16.5.13

António Quadros, o meu testemunho



Eis o testemunho que apresentei no colóquio evocativo dos vinte anos passados sobre a morte de António Quadros.


Há livros que, ao frequentá-los, marcam, o que os da fria gnoseologia chamam, “cortes epistemológicos”. São clivagens no pensamento e na própria essência do ser pensante.
Sucedeu-me isso com António Quadros. Por isso aceitaria deixar este testemunho.
De testemunho estranho se trata, este meu, porque sendo o de uma pessoa que se clama de uma outra, eu a convocar-me dele, nunca os nossos corpos se encontraram em qualquer das esquinas da coincidência possível, o meu testemunho não tem provas do efeito, sou apenas o lugar íntimo onde se situa a causa do que se espera possa vir a ter amanhã.
António Quadros frutificará, germinando a semente que deixou. A improbabilidade tornou-se facto. Falarei, pois, daquilo que sou, vindo dele.
Provenho de uma geração que, numa significativa parte, se formou sob a bandeira do marxismo, não como mais um método analítico da economia política, sim como doutrina totalizadora, a dar explicação, programa, bandeira, política e meio para a proclamada única interpretação e para a internacional transformação do mundo, como ficou na célebre tese do autor do Das Kapital sobre Ludwig Feuerbach.
Mas eu não sou o meu tempo, por ser a ele antecedente. Escapei, pois, incólume, a essa colectivização da pessoa.
O que me tornou naquilo que sou, foi, sim, o aluvião sensitivo dos que, vindos dos escombros trágicos da segunda guerra me transmitiram do exílio as dores, da barbárie totalitária a vergonha, os que sentiram o opróbio da humana angústia, os que viram no Homem a criatura defectiva, imperfeita, em busca do ómega possível do seu encontro com uma mística sem deuses, em perpétua derrelicção, antropologia existencial do ser, situados, cercados pela História e pela genética, livres, porém, pela contingência de um acaso cósmico, os que, entre nós, tudo isso sentiram neste modo triste de ser-se português.
Estava, pois, por isso mesmo, preparado para o encontro desde que, aos dezasseis anos, não tendo ainda lido os clássicos russos, lhes conhecia, da estepe cultural, a alma, tão próxima da nossa na sua nostalgia. E tinha sentido a náusea e sobretudo a queda. E o homem revoltado. Preparei-me então para o Sísifo da vida, roendo-me dos fígados a peste que me tornara um ser isolado do colectivo dos da minha geração.
O pragmatismo amoral que se apoderou-o subitamente no Verão passado de 1975, de muitos dos pequeno-burgueses de fachada socialista, que já eram, encapotadamente então, o que o futuro lhes reservava, tornando-os hoje gestores materialistas do capital apátrida e suas perversões, passou-me ao lado, porque de ideologia se tratava apenas, tecnocracia de acção a fingir-se, através da dialética, ciência, positivismo utilitário, ideias hipócritas feitos carreira, seguro-caução.
Eis o vazio então em torno de mim, na hora agónica em que nenhum outro povoa o amanhã da nossa existência. Nem a frescura de asas desses seres intermédios, mercuriais ou herméticos, que ele viu.[o resto o continua aqui]