Russel disse um dia que as matemáticas mais não são do que uma vasta tautologia, já que dizer três mais quatro é, afinal, uma outra forma de dizer sete. É por isso que a gramática poética é o fundamento do único conhecimento e da única linguagem enriquecedoras: não por se aprender com a cabeça, mas sim porque se apreende com o coração.

Os blogs de JAB!

Dia de arrumações, criei um blog em que, dizendo de quem se trata, deixo, de modo arrumado, a lista dos blogs que criei e o modo fácil de saber em que dia os actualizei. A partir dali linkam-se todos. Não é que eu tenha muitos leitores, mas acho que lhes devo ao menos o respeito de me organizar. O blog tem o meu nome e encontra-se clicando aqui!.

23.2.06

Por causa que não na sei

Sabem os que sabem que a «Menina e Moça» do Bernardim Ribeiro é um livro carregado de sentidos ocultos e que se presta a hermenêuticas esotéricas. E sabem muitos, sobretudo os que como eu aprendiam Literatura no liceu com gosto, ou à força de chapadas, ou num misto de tudo, que ele começa com «Menina e Moça me levaram de casa de meu pai para longes terras». Agora o que nem todos sabem é o resto: «Qual fosse então a causa daquela minha levada - era pequena - não na soube. Agora não lhe ponho outra, senão que já então parece havia de ser o que depois fui». Haverá melhor forma ou outro meio de, numa frase só, dizer de todo o fatal sentimento deste povo predestinado e do seu fado ignorante? Talvez haja e vem no livro, ainda no seu prefácio: «O livro há-se ser o que vai escrito nele. Das tristezas não se pode contar nada ordenadamente, porque desordenadamente acontecem elas». Eis-nos pois, em desordem, pela vida levados, por causa que não na sabemos, com uma tristeza que nem podemos contar.

16.2.06

A charanga

Agora vai ser até rebentarem com o Agostinho da Silva. Quando era vivo quase metade ignorava-o, a maioria do resto tomava-o como um palhaço, uma minoria compreendia-o. É para isto que servem as efemérides, para matar os mortos, ressuscitando-os primeiro. Houve um livro que ele escreveu em 1981 que se chamava «Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro». A ideia de orquestra pode induzir em erro. Em matéria de História e de Futuro, somos mais um realejo. Dá-se à manivela e já se sabe o que lá vem. Por isso é melhor deixarem passar a festa das comemorações. Quando retirarem os mirones e os gaiteiros, talvez se possa, enfim, tratar o assunto com respeitabilidade. Dele disse o Ruben A. esta coisa lindíssima, que consegui encontrar na página 101 do segundo volume do seu livro de memórias «O Mundo à minha procura»: «Ensinava-nos a não perder tempo, a ganhar tempo, a completar iniciativas que se discutiam». Um homem destes faz falta na vida de um país. Hoje, no burlesco comemorativo do espectáculo social em que vivemos, de barbicha ao vento e gato ao colo, é apenas uma forma de passar o tempo.

12.2.06

A angústia do amor

Adolfo Casais Monteiro traduziu para português «O desespero humano» de Sören Kirkegaard. Dedicou o trabalho a Leonardo Coimbra. Encontrei agora o livro, tirado em 1936 pela Livraria Tavares Martins, num monte de velharias amarelecidas, a cinco euros cada. Dentro, guardada por algum seu leitor, a cinta vermelha que guarneceria a obra, resumindo-a como «o desespero das almas que não querem abandonar-se à misericórdia e ao perdão de Deus». Não vou ter tempo de o ler tão cedo, mas lembrei-me esta noite de ter lido sobre quem tivera um papel primordial na conversão de Leonardo: o Padre Cruz. Procurei recordar onde o lera e encontrei-o, um breve artigo de Pinharanda Gomes, arquivado nas Actas de um Colóquio que se chamou «As linhas míticas do pensamento português». Estava entre os livros que, aqui por casa, haverão de voltar para a estante, quando houver mais estante. Folheei-o agora, para me deter numa carta que o Padre [Francisco Rodrigues da] Cruz escreveu a Leonardo em Dezembro de 1935 e onde a certo passo cita Santo Afonso: «quem quer o que Deus quer, tem tudo quanto quer». Ora Deus quis que este homem se convertesse, ele não quis outra coisa que esta conversão. Desesperado, tinha então um filho a morrer. A fé surgiu-lhe na angústia do amor.