26.12.05

A linguagem numérica

Diz-se de alguém que «possui a geométrica noção dos males e dos remédios, a percepção subtil do ridículo e da impossibilidade». Diz Mário Cláudio sobre Amadeo de Sousa-Cardozo, a quem Almada chamou, na linguagem numérica que é a dos pintores «o substantivo ímpar, 1».

24.12.05

Arestas

Há no «Nítido Nulo» do Vergílio Ferreira aquele momento em que ele fala de um personagem, «um tipo todo em arestas como um teorema de geometria». Mas mais: «um tipo dividido entre a aridez mecânica da política e a banalidade do homem comum». Acabei de ler o livro noutro dia, e voltei hoje a procurar a frase, uma extraordinária frase!

6.12.05

Ilogismo

Há na Fundação Gulbenkian uma pequena biblioteca de arte e nela livros de todas as artes e num deles um estudo amigável que Alberto Gomes escreveu sobre o pensamento de Jesué Pinharanda Gomes. Há nesse folheto, que de tão pequeno ser consegui lê-lo por almoçar depressa, um momento em que se diz que o rigor lógico dos portugueses é o ilogismo do rigor poético, que é a nossa razão intuitiva.

23.11.05

A hipotenusa da rectidão

O geómetra Pitágoras descobriu a harmonia do cinco: ele é a hipotenusa do triângulo rectângulo cujos lados são o 3 e 4. Eis a quintaessência do número, o sublime da ideia, o trevo de cinco folhas, o pentagrama da sabedoria universal, o momento do excepcional.

19.11.05

Lento e inexorável

Ali estava a expressão que dá coerência formal a este meu modo de ver geometricamente a vida que nos cerca: «uma aritmética sem paixão, que é que cabe na aritmética? A paixão é a vida». Vem no «Nítido Nulo», que lá continuo a ler, lenta mas inexoravelmente.

16.11.05

Positiva e animadora

A linguagem quantitativa tem destas ambiguidades: «pequena» e «pouca», uma das palavras mais própria para as unidade de medida, a segunda como unidade de peso. Não é diferença diminuta nem leve. Mas é uma ideia positiva e animadora.

12.11.05

Uma forma profunda de saber

O JL publica na última página textos de cunho auto-biográfico. Neste último número vem um da Luísa DaCosta. A certo passo falando do António José Saraiva diz que ele tinha por hábito visitá-la no Porto dizendo que o fazia para se aconselhar e que, ante a sua surpresa quanto a que «diabo de consulta poderia fazer a sabedoria à ignorância», ele lhe deu esta resposta magistral: «Está enganada. Redondamente enganada. A Luísa sabe da melhor maneira de saber. Sabe de instinto».

11.11.05

O tocador de campainhas

Esta noite vim passear aos blogs todos só para não dizer que não vim até cá. É como aqueles maníacos que tocam às campainhas dos prédios, só para ouvirem vozes a perguntarem quem é. No meu caso a coisa não chega a tanto; quando ouço que vão responder-me grito-lhes um «sou eu» e largo a fugir, blog abaixo, em risota desconcertada a lembrar-me da cara dos que se perguntam onde é que está a piada de tocar para nada e por coisa nenhuma.

6.11.05

A demonstração satisfatória

«Devo admitir em primeiro lugar que ainda não consegui uma demonstração rigorosa deste teorema. Como, em todo o caso, a sua verdade foi estabelecida em tantos casos, não pode haver dúvidas que é verdadeiro para qualquer sólido. Portanto a proposição parece satisfatoriamente demonstrada». A frase data do século dezoito e pertence a Euler. Eis a verdade possível, aquela cuja falsidade ainda não foi demonstrada, a verdade resistente, a verdade que subsiste.

2.11.05

Um par de galhetas

Apanhei-o, enfim, ao bandido! Qual rufia, malfeitor marginal, bem se tentava esconder, nos confins baixos de uma estante, quase ao alcance de uma saraivada de pontapés. Responsável pelo meu ódio à literatura, da minha raiva à língua de Camões e ao próprio Camões! O que eu sofri, sem saber então que era por causa dele! Agruras de não ser capaz, a crise de confiança nasceu ali, tal como as borbulhas da barba e pela mesma altura. Agora ali estava! Foi ontem, vinha eu de não me apetecer jantar. O ser chama-se Jerónimo Soares Barbosa. Escreveu em 1822, em plena revolução vintista, uma coisa imensa de monstruosa chamada «Gramática filosófica da língua portuguesa». Ali estava ela agora, na FNAC, uma «edição anastáticas», para que vingasse o exemplo, para memória dos coevos. Sabem o que eu descobri?. O malandrim polígrafo, que o seu panegirista chama de latinista exímio e helenista, depois de umas centenas de páginas sobre a arte de falar e escrever correctamente, atira-se, da página 434 em diante aos Lusíadas e desmonta-os aos pedacinhos, aplicando-lhes milimétrica e mesquinhamente todos e cada um dos mil princípios gramáticos que antes enunciara, incluindo as modificações prosódicas e os solecismos nas proposições parciais. Porquê a minha raiva de iletrado, esta fúria de ignorante? Porque os da minha geração, que à força de palmatória, dividiram as orações ao canto I o das armas e varões assinalados que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados, já sabem de onde veio a tortura. Foi ele! Se o apanho numa esquina, leva! De um par de galhetas não se livra!

23.10.05

Mundo de sofismas

Esgotada a demonstração racional «more geometrico», só a via caritativa da aquisição da verdade pela crença e pela confiança poderão salvar este mundo de sofismas. Chegados a este ponto de convicção, pergunto-me o que poderei considerar eu mais aqui. Atinjo os limites do irredutível, o do homem que, desconfiando na sua cabeça, se entrega aos ditames do seu coração. Perplexo como foi possível, não sei como continuar.

18.10.05

Um barba paradoxal

Se numa aldeia um barbeiro faz a barba a todos os que não fazem a própria barba, quem faz a barba ao barbeiro? Eu sei que é um paradoxo, mas lembrei-me dele ao dar conta que o barbeiro da minha rua tem um ajudante que um destes dias estava com a barba por fazer.

17.10.05

O esquadro

O esquadro tem esta coisa simbólica, o ser o símbolo da rectidão. Claro que muitos que o dizem e com isso se paramentam, são o contrário do que proclamam. Para esses resta o triângulo. Tem sobre ângulo, que o esquadro traça, a vantagem de ser fechado: não se perde o que se tem, não entram os que são de fora. Há quem viva disto e com isto prospere, mais do que simbolicamente, verdadeira e realmente.

16.10.05

Os sapatos e seus atacadores

Foi o Luís Sepúlveda quem disse, numa entrevista ao Mil Folhas que o desafio da Literatura não é apresentar as coisas de modo verosímil, mas sim credível. Ora aí está, nesse modo de demonstrar, o descaramento dos nossos dias: que importa a história verdadeira, quando a fábula convence? Eis o que pensa o amante nocturno, retornado a casa, madrugada alta, alma satisfeita, consciência pesada, os sapatos na mão!

14.10.05

Uma vida secante

Este blog diz ser «a história breve do homem que vivia à tangente». O problema é, como sucedeu nos últimos dias, o homem viver, não brevemente à tangente, mas longamente à secante. Fica em tal estado que nem coragem tem para vir aqui.

11.10.05

O equador

O norte magnético é a fatalidade dos que vivem no sul, a descoberta da latitude o sentido da distância. Nada mais existe no equador da vida.

9.10.05

A Mecânica dos Fluídos

O peso aparente de um corpo é a diferença entre a força da gravidade e o impulso que nele se exerce. Imagine-se o pobre humano, entre o impulso de acção e a força da inacção, o acordar preguiçoso num dia de deveres, o desejo de cama e a obrigação de secretária. Ao fim de um dia, tudo isso pesa, naturalmente. Só que, embora doa, como se explica na mecânica dos fluídos, é um peso simplesmente aparente; pior quando é positivo, porque então o corpo afunda-se, sem que nada afinal tenha meio de o sustentar.

8.10.05

Forma pura

A geometria é a mais pura forma de geografia; não trata de nada que exista na terra, nem da própria terra: trata de todas as terras possíveis, e do próprio céu.

7.10.05

O homem que nunca não

Hoje quem vier aqui não encontra nada. O zero não existe, eu sei, é um conceito útil ao sistema decimal. Passarei, por isso, a escrever em numeração romana: nasci em MCMXLIX, mas esse não foi o meu ano zero, foi o meu ano um. Por assim ser, nunca não existi e, com sorte, no ciclo vital da vida, talvez nunca deixe de existir. O que pode ser é que se esqueçam.

6.10.05

Intervalo

O intervalo é o que separa os sistemas contínuos dos outros, que se chamam discretos. Nestes quando o intervalo surge, é porque acabaram. Depois deles, é o nada.