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2.3.12

Incorpórea, a Alma viajou

Não tenho no lugar onde me encontro nenhum dos seus livros mas apenas a memória desses livros. Não consigo, diminuído pelo cansaço, reconstituir o sentir anímico que essa escrita em mim causa, aquele ligeiro roçar de asas que é uma carícia pela alma e um desabar do precário castelo de cartas da ilusória Razão. Sim o abatimento do corpo e com ele o silêncio e o florir da Criação que nela foi poética e mística e sagrado. 
Dalila Lelo da Costa anulou todas as diferenças entre os mundos em todos eles surpreendendo uma só realidade que pelo desamparo do pensamento não conseguia alcançar-se. Biografou-se pelos êxtases, situou-se num mundo cuja corografia eram os marcos miliários dos passos peregrinos. Foi a voz profética, a alma lusíada. Escreveu indistintamente sobre o invulgar e o comum.
 Não admira que uma tal excepecionalidade tenha sido esquecida porque é a forma de muitos irracionais cultores de alegado racionalismo condenarem à morte os que escapam ao paradigma das suas certezas catedráticas.
Ímpar mulher, não teve escola, foi escola, sem aulas, sem programa, puro exemplo. A religiosidade, mais do que vivência, nela foi ser. O seu Deus é um Deus familiar, o seu culto é Mariano, a sua teologia a do Espírito Santo, incorpórea, indizível.
Nasceu no Porto em 1918 e no Porto morreu. Li há pouco a notícia, o coração pesaroso.

17.1.12

Os Instantes do Eterno

Os passos encaminharam-me, inexoráveis, para o livro, obra de uma biografia interior, densa, como o traçado de uma via de caminhada espiritual, assinalados os marcos miliários do seu encontro com a transcendência. 
Obra oriunda da clausura dos silêncios, na apercepção do contemplativo, fruto de «leituras de mestres da vida, mais do que mestres de pensamento».
Dalila Lello Pereira da Costa é a expressão da invulgaridade, iluminada pelo arder místico do Mistério, submissa aos dogmas como «fixações necessárias dum conhecimento revelado», esforçando-se pela constante racionalização da noética e sua simbólica.
Nos labirintos do seu modo de expressar o Verbo e com ele a Graça, fiel no seu apagamento do "eu", inoportuno e invasor, não tem paralelismo, anulando o que diferencia. 
O livro é a narrativa da trina visitação, os estados extáticos que haviam sido tema de um dos seus primeiros livros, editado pela personalista Esprit, o aprofundamento do esotérico, porta aberta pela qual penetrara, nas primícias, na personalidade ímpar e una de Fernando Pessoa; e um amor à Pátria, permanente na viagem de argonauta lusíada, Pátria que tendo-se dado inteira à Humanidade vive agora «um sentido sagrado de oblação a sua final agonia».
Foi publicado em 1999. Como quase todas as suas obras - e creio que poucas me faltam - quase impossível de se encontrar.
Profética, poética, absolutamente fora dos cânones. Exauriu-se para ser a voz. Não ousa revelar, dizendo-o.

17.10.11

A metamorfose do ser

Talvez porque o mundo das obrigações hoje pese, ou as preocupações tenham, porque aliviaram nalguma das suas frentes, gerado o vazio e com ele o cansaço, ou porque um homem não é só o que tem de ser mas é mais, quanto mais, aquilo que gostaria de estar a ser, e há tanto mundo que não se vive, lembrei-me dela: Dalila Lello Pereira da Costa. 
Tão poucos a conhecem. Sim, sabem-na os da Filosofia Portuguesa. E juntei-a, eu, à sua obra, tomo a tomo e vivo agora o receio de me faltar qualquer escrito menos conhecido ou que a minha ignorância desconheça.
E fui buscá-lo, ao livro A Força do Mundo, que editou em 1972 e creio já citei aqui, porque trata do êxtase da alma, o decapar a personalidade até à transpessoalidade. São «iluminações, sonhos, visões, intuições poéticas», a metamorfose, enfim, a possessão.
Vejo que nem esse livro acabei e queria lê-lo todo. Felizmente «o tempo não passa, não é linear, mas esférico, como o espaço». Por isso esta noite continuo até o mais tarde que puder e amanhã começo o mais cedo que conseguir, circular a vida.

12.7.11

Folclore ideológico

As circunstâncias adversas, a mobilidade reduzida. O livro imenso, pesado, 1029 páginas, letra miúda, espaço apertado entre as linhas, como objecto de difícil manuseio. Mas há muito que cortejava.
Doeram-me as gralhas, e dei logo com umas quantas, inadmissíveis num livro da Imprensa Nacional. É o Pensamento Português Contemporâneo, 1820-2010 de "Miguel Real", o pseudónimo literário de Luís Martins. Tiraram-se oitocentos exemplares, o que mostra que há tão pouca gente interessada no pensamento português, ainda que contemporâneo.
Comecei por capítulos quase finais, o dedicado a António Quadros e a Dalila Lello Pereira da Costa, esta «autêntico mito vivo da filosofia portuguesa», quase desconhecida salvo por um pequeníssimo círculo, aquele com obra «envolvida por artigos de panegirismo de companheiros e amigos das lides filosóficas», «remetida para o limbo do "folclore ideológico"».
Miguel Real organiza a sua obra - que compila um seminário que leccionou na Faculdade de Letras de Lisboa - antecedendo-a de uma apresentação. Categoriza o mundo do pensamento entre o «providencialismo messiânico da Igreja e do Estado» e «o racionalismo e empirismo europeus» e quanto às modernidades que deram ao todo a dinâmica da singularidade separa os vanguardismos - todos os movimentos culturais, políticos e sociais do século XX de alto valor prosélito, providos de instituições e órgãos, cujo objectivo máximo seja, não a "reforma de mentalidades" (...) mas a tomada política do aparelho de Estado - dos modernismos - - afinal «todos os movimentos culturais portugueses, de baixo valor prosélito, de índice grupal, não raro sobrevivendo isolados, despercebidos ou repugnados pela mentalidade dominante, apenas providos de órgão informativo, cujo objectivo máximo consiste na expressão individual estética e/ou na "reforma das mentalidades" por via da difusão de novos conhecimentos e novas atitudes culturais».
Livro interessante, compêndio, há, porém, a desdentá-lo o feio das generalizações. Falando da Universidade refere-a como «casa do saber transformado pelos positivistas da I República e os professores acéfalos do Estado Novo em casa de elite decepada de inteligência». Ora houve, mesmo com o Estado Novo e no Estado Novo, gente com inteligência, saber e cultura de excelência, pelo que esta indecência qualificativa é cientificamente errada e culturalmente vulgar. Tem apenas a vantagem de ser "popularucha" e como tal levar o autor à glória fácil. Não havia necessidade. Já nem cito o que diz da Igreja e do Estado, porque se intui do excerto. Mas entristeceu-me ler o que li.
As circunstâncias eram adversas, eu sei, trazerem-me o livro foi um carinho, começar a lê-lo foi um esforço. Mas confesso que o tomei nas mãos com respeito e apreço. Nada no que nele é magnífico fica em causa. E sobretudo tudo o que nele há de útil fica salvo. Vou tentar lê-lo todo apesar de imenso. Mas é um repto.