6.11.05

A demonstração satisfatória

«Devo admitir em primeiro lugar que ainda não consegui uma demonstração rigorosa deste teorema. Como, em todo o caso, a sua verdade foi estabelecida em tantos casos, não pode haver dúvidas que é verdadeiro para qualquer sólido. Portanto a proposição parece satisfatoriamente demonstrada». A frase data do século dezoito e pertence a Euler. Eis a verdade possível, aquela cuja falsidade ainda não foi demonstrada, a verdade resistente, a verdade que subsiste.

2.11.05

Um par de galhetas

Apanhei-o, enfim, ao bandido! Qual rufia, malfeitor marginal, bem se tentava esconder, nos confins baixos de uma estante, quase ao alcance de uma saraivada de pontapés. Responsável pelo meu ódio à literatura, da minha raiva à língua de Camões e ao próprio Camões! O que eu sofri, sem saber então que era por causa dele! Agruras de não ser capaz, a crise de confiança nasceu ali, tal como as borbulhas da barba e pela mesma altura. Agora ali estava! Foi ontem, vinha eu de não me apetecer jantar. O ser chama-se Jerónimo Soares Barbosa. Escreveu em 1822, em plena revolução vintista, uma coisa imensa de monstruosa chamada «Gramática filosófica da língua portuguesa». Ali estava ela agora, na FNAC, uma «edição anastáticas», para que vingasse o exemplo, para memória dos coevos. Sabem o que eu descobri?. O malandrim polígrafo, que o seu panegirista chama de latinista exímio e helenista, depois de umas centenas de páginas sobre a arte de falar e escrever correctamente, atira-se, da página 434 em diante aos Lusíadas e desmonta-os aos pedacinhos, aplicando-lhes milimétrica e mesquinhamente todos e cada um dos mil princípios gramáticos que antes enunciara, incluindo as modificações prosódicas e os solecismos nas proposições parciais. Porquê a minha raiva de iletrado, esta fúria de ignorante? Porque os da minha geração, que à força de palmatória, dividiram as orações ao canto I o das armas e varões assinalados que da ocidental praia lusitana, por mares nunca dantes navegados, já sabem de onde veio a tortura. Foi ele! Se o apanho numa esquina, leva! De um par de galhetas não se livra!

23.10.05

Mundo de sofismas

Esgotada a demonstração racional «more geometrico», só a via caritativa da aquisição da verdade pela crença e pela confiança poderão salvar este mundo de sofismas. Chegados a este ponto de convicção, pergunto-me o que poderei considerar eu mais aqui. Atinjo os limites do irredutível, o do homem que, desconfiando na sua cabeça, se entrega aos ditames do seu coração. Perplexo como foi possível, não sei como continuar.

18.10.05

Um barba paradoxal

Se numa aldeia um barbeiro faz a barba a todos os que não fazem a própria barba, quem faz a barba ao barbeiro? Eu sei que é um paradoxo, mas lembrei-me dele ao dar conta que o barbeiro da minha rua tem um ajudante que um destes dias estava com a barba por fazer.

17.10.05

O esquadro

O esquadro tem esta coisa simbólica, o ser o símbolo da rectidão. Claro que muitos que o dizem e com isso se paramentam, são o contrário do que proclamam. Para esses resta o triângulo. Tem sobre ângulo, que o esquadro traça, a vantagem de ser fechado: não se perde o que se tem, não entram os que são de fora. Há quem viva disto e com isto prospere, mais do que simbolicamente, verdadeira e realmente.

16.10.05

Os sapatos e seus atacadores

Foi o Luís Sepúlveda quem disse, numa entrevista ao Mil Folhas que o desafio da Literatura não é apresentar as coisas de modo verosímil, mas sim credível. Ora aí está, nesse modo de demonstrar, o descaramento dos nossos dias: que importa a história verdadeira, quando a fábula convence? Eis o que pensa o amante nocturno, retornado a casa, madrugada alta, alma satisfeita, consciência pesada, os sapatos na mão!

14.10.05

Uma vida secante

Este blog diz ser «a história breve do homem que vivia à tangente». O problema é, como sucedeu nos últimos dias, o homem viver, não brevemente à tangente, mas longamente à secante. Fica em tal estado que nem coragem tem para vir aqui.

11.10.05

O equador

O norte magnético é a fatalidade dos que vivem no sul, a descoberta da latitude o sentido da distância. Nada mais existe no equador da vida.

9.10.05

A Mecânica dos Fluídos

O peso aparente de um corpo é a diferença entre a força da gravidade e o impulso que nele se exerce. Imagine-se o pobre humano, entre o impulso de acção e a força da inacção, o acordar preguiçoso num dia de deveres, o desejo de cama e a obrigação de secretária. Ao fim de um dia, tudo isso pesa, naturalmente. Só que, embora doa, como se explica na mecânica dos fluídos, é um peso simplesmente aparente; pior quando é positivo, porque então o corpo afunda-se, sem que nada afinal tenha meio de o sustentar.

8.10.05

Forma pura

A geometria é a mais pura forma de geografia; não trata de nada que exista na terra, nem da própria terra: trata de todas as terras possíveis, e do próprio céu.

7.10.05

O homem que nunca não

Hoje quem vier aqui não encontra nada. O zero não existe, eu sei, é um conceito útil ao sistema decimal. Passarei, por isso, a escrever em numeração romana: nasci em MCMXLIX, mas esse não foi o meu ano zero, foi o meu ano um. Por assim ser, nunca não existi e, com sorte, no ciclo vital da vida, talvez nunca deixe de existir. O que pode ser é que se esqueçam.

6.10.05

Intervalo

O intervalo é o que separa os sistemas contínuos dos outros, que se chamam discretos. Nestes quando o intervalo surge, é porque acabaram. Depois deles, é o nada.

5.10.05

Tiro e queda

Quando fui à inspecção militar pesava quarenta e oito quilos; talvez por isso foi-me atribuída a especialidade de armas pesadas de infantaria. Tudo aquilo girava em torno do cálculo de trajectórias de tiros, parábolas mortíferas projectadas nos céus. Totalmente ignorante e sem qualquer queda para a geometria, um dia, aplicando, a meu modo, a fórmula do livro ao tiro do morteiro, apontei a boca da arma para o que era suposto ser o alvo. Sem paciência para tipos da minha laia, o irascível tenente, comandante do nosso esfrangalhado pelotão, invectivou-me com um ó rapaz olha lá para onde estás a apontar. Estava de facto, para a janela do quarto do comandante, no quartel em Mafra. A guerra estava perdida.

4.10.05

O salto mortal

Bem me parecia que tinha saltado um dia sem vir aqui. É como naquelas demonstrações dos teoremas em que se percebe que na dedução falta uma linha. O resultado está certo só que à conta de se fazer de uma pirueta.

2.10.05

Estar

Com a mudança tinha-os carregado para o topo da estante. Para ir ter com eles, tinha de ir buscar o escadote que está na cozinha. Mas nem sempre apetece a um homem levantar-se para ir buscar um escadote. Ontem decidi-me e apeei-os. Ficaram ao alcance da mão. Eis-me com o volume quinto, onde ele encontra a frase eu sou quem está cá, esse modo popular de cada um dizer que é igual a si próprio. Ele, o Vergílio Ferreira, na sua Conta Corrente, primeira série. Cada um, os que ainda sabem quem são e que ainda estão.

30.9.05

À glória de ∏

Calcular a curva pela recta, o perímetro da circumferência pelo seu raio, desemboca no paradoxo aparente da quadratura do círculo: só o geómetra sabe, iniciado no mistério do número, como isso é possível. O número é imperfeito, o resultado exacto.

29.9.05

O limite do eu

Imagine-se um triângulo inscrito no interior de uma circunferência. Imagine-se o triângulo a converter-se, primeiro em quadrado, a seguir em pentágono, a seguir em hexágono, em heptágono e assim sucessivamente, ganhando cada vez mais lados. A regra é conhecida: à medida que o número de lados aumenta, o perímetro do polígono aproxima-se cada vez mais do perímetro do círculo no interior do qual se encontra. Qual o limite? Geometricamente, o único limite é o infinito. Assim se passa com os que se desdobram: um dia de infinito, chegaram ao seu limite.

28.9.05

Apanhando as canas

A propósito de um livro de poemas de Luís Adriano Carlos, Urbano Tavares Rodrigues escreveu, em recensão, que: «por detrás dessa pirotecnia semântica e versificatória, neoconceptista, há uma emoção que pensa, à maneira de Pessoa, mesmo quando através do exercício lúdico, das geometrias do poema, das glosas do verso dado». Claro que me ficaram os olhos na expressão plural «geometrias do poema», mas ficaram só até ter dado conta que Urbano, tratando a obra como algo de «muito alto preço», forma de dizer da sua valia, diz que ele «é um livro de poemas ultra-habilidoso», querendo dizer, afinal, que ele é um livro rebuscado. A partir daqui já nem comigo me entendo: geométrico, sim, pensante, às vezes, lúdico, quando posso, agora habilidoso! Nem pirotecnicamente falado, porque não ando atrás de foguetes.

26.9.05

O lar como ideia

Sentado à sua banqueta, sobre o estirador debruçado, fosforescentemente iluminado, há um labirinto humano a desenhar. Na precisão exacta do seu rabiscar, riscado e garatujado, existe, nessa aracnídea figura de rebuscada alma, a ilusão da forma na alucinação do conteúdo. Um dia, estúdio adentro, a ideia surge, como se ali entrasse sem bater. O homem gera projecto. Nómada da geometria, faz da casa alheia o esboço que ali a antecipa e no papel. São hoje riscos, amanhã um lar.

25.9.05

A ridícula demonstração

Não tinha vindo aqui hoje e seguramente não há nada que tenha para dizer. Perguntar-me-ia alguém que me lesse, porque vim então dizê-lo assim, como se expressamente. Precisamente por isso, respondo eu, sem ter sequer interlocutor que me ouça: foi-se embora, deixando-me a falar sozinho. Estava eu a explicar-me, ridículo como todos os que se explicam, e assim fiquei.