10.2.06

Rio Mau

Passei de carro, era perto de Vila do Conde. E levava na memória o nome: Rio Mau. Na curva da sinuosa estrada, ainda me passou pela cabeça a ideia de subir, procurar, encontrar. Mas é isto o selvagem urbano com um automóvel nas mãos: segui deliberadamente em frente, regressando a Lisboa. Tinha lido em Dalila Lelo Pereira da Costa, na sua «Corografia Sagrada», onde compilou um artigo que publicara em Agosto de 1989, que era ali que estava o homem engolido pelo monstro, simbolizado na Igreja românica de São Cristóvão de Rio Mau. Erguida pelos Templários, nela está expresso «o valor ritual e existencial do sofrimento, como meio de transmutação». Na dureza granítica da vida, a ideia de que, no irrequieto movimento da viagem pela vida, não mais lá voltarei, persegue-me como se vistos os sinais, tivesse fechado os olhos à luz, o cego que não quer ver.

9.2.06

O menino e a criança

Em Dezembro de 2002 o Museu de Amadeo de Souza-Cardoso, em Amarante, organizou uma exposição dedicada a outro notável filho da terra, Teixeira de Pascoaes. Advogado também - dos que se exilam nas letras - disse sobre ele a irmã, Maria da Glória, num livro, editado em 1971, que eu ainda hei-de encontrar: «foi sempre um homem, nunca foi criança». Pegando exactamente na frase, António Cândido Franco, acrescenta, no catálogo evocativo dos cinquenta anos da sua morte: «o que é também outro modo de dizer que ele foi sempre um menino, nunca um adulto». Parece absurda a conclusão; absurda porém a realidade que a impõe.

7.2.06

A noite e o riso

Li hoje num jornal que vão sair CD's com algumas das «conversas vadias» do Agostinho da Silva. Claro que para muitos, o que vai ficar é o lado burlesco do personagem, as barbas ao vento, o ar de São Francisco de Assis, de quem aliás escreveu uma biografia. Passou-se o mesmo com o Vitorino Nemésio, de quem muitas pessoas só se lembram do «se bem me lembro». É o que dá a televisão. Um único personagem resistiu, o maestro António Melo, que acompanhava ao piano o Museu do Cinema do António Lopes Ribeiro. Entrava mudo e saía calado, com uma única excepção, à despedida, o dizer «boa noute». Tal qual: «noute», que em bom português ainda é mais onomatopaicamente escura do que a noite.

2.2.06

Nos por cá, todos bem

O português naquela sua fusão rural do animal à terra, trai-se quando fala. Acontece com advérbios de lugar que se tornam como complementos pessoais. É o «você ainda há-de vêr o que é um caldo de galinha feito pela minha senhora». É evidentemente que o tem propósito e duplamente propósito no «para do Marão, mandam os que já estão». Mas o «da minha senhora», é outra coisa e um outro mundo, é o sentido e o afecto do « das minhas», esse mundo de intimidade familiar partilhado na mesma cama, sofrido na mesma malga, sepultado no mesmo chão.

A sala 3

Às vezes é só ir ao cinema ver um filme sobre o acaso e sair-nos, afinal, um filme sobre a necessidade: a útil necessidade de manter uma conveniência, a sensual necessidade de entreter um devaneio, a cruel necessidade de liquidar uma inconveniência. Depois é só o remorso da impunidade, o ridículo da justiça, a sordidez do mundo a oferecer um culpado. Às vezes é só ir ao cinema, numa noite de acaso, por necessidade de companhia.

29.1.06

Uma leitura esperançosa

Eu admito que o António Telmo não seja fácil, mas também foi má ideia, já exaurido, levar para fim de semana um ensaio seu, pequeno que fosse e no caso é mínimo, que ele escreveu em 1963 sobre o Henri Bergson, o filósofo francês que tentou a superação do positivismo e que é um dos muitos esquecidos prémios Nobel da Literatura. Talvez pelo facto de o livro se chamar «Arte Poética», lá foi, comigo esperançoso em vencer com ele a vida prosaica a que me sujeito. Mas confesso, ainda tentei entrar nas suas poucas folhas, só que não fui capaz. Apenas ficou uma frase logo do pincípio, que é nos livros onde logo se desiste se continuar, e que ainda sublinhei: «a lembrança é um movimento especulativo da memória; a recordação uma memória activa repassada de emoções». Se isto for assim e verdadeiro, do livro tenho uma má recordação, uma nula lembrança e uma escassa memória. Ou seja, tenho, em suma, de de lembrar que o melhor é lê-lo à semana: pode ser que vá!

27.1.06

A quididade do vinho

Tentando explicar se há uma «filosofia portuguesa» ou um «filosofar em Portugal» o Jesué Pinharanda Gomes, entrando pela intersecção do género para a espécie, dá o exemplo do vinho do Porto, que, na sua particularidade, não contradiz a universalidade do conceito de vinho. O autor do «Dicionário de Filosofia Portuguesa», para chegar à sua conclusão, segue um caminho aristotélico: pois que «próprio» é o que «mesmo não sendo a essência de uma coisa só a esta pertence», a essência do vinho do Porto é «vinho», o próprio é o «do Porto», que denomina a quididade daquele vinho, pelo qual ele se distingue dos outros! Há argumentos sólidos, outros líquidos, destes uns quantos embriagantes.

26.1.06

A um Deus ignoto e ignorado

Há no último número dos «Teoremas de Filosofia» um apontamento, escrito por Eduardo Soveral, sobre a obra e o pensamento de Amorim Viana, onde se diz que, tal como o intuira Cunha Seixas, não é a afirmação de Deus, mas sim a sua negação que levanta graves problemas, quer metafísicos, quer existenciais. Já tinha lido a frase e, inclusivamente sublinhei-a. Mas agora que li, há pouco, já nem sei onde, que não há verdadeiros ateístas, mas sim inúmeros anti-deístas, tudo isto passou a fazer sentido, um grave sentido e um não menos grave problema, não direi metafísico, mas no caso existencial. É que negar Deus já é, por estranho que pareça, acreditar n'Ele, pensando-o.E aí, mesmo o homem de fé perdida, já não tem salvação possível.

25.1.06

O quarto de uma laranja

Joaquim Francisco Telo Nunes Duarte Braga. Nasceu em Condeixa-a-Nova no dia 6 de Julho de 1925. Homem solitário, viveu em Queluz. Reformou-se de empregado bancário. Escreveu em 1959 um seu primeiro livro a que chamou «Teoria da Crença». A «Fundação Lusíada» editou-lhe os «Aforismos e Ensaios Filosóficos». Li-os há uns meses, essa sua amostra de uma obra de auto-didacta. Não é que tenha encontrado ali nada de extraordinário, ou no momento não estaria capaz de o achar. Mas voltei esta noite ao livro, pois houve, porém, uma frase que ainda hoje recordo e que sendo um provérbio chinês, é como se fosse parte dessa sabedoria universal, a mãe de todas as filosofias, a portuguesa nisso incluída: «um quarto de uma laranja tem o mesmo gosto de uma laranja inteira». Assim se saiba saboreá-la!

A segunda série

Este blog, como algumas revistas, vai entrar numa segunda série. Ao longo dos anos fui-me interessando, nas horas mortas, por aquilo a que se chama a «Filosofia Portuguesa». Não sei muito, mas talvez tenha alguma capacidade de incitar outros a saberem. Se assim for, terá valido a pena. Traçamos hoje a primeira linha dessa prancha. Haja sorte!

15.1.06

Um filósofo à mão de semear

As perguntas são inocentes, as respostas simplificadas. Mas a ideia é ter um filósofo à mão, a quem perguntar não importa o quê que pareça filosófico. O site é aqui. Uma das útlimas perguntas que um leitor lá colocou tem a ver com o interesse de se estudar filosofia. A resposta do filósofo de serviço é algo redonda, mas não deixa de dizer que através da filosofia se descobre que há muito tempo e muita energia perdidos à volta de questões sem sentido. Seguramente algumas das que lá estão calham que nem uma luva!

31.12.05

O génio e a Natureza

Em 1963 a BBC entrevistou William Seward Burroughs [1914-1997]. Chamou à conversa «a álgebra da necessidade». Nela o escritor mostra como a escrita cria alterações na consciência de si, como autor, e dos outros, como seus leitores. A alucinação em si pode ser induzida, o génio, porém, esse é uma dádiva da Natureza.

29.12.05

A lei do «stress»

Li aqui que «o capital fomenta uma insegurança que faz com as que as pessoas se lhe submetam». Esta racionalização do «stress» explica muita coisa, apesar de criar a insegurança complementar sobre a sua própria validade. Talvez não seja uma regra universalmente verdadeira, mas é pelo menos uma ideia recorrentemente plausível. Que o digam os que têm a angústia dos filhos a criar, ou do tempo de vida a diminuir. É a legião dos submetidos, fonte de recrutamento de todos os revoltados.

27.12.05

A cinética aplicada

Segundo a teoria da mecânica, a energia cinética é a medida do trabalho que é necessário desenvolver para que um corpo passe do estado de repouso ao de movimento: um número infinito seguramente o desta tarde com a carga de sono com que eu estava. Tudo começou com uma sestinha. A partir daí foi o descalabro!

26.12.05

A linguagem numérica

Diz-se de alguém que «possui a geométrica noção dos males e dos remédios, a percepção subtil do ridículo e da impossibilidade». Diz Mário Cláudio sobre Amadeo de Sousa-Cardozo, a quem Almada chamou, na linguagem numérica que é a dos pintores «o substantivo ímpar, 1».

24.12.05

Arestas

Há no «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira aquele momento em que ele fala de um personagem, «um tipo todo em arestas como um teorema de geometria». Mas mais: «um tipo dividido entre a aridez mecânica da política e a banalidade do homem comum». Acabei de ler o livro noutro dia, e voltei hoje a procurar a frase, uma extraordinária frase!

6.12.05

Ilogismo

Há na Fundação Gulbenkian uma pequena biblioteca de arte e nela livros de todas as artes e num deles um estudo amigável que Alberto Gomes escreveu sobre o pensamento de Jesué Pinharanda Gomes. Há nesse folheto, que de tão pequeno ser consegui lê-lo por almoçar depressa, um momento em que se diz que o rigor lógico dos portugueses é o ilogismo do rigor poético, que é a nossa razão intuitiva.

23.11.05

A hipotenusa da rectidão

O geómetra Pitágoras descobriu a harmonia do cinco: ele é a hipotenusa do triângulo rectângulo cujos lados são o 3 e 4. Eis a quintaessência do número, o sublime da ideia, o trevo de cinco folhas, o pentagrama da sabedoria universal, o momento do excepcional.

19.11.05

Lento e inexorável

Ali estava a expressão que dá coerência formal a este meu modo de ver geometricamente a vida que nos cerca: «uma aritmética sem paixão, que é que cabe na aritmética? A paixão é a vida». Vem no «Nítido Nulo», que lá continuo a ler, lenta mas inexoravelmente.

16.11.05

Positiva e animadora

A linguagem quantitativa tem destas ambiguidades: «pequena» e «pouca», uma das palavras mais própria para as unidade de medida, a segunda como unidade de peso. Não é diferença diminuta nem leve. Mas é uma ideia positiva e animadora.